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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dez - Parte 2

O caminho que percorri dirigindo até o apartamento da Anne, que é o mais próximo da casa do Bruno, parece que foi mais longo do que sempre. Eu estava apreensiva pois não gosto de brigar com o Bruno, me sinto uma idiota por estar fazendo isso só de cobrança porque ele foi a um pub no inicio da semana. Tá, não é só por isso, e quando eu me lembro de tudo que passou pela minha cabeça quando ele disse que iria sair à noite, volta a raiva e eu volto a pensar besteiras e me sinto orgulhosa por seguir o meu caminho.

-Desce que eu estou aqui te esperando.

Nem esperei ela falar algo, apenas dei o recado pois estava com pouco crédito no meu celular. Ela aparece no portão do prédio que eu morei por tanto tempo, trajando um vestido bem safado e um salto que mal podia com ele. Mas ainda sim ela não perdia a pose. Abrindo a porta de trás, ela atira um beijo pra mim.

-Coloca o cinto, belezura. - Digo pra ela que ri.

-E o Bruno, não ficou bufando?

-Ele só faltou tocar fogo em mim e me prender nos pés da cama pra não sair. - Digo arrancando o carro e pelo espelho retrovisor cuidando se havia carros vindo. - Mentira, não foi tanto assim, mas ele está bravo comigo.

-Manda ele a merda.

-Pensei nisso, mas aí eu lembrei que o amo. - Dei de ombros.

-Então... então não sei.

Lisa gosta do Bruno, sempre gostou, mas ultimamente ela, assim como eu, acha desnecessário essas atitudes que ele anda tendo. Eu sinto que ele está se enjoando dessa vida de família, de chegar em casa para dar boa noite pra mim e pra Bê e jantar conosco. Eu tenho certeza que ele só não pediu um tempo ainda por causa da Bernadette. Peguei as meninas e elas se ajeitaram no banco de trás, depois peguei Thales que sentou no banco do carona e fomos conversando até chegarmos na frente da balada. Há tanto tempo que eu não vou em lugares assim.

(*)

-Vamos dançar! - Pres puxa minha mão quando eu estava parada encostada na parede vendo os quatro dançarem como doidos.


-Ah... - Ia dizer que não, quando ela me lança aquele olhar 43 prestes a me matar. 

-Meu irmão não merece que você venha para uma festa e fique pensando nele. 

-Não é exatamente nele... é aquele instinto maternal, tenho medo de que aconteça algo com a Bê. 

-Bruno está lá, não está? - Assenti positivamente. - A babá está lá também, não está? 

-Sim. - Respondo. 

-Então, se acontecer algo eles vão nos ligar, mas fica tranquila que nada vai acontecer. 

-Só você mesmo. - Dei risada e segui o caminho para a pista de dança. 

Já tinha tirado minha jaqueta, e mesmo assim estava calor demais lá dentro. Fiquei mostrando várias opções de homens para a Lisa e ela ria alto de algumas coisas que Thales falava. Para Tiara, um homem veio falar comigo perguntando o nome dela, e eu com meu poder de convencimento, disse para ele perguntar diretamente para ela, e aonde eles estão agora? Sentados... se "conhecendo".

Thales, Pres e eu dançávamos sem pensar no amanhã. Ah, é claro que eu estava pensando, mas se demonstrasse era capaz de levar um tiro de escopeta em minha testa. Lisa dançava, mas ficava olhando para os lados e toda a hora indo "passear" pela pista pra ver se achava alguém. Thales, o que eu pensei que estaria impossível, estava tranquilo, não estava demonstrando que queria alguém e eu até estranhei isso.

Caminhei para o banheiro e ajustei minha roupa. Peguei meu celular porque esse era o único momento que eu poderia checar algo e não ser crucificada por todos. Havia uma ligação do Bruno, mas quando vi o horário percebi que ele tinha ligado assim que eu saí de casa. Se fosse algo realmente importante ele teria ligado para todos nós e insistido na ligação. Retoquei meu batom e saí de volta para a pista. 

(*)

-Acho que as três desmaiaram ali. - Comento olhando para trás e vendo Pres, Tiara e Lisa dormindo uma escorada na outra.


-Cansaram de tanto dançar. - Thales diz. - Eu ia dizer que cansaram de tanto dar, mas nenhuma deu.

-Que abuso. - Comento entre minhas gargalhadas.

-Não parou de pensar na casa enquanto estava lá, não é?

-É. - Admito. -Deu pra perceber?

-Você estava fingindo muito bem, mas eu sou mais sensitivo, sabe disso.

Bufo e balanço a cabeça rapidamente olhando para fora, as coisas passavam voando por nós, mas não estávamos tão rápidos assim.

-Fiquei pensando na Bê, no Bruno bravo comigo e no que eu devo fazer e quando isso vai acabar.

-Você deve pensar em você primeiro. - Thales diz e para no sinal. - Quando retorna pro serviço?

-Sobre isso... Eu pensei em não voltar mais.

-Que? - Ele me olha incrédulo. - Você quer ser livre, quer viver a sua vida e ser independente, mas quer parar de trabalhar?

-Parar de trabalhar lá. - Giro meus olhos.

-Nem pense nisso! Você continua lá e mostra pro Bruno que se ele quiser largar você não tem problema, pois você tem poder e sabe se virar sozinha.

-Mas eu não quero que ele me largue. - Comento.

-Nem eu quero que vocês se separem, mas ninguém sabe do dia de amanhã! Aí imagina se em outra briga qualquer  vocês terminam. O que vai fazer? Viver de pensão dele?

-Eu...Eu não tinha pensado exatamente nisso. -Confesso que agora tudo embaralhou na minha mente.

-Então, acha que vai largar assim mesmo?

-Não sei... - Coloco minha mão sobre a testa. - Juro que irei pensar sobre isso, juro!


sábado, 24 de maio de 2014

Nove - parte 2

-O que a polícia queria dessa vez? - Bruno tem tantos apelidos vindo da Lisa que até nesse tipo de hora me fazem rir.

-Ele queria avisar que vai num pub. - Fiz careta feia e ela ri.

-Em plena terça feira? - Arregala os olhos. - Bom... não tem dia pra ir em pub...

-Eu sei exatamente o que pensou! - Reviro os olhos.

-Os meninos vão com ele?

-Diz ele que sim. - Peguei o copo e dei dois goles escassos. Olhei pra Bê dormindo tranquilamente no carrinho. - Seu pai é o maior idiota do mundo. - Bufo.

-Tadinha, não ensina isso. - Lisa ri. - Eu sei que é a verdade, mas sei lá.

-Ela tem que aprender desde cedo. Não é fácil. - Bufo mais uma vez.

-Você acha... - Ela parece repensar por diversas vezes o que iria perguntar em sua cabeça. - Esquece!

-Fala. - Peço.

-Você acha que ele pode estar traindo você? - Pergunta ela receosa.

É estranho ouvir isso de outra pessoa. Quando está somente na minha mente embaraçosa e incompreensível, até é "normal" pensar isso, mas ouvindo assim é assustador. Mexo meus pés, tomo mais um gole e fico pensando em quinhentas possibilidades.

-Eu espero qualquer coisa vinda dele. - Digo, por fim.

-Mas, pensa bem, ele está com você há tanto tempo, acho que isso ele não faria.

-Se ele fez antes com outras, o que impediria de fazer isso comigo?

Lisa parece ficar pensando. Seja lá o que ele está fazendo, se está com outra - outras - ou não, eu não quero saber. Não vou privar-me de fazer minhas coisas por causa dele.

***

Deixei tudo esquematizado. Contratei a mesma babá de sempre, a senhora que cuida da Bê, ela virá aqui ás nove horas. Sete e meia eu entro para o banho e consigo me arrumar bem tranquila, Bruno chegará por volta das oito e meia, então acho que já estarei pronta praticamente.

-Bebê, a mamãe vai sair hoje. - Digo pegando a mãozinha dela inclinada no berço.

-Aaaaaa. - Ela reclama. - papa.

-Papai ainda não chegou, mas ele vai ficar com você essa noite. - Aperto levemente sua mão gordinha e a pego no colo. - Ainda é cedo, vamos brincar com a mamãe então.

Pus ela no chão e sentei-me a sua frente. Não tinha problema ficarmos ali sentadas por um tempinho, o chão era carpetado. Dei uma bonequinha pra ela e peguei uma pra mim. Coloquei um dos seus ursinhos no chão e ela pega a boneca e sorri pra mim quando a põe na orelha como se fosse celular.


-Alô. - Brinco colocando a boneca na minha orelha também. - É a Bê? Quero falar com ela. - Digo e ela dá risada como se estivesse entendendo tudo que eu estava falando.

Quem dera que ela pudesse ficar criança por muito tempo. Vou faze-la aproveitar o máximo sua infância, vou fazer ela brincar, sorrir, se sujar e quando souber o que quer, vou fazer ela aproveitar os últimos momentos de criança. Afinal, quando nós somos crianças tudo o que queremos e a nossa mente nos faz sermos tão ingênuos, que queremos crescer e nos tornarmos adultos. Péssimo pensamento! Minha filha vai aproveitar cada segundo da sua infância e não irá "sofrer" como eu sofri.

Depois que brincamos um tempinho, eu dei comida pra ela e a fiz dormir, isso foi questão de minutos, ela nunca incomodou quanto a isso. Entrei no quarto e fui direto escolher a roupa que iria por. Faz tempo que não uso um bom salto, faz tempo que não uso uma roupa mais sexy, faz tempo que não saio para dançar, e agora eu me auto pergunto...Porque eu estou deixando o Bruno fazer isso? Se eu sempre fui dependente de mim mesma, e agora estou me privando de tudo para agradar ele e cuidar da Bê. Mas hoje que chova canivetes, eu sairei com as meninas.

Acabei não contando. Pres e Tiara resolveram ir conosco. Parece que o namorado da Pres está preso no estúdio com seus hip hop's e então ela se vê na obrigação de fazer algo fora de casa porque não aguenta de tédio. Iremos todos no meu carro e na volta quem vai dirigir é o Thales. Não irei beber, afinal eu sei que tenho uma filha, mas eu sei que estarei cansada e acho que já tive experiências demais com carros, festas, noites, pistas...

Olhei no relógio, marcavam sete e três. Tirei minha roupa e fui para o banho.

Estava tão quentinho que mal tinha vontade de sair dali. A água que caia pelo meu corpo levava a densidão que meu corpo se encontrava. Eu não queria pensar em besteiras... aquela noite quando Bruno foi para o pub, ele chegou logo após da meia noite, eu estava acordada e deitada, mas não falei absolutamente nada com ele pois fingia estar dormindo. Percebi ele pegar seu pijama, ele cambalear e rir sozinho, cantarolar uma música que eu não conheço, e ir para o banho, mas quando vem deitar na cama, não tinha a proximidade que costumamos ter. Foi ali que eu decidi que teria que sair para aproveitar.

-Aí que droga. - Reclamo do dedinho que bato assim que saio do box.

Sequei-me e passei um creme novo com cheirinho suave de erva doce. Meu corpo tinha voltado mais ou menos ao normal, mas é claro que é possível perceber que eu tive um bebê pois meus quadris estão largos e de longe percebesse. Vesti minhas roupas íntimas seguida da minha calça nova da Calvin Klein, ela é jeans que aparenta ser couro. Abri a parte do closet onde estavam meus calçados. Eu não tenho nenhum muito novo, mas tenho uma botinha que ficará linda com o que eu estou planejando usar. Pelo menos eu acho.


Vesti minha cropped cinza e coloquei meu relógio em um dos pulsos, e no outro minhas pulseiras. Retoquei uma chapinha em meus cabelos, pois já estavam lisos, e coloquei os brincos. De frente ao espelho, fiquei pensando no que fazer de maquiagem.Mas passei um rímel bem forte para ficar com cílios marcantes, e na minha boca um belo batom vermelho. Quando levanto para pegar um dos perfumes, vejo Bruno parado na porta olhando-me.

-Oi.- Digo.

-Oi. - Responde sua voz nada contente. - Onde vai?

-Sair com as meninas. - Digo indo em direção dos perfumes.

-Onde? - Torna ele a perguntar.

-Vamos em uma festa. - Respondo.

-E a Bê?

-Chamei a baba para cuidar dela. - Dei de ombros. - Qualquer coisa você estará em casa, não é? - Borrifei o perfume em meu pescoço.

-Porque não me falou antes que iria sair, e se eu fosse sair? - Seu rosto inexpressivo se torna uma incognita pra mim.

-Também tenho direitos de sair e me divertir.

-Você tem uma filha! - Ele quase grita.

-Que a propósito está dormindo, então baixa o tom de voz. - Respondo calmamente. - Eu tenho uma filha, mas eu não morri. Vou ir e não perguntei pra você se posso ou não!

Agora acho que fui grossa demais. Seu olhar fica parado ali, me encarando, desejando que eu desistisse de ir em qualquer lugar e ficasse presa nessa casa mais um dia da minha vida. Dou as costas terminando de fazer o que tenho de fazer. Quando entro no closet, Bruno senta-se na nossa cama e suspira bem alto. Ouço ele dizer "faça o que quiser", e é isso que eu vou fazer mesmo querendo ele ou não.

Não dei uma palavra com ele assim que saí do closet. Terminei de me arrumar e na cozinha comi alguma coisa. Coloquei uma jaqueta de couro por cima da minha roupa porque na rua estava frio.Andei um pouco de um lado para o outro vendo se eu havia pegado cartão, identidade e chaves, e tudo estava ok. Coloquei meu celular na bolsinha e Bruno entra para o banheiro.

A campainha toca e eu recepciono a babá, seguido de um beijo estalado na bochecha.

-Ela está dormindo, então suponho que daqui a pouco ela acorde e te dê um pouco mais de trabalho à noite, mas nada demais. - Digo enquanto mostro pra ela onde guardei as mamadeiras da última vez. - Nesse papel tá anotado todos os telefones que pode ligar pra falar comigo, qualquer coisa me avisa, por favor.

-Tudo bem.

Eu não conseguia parar de falar dicas pra ela sobre o que fazer caso acontecesse alguma coisa, sendo que ela já sabe da maioria das coisas. Comecei a rir de nervosa quando ela cortou meu embalo da fala dizendo que já sabia. Olhei para o relógio da cozinha e constatei que tenho que ir buscar as meninas e o Thales - que não deixa de ser uma menina, mas...

Entrei no quarto para pegar minha bolsa, mas passei no da Bê antes. Ela dormia tão tranquilamente no seu berço, sua respiração tranquila. Fiquei sorrindo por segundos contemplando a beleza da minha filha.

-Fica bem meu amor, mamãe já volta.

Me inclino e dou um beijo em sua bochecha gordinha. Entro no meu quarto para pegar a bolsa e Bruno já está instalado na cama colocando alguma coisa para assistir na televisão. Evitei olhar muito pra ele.

-Vai ir mesmo? - Pergunta ele.

Martelei mil respostas pra ele, mas só dei apenas uma curta e objetiva.

-Sim!

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Oito - parte 2

Insistentemente meu celular toca pela manhã, acho que eu ferrei tanto no sono que se a pobre Bê estava chorando para mamar ou algo do tipo, ela deve ter desistido de chorar e voltado a dormir. Pego meu celular com as duas mãos e tento estabilizar meus olhos que estão se fechando automaticamente de sono. Vejo o número do Thales piscando na tela.

-Mas que demora. - Ouço a voz dele animada.

-Vai a merda que eu dormi até demais. - Olho para o lado onde Bruno não está mais, deve ter ido para o estúdio.

-E sua filha? Que mãe desnaturada que você é, mona.

Vou levantando enquanto ele fala.

-Nesse exato momento estou indo vê-la. - Digo. - Passei do horário de dormir. - Coloco minha mão na cabeça esperando que ela esteja bem. Que mãe desnaturada mesmo.

-Hm, a noite foi boa. - Comenta Thales me fazendo rir.

-Digamos que sim. - Sorri diante das lembranças. - Não teve nada demais, apenas carícias e palavras bonitas. - Comento complementando.

-E isso não é nada demais? Quisera eu ter esse d'menos na minha vida. - Rio com o que ele diz.

Me aproximo do berço e Bê está acordada quietinha, sentada perto do seu travesseiro e brincando com o pequeno leão de pelúcia que fica no seu berço desde que ela nasceu praticamente.

-Amor da mamãe acordou e ficou quietinha. - Falo estendendo a mão pra ela que sorri quando me vê. - Diz pro dindo que você é a neném mais linda desse mundo. - Passo a mão no seu rostinho quando pego ela no colo. O celular ponho no auto falante e largo sobre a mesinha de apoio da mamadeira ao lado da poltrona.

-Princesa do dindo! - Diz ele e ela escuta a voz procurando de onde sai.

-Papaa, aaaaah. - Ela enrola pra falar apontando para o celular.

-Ouviu isso? - Pergunto para Thales.

-Eu sou seu pai mesmo, Bê. - Thales comenta entre risos.

-Não dá bola pra ele Bê, ele é um idiota. - Comento olhando para o seu rostinho, ela deve estar morrendo de fome.

-Espera aí que eu vou pegar algo pra Bê comer.

-Ok, vou esperar na linha.

-Ok!

Caminho até a cozinha com ela no meu colo falando coisas que eu não entendia, ela mais parecia cantar do que outra coisa. Decidi não mostrar canções atuais de criança pra ela, vou mostrar as cantigas mais antigas e desde pequena ela aprenderá a escutar música boa. Durante boa parte de quando ela tinha seus cinco ou seis meses, quando ela teve por uma semana febre por causa de uma gripe mau curada, eu a fazia dormir com músicas calmas dos Beatles, e não é que ela ama?

Peguei a cadeirinha dela e a pus ali rapidamente somente para pegar as coisas para o seu café. Uma banana dentro do seu pratinho das princesas da disney e no seu copinho, conjunto do pratinho, coloquei um pouco de suco de laranja natural.

Levei tudo para o quarto com ela junto, amassei a banana enquanto ela brincava com o urso no berço e Thales falava comigo.

-E como se resolveram ontem? - Pergunta ele.

-Como acha? - Pergunto, mas não deixo ele responder. - Eu chorei...

-Ah não me diga. - Ele atrapalha-me com seu sarcasmo.

-Como eu ia dizendo... eu chorei e nós falamos muitas coisas, mas no fim ele disse que me ama e eu cedi porque é sempre assim. - Dei de ombros.

-Aí...

Comentamos sobre algumas coisas e ele me perguntou quando irei aparecer por lá, e eu falei o que está mais que óbvio! Eu vou sair daquela empresa, e quando eu aparecer lá irá pra pedir meu desligamento da empresa. Sei que estou há oito anos lá e eles vão enrolar para me demitir já que terão que pagar uma boa quantia, mas eu não aguento mais me estressar gratuitamente e eu tenho dinheiro guardado pra mim. O motivo real do meu afastamento também é pela Bê. Eu quero ver ela crescer direitinho...

Dei a papinha pra ela com a fruta e o suco, como sempre ela comeu até se lambuzar. Ela ama frutas e coisas saudáveis, até chá ela toma sem reclamar, e isso eu adoro.


Thales desligou para voltar ao trabalho já que Pree entulhou sua mesa de pastas para arquivar no computador de bandas antigas. Eles estão modernizando tudo cada vez mais.

***

-Eu acho que vocês dois não tem mais jeito. - Lisa dá de ombros e ajeita Bê dormindo no carrinho.

Saí hoje à tarde para Bê pegar um sol no parquinho e aproveitei para convidar a Lisa, há tempos me sinto sozinha algumas tardes aqui. Depois viemos pra cá e estamos na sala conversando agora.

-Nós sempre brigamos, e depois da briga sempre nos reconciliamos. - Comento.

-Então, por isso mesmo que não tem mais jeito... você não era assim, a Julia também não era assim... perdi minhas amigas pra festas, tô zerada na vida. - Ela bufa insistentemente.

-Tadinha. - Dou um riso sem graça alguma. - Quem sabe nós não saímos qualquer dia desses.

-Não, você vai levar o burro de carga que chama de namorado, e eu sobrarei mais uma vez. - Seus olhos reviram.

-Thales vai com nós. - Tento concertar.

-Ele vai se grudar em alguém e olha, mais uma vez quem sobra? Eu! - Ela mesmo se responde cruzando os braços na altura dos peitos.

-Hmmmm;- fico pensativa olhando para os lados esperando uma resposta. -Nós damos um jeito, mas vamos sair.

-Espero que dê certo esse "jeitinho" que você arranjar.

-Vai dar! - Digo com convicção.

Mentira, não sei se vai dar, não pensei em nada. Os meninos da banda estão tudo se arranjando, até o Ryan está de rolo com uma menina e está ficando quase sério. Eu e o Bruno se formos sair, vamos ficar juntos, Kam e Julia acho difícil quererem sair à noite e sobre o Thales... ele faz a linha "tô na pista pra negócio", o primeiro que der mole pra ele, ele pega. É, Lisa está sozinha nessa mesmo. Mas eu vou dar um jeito de acompanhar ela pra se divertir.

-Vou pegar um copo de suco, quer? - Ela levanta dizendo como se estivesse na sua casa.

-Mas que abuso. - Semicerro os olhos pra ela que sorri travessa. - Quero sim.

-Ok.

Serelepe ela anda em direção da cozinha. Eu poderia convidar as meninas, tá certo que a única solteira ali é a Tiara, ela pode querer ir conosco e fazer companhia pra Lisa, o problema é que eu nunca vi a Tiara conversando com a Lisa, então não sei o que uma acha da outra, e a Lisa se tiver implicância com ela não à santo que faça ela falar com a Tiara. Vice versa também, eu acho.

-Telefone tocando. - Grita Lisa.

Corro para pegar o telefone residencial tentando não acordar Bê. Até me esqueci de olhar o número na bina, somente atendi.

-Alô!

-Oi. - Ouço a voz do Bruno. Meu coração sempre fica nesse ritmo descompassado quando isso acontece. - Tudo bem?

-Sim e com você amor? - Pergunto que nem boba e Lisa de longe faz um coraçãozinho.

-Estou bem...Está sozinha? - Pergunta ele. Estranho.

-Não, na verdade Lisa está aqui, mas porque?

-É que os meninos irão ao um pub beber alguma coisa... Tem problema se eu ir com eles?


Fechei os olhos por não sei quanto tempo! Os meninos indo num pub em plena terça feira? Ok, eu não posso ser a rainha da sabedoria, mas sei muito bem que eles não iriam num pub na terça feira, até porque a maioria tem família. Pensei em perguntar pra ele quem vai, mas eu vou estar invadindo a privacidade, então estufei o peito e larguei o ar pesadamente. 

-Tudo bem, Bruno. - Tentei encontrar Lisa na minha visão periférica, mas ela deve estar na sala já. - Que horas volta? - Tentei parecer o mais normal possível. 

-Acho que até meia noite e meia estou em casa, mas não precisa me esperar pra dormir, amor. 

Amor? Eu precisava ser mais do que forte pra não me deixar cair por palavras bonitas, posso chamar qualquer um de amor...Mas é ele me chamando de amor, é o meu amor! 

-Ok, aproveita lá.

-Quer que eu leve alguma coisa? 

-Não, obrigada Bru. - Tentei parecer o mais normal possível. 

-Ok. Beijos, te amo.

-Até daqui a pouco. - Falei e respiro mais uma vez bem fundo para dizer: - te amo. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Sete - parte 2

(dê play e escute até o final)
Acordei com uma leve dor de cabeça. Levantei da cama sem fazer muito movimento brusco para não acordar o Bruno, e mantive minha quietude até sair do quarto. Dei uma espiada no quarto da Bê e ela dormia profundamente, nenhum momento atinou-se a acordar. Tadinha, deve estar tonta ainda da festa.

No meio da noite - como fomos dormir cedo - eu acordei para dar mama pra ela e fiquei esperando ela dormir depois. Na cozinha organizei tudo que tinha, apoiei-me na bancada e pus minha mão sobre a testa, eu não estava com febre, mas jurava sentir minhas veias pulsando lá dentro da minha cabeça fazendo com que minha dor de cabeça se aprofundasse. Fui até o banheiro da casa e procurei a caixa de remédios no armário grande. Lá estava ela. Catei uma aspirina e descartei duas da cartela, preciso que essa dor passe.

Com aquela pressão na cabeça, sentei-me no sofá da sala e fiquei encarando a grande televisão desligada. Daqui a pouco Bruno pode acordar, sei que nós vamos ter uma longa conversa hoje. A minha cabeça tá mais fria do que ontem, estou conseguindo pensar melhor nas coisas, mas ainda não consigo entender à que ponto eu e ele chegamos. Nós éramos apaixonados, nos amávamos - da minha parte isso ainda não mudou. É triste pensar que eu passei sobre todas as minhas crenças , digamos assim, eu passei sobre tudo que eu pensava, ignorei tudo pra dar minha vida à ele, pra viver por ele... Ter uma casa, uma filha, brincar de família... ele pareceu sempre gostar de tudo, mas porque agora está tudo diferente? 

Passo a mão sobre o rosto, a dor vai aliviando aos poucos. Escorei-me na guarda do sofá e ouço os passos direitinho dele chegando na sala.

-Bom dia. - Sua voz com aquela rouquidão de quando acorda, chegou a estremecer meu corpo.

-Bom dia. - Respondo num tom ameno.

Seus passos foram saindo do meu campo de audição. Tirei lentamente as mãos do meu rosto e me deitando no sofá, fiquei encarando o teto só esperando o momento que minha dor passasse e a Bê começasse a chorar por uma fralda suja ou até seu mama.

-Eu tenho que ir pro estúdio... - Nem ouço o seu barulho, mas Bruno me assusta quando diz isso. Suspirei fundo e encarei o teto novamente. Porque eu sabia no fundo que ele iria sair hoje?! É sempre assim.

-Estou sabendo. - Falei dando a mínima importância.

-Nick, poxa eu não quero ficar desse jeito com você. - Sinto sua mão na minha perna, mas não vejo ele ali. Ajeitei-me no sofá e o vi com o cabelo bagunçado, camisa toda amarrotada... ele ainda é meu Bruno.

-E o quer que nós façamos o que? - Pergunto.

-Não sei, que tal conversarmos?

-Claro... quando que você está em casa para isso acontecer mesmo? - Pergunto. Bruno desvia o olhar, ele sabe que agora eu tenho razão. - Bruno, o que aconteceu com a gente?


-Não pergunte pra mim.

-Perguntar pra mim então? - Ironicamente aumentei a autoridade da minha voz. - Engraçado, sou eu que procuro um motivo para discussão, sou eu que simplesmente ignoro a presença da mãe da minha filha no aniversário dela, sou eu que nem pergunto mais como eu estou me sentindo!

-Ah... - Ele fica sem fala.

-Quer saber Bruno, se arruma e vai pro estúdio!

Levantei do sofá e sigo em direção do grande corredor até o quarto da Bê, mas quando ponho minha mão levemente na maçaneta, a mão do Bruno segura a minha. Aquele toque me enche de arrepios.

-Porque estamos assim? Nicole, você sabe que minha vida consiste em você e na Bê! - Eu não poderia olhar para os seus olhos, seus olhos marejados, eu via a verdade neles, mas o que adianta a verdade quando nós vamos nos perdoar e tudo continuará a mesma coisa.

-Sua vida depende de você mesmo, tudo depende somente de você. Alcance objetivos, tenha metas... Bruno, nós éramos o casal perfeito, quando éramos só eu e você.

-Mas a Bê não atrapalha em nada... - Diz ele sem entender.

-Ela não atrapalha, mas eu tenho certeza que você já pensou em me deixar um dia, mas não me deixa por causa dela, não é assim? - Pergunto. Depois de segundos com nossos olhos concentrados um no outro, não obtive resposta. Como eu imaginei. - Viu... - Falei desesperançosa.


-Eu só pensei nisso por nossas brigas, mas temos que ver de onde elas são provenientes!

-É, temos mesmo... de onde elas são? - Pergunto.

-Eu ...

-Não sabe, né? Pois é.

-Eu sei que eu te amo, e se estamos juntos ainda é porque temos que ficar juntos! - Seu corpo me pressiona na porta do quarto.

Nossas respirações já estavam confusas, pertinho uma da outra. Nossos olhos fixos em nós mesmos. Eu só pensava no gosto de sua boca, a menta da sua pasta de dente, o hálito dos deuses, seu corpo que sempre que encontra o meu clama por uma paixão aventureira. Não podemos negar que tudo isso aconteceu rápido demais, e isso que é proveniente de tudo.

-Eu te amo. - Repete ele com os olhos fixos em minha boca agora.

-Você tem que ir pro estúdio. - Lembro ele, de certa forma "quebrando o clima" se é que tinha algum a essa altura do campeonato.

Ele se afasta um pouco de mim a ponto de eu poder entrar no quarto da Bê tranquilamente. Fechei a porta praticamente em seu rosto e escorei-me nela. Senti meus olhos marejarem mais do que já estavam, até que a lágrima teimosa que queria cair há tempos, caiu. Solucei baixinho pondo a mão na boca para não fazer nenhum barulho a mais e acorda-la e também para o Bruno não ouvir.


-Nick… não chora, por favor. - Sua voz saí pesada, parecia que ele também estava a ponto de chorar.

-Eu preciso. - Me toquei para o lado, atirada no chão. Parei de trancar a porta com meu corpo na frente e então ele a empurra.

-Nick, eu te amo, vamos parar com essas bobagens.

-Bruno, isso não é bobagem. - Rebato em tom mais alto, porém lembro da Bê e o diminuo. - Eu estou aturando pelas tampas tudo isso… eu desisti de praticamente tudo por você.

-Shiiii. - Ele tenta me abraçar a força e eu como sou idiota acabo deixando.

-Bruno, eu era a pessoa mais forte, eu tinha meus sentimentos sob controle, eu nunca choraria por ninguém, eu tinha princípios...tudo isso foi por água a baixo quando eu me apaixonei por você.

-Se arrepende disso?

Olho nos seus olhos, meu coração já estava derretido, agora está em pedaços pelo chão. Respiro pela boca vagarosamente e desvio meu olhar pra cima. Olho brevemente para o berço e volto meu olhar pra ele. Suas mãos vão afrouxando a força pouco como se ele estivesse desistindo.

-Nunca vou me arrepender. - Digo.

-Então fica comigo. - Pede ele.

-Droga, porque eu tenho que te amar, porque? - Pergunto-me sozinha.

-Isso é recíproco. - Ele diz enquanto seu rosto se aproxima do meu.

Nossos lábios se unem num beijo com aquele clima bom de reconciliação, mas sabe quando você sente que tem algo que ainda lhe incomoda? Tenho vontade de perguntar sobre a tal de Paige, mas estou com medo de estragar tudo. Suas mãos acariciam minhas bochechas e eu seguro sobre seus cabelos. Pouco a pouco fomos nos afastando. 

-Brigar com você é tão difícil.

-Mas você não faz por menos. - Rebato.

-Porque? - Pergunta ele ficando próximo de mim.

-Por uma tal de Paige. - Digo fazendo cara de nojo, mas não era só a careta, era real o nojo mesmo.

-Ciúmes?

-Sempre. - Fecho meu sorriso que antes ainda restava vestígios.

-Se eu pertenço a você, não precisa ter ciúmes, sempre será você!