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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Vinte e nove - Parte 2

Já dizia alguém famoso que nós podemos enganar qualquer pessoa, menos a nós mesmos. É um crime, e eu estou-o cometendo. Não canso de pensar no Bruno enquanto analiso nossa filha deitada ao meu lado, dormindo tranquilamente. Ela não está merecendo nada do que está acontecendo, e eu estou cada vez mais nervosa. Penso em mil coisas, e a única imagem que não sai do meu pensamento é o selinho que demos assim que ele saiu, mais cedo, daqui do apartamento.


Eu o amo, não posso deixar-me enganar disso, e sei que pode levar anos para eu tentar me desapegar dele, talvez nem seja preciso daqui há algum tempo, mas agora é necessário. Eu saí daquela casa com intensão de ter um pouco mais de paz, mas por incrível que pareça, esse final de semana está saindo mais guerrilhado do que duas semanas naquele lugar. Parece que o tempo não passa.

E dentro de mim há esse pequeno detalhe, essa pequena dúvida, que eu preciso soluciona-la.

Viro-me de bruços na cama e minha filha se remexe um pouco, mas continua dormindo. Eu procuro fechar meus olhos, concentrar-me no sono, mas é quase impossível. Já vi que essa será uma longa noite.

+++

Minha cabeça estava explodindo. Queria que aquela reunião, que nem havia começado, acabasse de uma vez. Queria somente ir para o apartamento, deitar, me cobrir para passar esse frio horrível, e dar carinho para minha filha. Ouço burburinhos sobre o contrato da parte da gravadora, dois representantes da parte jurídica haviam chego, eles já comentavam sobre todas as situações.

O que basicamente iria acontecer ali hoje era uma re-ordem dos direitos, dos contratos com possíveis bandas novas e cantores, bonificações e outras condições. Pree estava batucando a sua caneta na mesa quando David pediu para Thales apagar a luz para passar a sequencia de slides explicativos.

Eles falavam tantas coisas, uma desordem. Certo ponto já não dava para entender mais o que se tratava tudo aquilo. Thales estava numa cadeira ao meu lado, ele tentava prestar atenção e eu achava impressionante a sua paciência para todas aquelas baboseiras. Pree levantou-se agora para falar sobre o quadro de funcionários. Não é de extrema política o Thales estar ali, já que não faz dois anos que ele foi contratado sem ser como estagiário.

Pree puxou uma folha falando sobre alguns cargos, e algumas coisas que deveriam ser cortadas. Algum dos representantes comentou algo sobre os melhores cantores e as melhores bandas da gravadora lançarem coisas novas, aí foi a vez de Thales falar.

-Eles estão fazendo o possível e impossível, mas tem alguns...

-Possível? Que fraqueza. - O bigode de Pree me incomodou quando ele interrompeu Thales, aquele troço parecia ter uma espécie de vida própria.

-É que alguns a recém lançaram álbuns, e não tem como fazerem outros seguidos. - Thales tenta explicar na maior tranquilidade.

-Que lancem singles novos. - Pree estoura aumentando um pouco o tom de voz e beberica sua garrafa de água.

Enquanto Thales falava algumas coisas com o Pree, eu ouvia aqueles murmúrios, e o batucar da caneta de alguém impaciente que estava na mesa, contando com um idiota que não largava o celular. Assim que ouvi um segundo de trégua da discussão empresarial, levantei-me em direção da porta.

-Onde vai, senhorita Nicole? - Pergunta Pree.

Giro meus pés e observo os olhares todos pra mim.

-Desculpa, mas estou achando tudo isso ridículo. Como vocês podem ser tão idiotas? Tudo tem seu tempo, o pessoal que produz para nós não são máquinas. Tem pessoas em plena turnê e não são pagos para ouvirem a gravadora deles enxerem os ouvidos com besteiras de coisas novas só para engordarem o bolso dos maiorais aqui de dentro. Porque no fim do mês, no meu salário, eu não vejo nenhuma diferença. - Cuspo as palavras boca a fora, e eles me olham, alguns curiosos e impressionados, outros com até ar de deboche.

-É porque o namorado dela não está mais com a nossa gravadora. - Ouço uma mulher dizer, alguém que eu nem tenho convivência e o nome não me convém. Rio debochada.

-O nome dele é Bruno, um dos melhores artistas que nós tínhamos, um dos que mais lucrava-mos! E não, ele não é meu namorado.

-Porque eles nos deixou então?

-Porque vocês estão pensando na droga do dinheiro primeiro antes de tudo! Não temos mais principios, isso aqui está um caos, e não adianta tapar o sol com a peneira, porque a verdade é sempre maior. Vocês estão levando essa gravadora pra baixo. - Respiro fundo. - Onde está o valor que dávamos aos nossos clientes? Nem isso temos mais. Vocês estão aqui, discutindo coisas banais, como cargos e pessoas, mas esquecem que devemos fazer ao invés de só falar, e fazer em prol da empresa, e não nosso prol. Nem notaram que tem um idiota no telefone enquanto falam besteiras. - Apontei para o cara, que me olha desnorteado. - Onde você se formou? Comprou seu diploma? - O olho perdida. Posso estar me equivocando, mas eu preciso extravasar tudo o que eu penso dessa empresa.

-Nicole... - Pree tenta falar alguma coisa. Agora não tem mais olhares divididos, praticamente todos ali estão de cabeça baixa, assentindo com que eu estou falando, mas claro que tem um ou outro que está descordando com o que eu falo.

-Agora, me dão licença, eu não passarei mais duas horas com vocês dentro dessa sala. Holly, me passa o relatório da reunião amanhã. Tenham um bom dia. - Bati a porta atrás de mim e não ouvi mais nada.

Saí com passos largos, e algumas das pessoas do departamento me olharam confusas, eu estava estourando de raiva, de tudo. Precisava extravasar com tudo que tenho entalado, metade já foi, que foi agora no meu emprego, mas preciso ainda me resolver com muito mais pessoas.

Aperto o botão do elevador e ele chega em seguida por estar no andar abaixo. Aperto o botão do meu andar e uma mão impede que ele se fechasse. Thales entra e me encara silencioso. A porta se fechou e ele gargalhou alto.

-Eu já disse que idolatro você? - Ele abraça-me de lado, e meu corpo gela com seu toque frio.

-Não, mas é bom saber. - Rio tentando ser mais divertida do que estava.

-O que houve? Hoje você está impossível! Começou com o sermão na moça do café.

-Ninguém manda ela me entregar um café gelado. - Giro os olhos e ele ri baixinho. - Eu estou estressada. Bruno foi ontem à noite lá em casa. - Desabafo enquanto chegamos ao andar.

-Agora está tudo explicado, seu estresse e tudo mais.

-Não está nada explicado. - Empurro a porta do meu escritório e ele entra logo atrás. Largo a porta para ela bater sozinha. - Ele visitou a filha, e nós conversamos como amigos. Pareceu que a filha era somente dele, ou somente minha, nada foi tocado sobre o assunto de eu ter saído de casa daquele jeito, ou sobre a carta. - Desabafo quando sento em minha cadeira.

-Eu pensei que ele tivesse o pulso mais forte, que fosse querer esclarecer tudo. Mas que babaca. - Thales comenta colocando os cotovelos sobre a minha mesa.

-Em compensação, quando ele foi embora, eu o acompanhei até a porta e ele se despediu com um silencioso selinho. - Meu rosto cora lembrando da cena. - E eu passei a madrugada tendo flashback de nós dois, todos os lindos momentos. Ai Thales, nós brigávamos, mas tínhamos momentos lindos.

-Então volta pra ele.

-Mas tinha momentos que eu tinha vontade de pega-lo pelo pescoço e enforca-lo, ou trata-lo como uma criança que a recém está aprendendo o certo e o errado.

-Então continua sem ele.

-E tinha vezes que a vontade era pausar e gravar o momento, para sempre que ele acabasse, eu iria lá e dava play novamente. - Suspiro terminando brevemente meu pensamento.

-Então vá catar coquinhos, sua indecisa. Só pode ser característica do seu signo, bicha! Você consegue ser pior do que eu quando tenho que escolher sapatos.

-Para. - Eu rio do que ele fala, breve momento de descontração. Olho distante para a parede e suspiro mais uma vez, o pensamento em outra dimensão.

-Como eu disse antes, eu lhe conheço tão bem, que eu sei que não é só esse o seu incomodo... Fale.

Olhei para o Thales, encarei seus olhos, sua sobrancelha me lembra a do Bruno, o formato do rosto parece também, mas ele não tem nada a ver com o Bruno. Balanço a cabeça tentando esvair a figura dele da minha mente e continuo pensando sobre o que eu iria responder para ele.



Bruno Pov's 
Tirei o dia de folga do estúdio, os caras tem que entender, minha cabeça está a mil e eu não tenho pensamentos para passar o dia no estúdio. Resolvo correr para o braço das minhas irmãs - no fim das contas, eu sempre faço isso. Tiara iria me xingar, impor lições de moral e tudo mais que eu não estava com saco para ouvir. Pres irá dizer que eu preciso relaxar, que eu preciso ter esse tempo mesmo para ver o que eu quero, e é claro, iria me xingar. Tahiti iria chorar, provavelmente ela iria dizer que eu devo pedir desculpas a ela correndo e pensar mil vezes no que eu fiz, porque nada do que eu ando fazendo ultimamente é atitude de homem e etc, e iria me xingar.  A que mais pode me ajudar nesse momento, que vai por as cartas na mesa, e irá ser mais coerente, será Jaime.

Virei meu voltante, dessa vez usando o carro, em direção a casa dela. A cadeirinha da Bernie ainda está no banco de trás, nós pouco usávamos o meu carro, portanto ela parece intacta. Quando olho minha imagem no espelho do carro, vejo olheiras, não tão profundas, mas bem visíveis. Eu mal dormi quando estava em Nova Iorque, eram shows, afters party, entrevistas e tudo mais que me deixou impossibilitado de ter uma boa noite de sono, aí chega de repente em casa e a minha espera está aquela carta. Uma carta tão bonita, que se não fosse triste para mim, seria perfeita.

Estacionei na frente da casa dela e bati na porta três vezes seguido. Ouvi o latido de Pica e de Cheetah, interessados em saber quem há por detrás da porta.

-Saí amor, deixa a mamãe atender a porta. - Ouço ela falar com os cachorros como se fossem filhos. Lembro-me da minha mãe, fazia a mesma coisa. Aliás, como Jaime pode ser tão parecida com a minha sem ao menos ser filha dela? - Ah, eu já deveria esperar. - Ela sorri assim que me vê.

-Sou tão previsível assim? - Pergunto enquanto dou um beijo em sua bochecha.

-Sim. - Ela responde encostando a porta. - E também um pouco de intuição feminina.

-Mulheres. - Reviro os olhos. - Que silêncio essa casa, cadê meu cunhado, meus sobrinhos?

-Seus sobrinhos tem algo do qual é bom demais, chamado escola! E seu cunhado está no serviço. - Jaime senta na poltrona, e eu no sofá. - Mas você quer um café, soda, suco?

Prontamente nego com a cabeça e ela respira fundo, pondo uma perna para cima da poltrona, e novamente ela me remete à minha mãe. Até seus gestos lembram, impressionante.

-O que foi, Bruno? Eu percebo suas olheiras, suas mãos inquietas - olho de imediato para minhas mãos se esfregando uma na outra -, sua respiração ofegante - tento controlar a respiração - e a sua tentativa falha de tentar parecer que isso é uma visita normal. Ainda mais partindo de alguém que não me visita há tempos.

-Desculpa. - Foi o que eu pude falar, o que eu tive coragem com essa cara de pau. Fico tempos sem visita-la mesmo, e só venho para sua aba quando preciso de abrigo. Eu cheguei a conclusão de quê o problema sou eu e minha cabeça oca.

-Só isso? Está desculpado, mas agora diga o que há de mal?

-Nicole.

-Eu vou virar a conselheira amorosa única e exclusiva de vocês dois. - Ela ri e eu permaneço quieto. - Brigaram novamente?

-Não, estamos bem. - Dou de ombros, nós realmente estamos bem. - Ela no apartamento dela, e eu na minha casa. Eu solteiro e ela também.

-Não acredito que ela fez isso mesmo! - Jaime leva a mão na boca.

-Você sabia que ela iria fazer isso? - Franzo a testa e ela da um sorriso torto de quem aprontou.

-Sabia, nós tivemos conversando bastante.

-Não acredito. - Passei a mão pela cabeça, isso só pode ser uma espécie de complô contra mim, não é possível.

-Calma, antes de pensar qualquer bobagem, quero que saiba que a Nick estava mal... Não, ela não estava mal do estômago, muito menos chegou aqui se queixando, nós conversamos abertamente, e ela me disse tudo que eu já sabia e mais um pouco. Quer dizer que agora você resolveu sair para beber com os amigos e esqueceu da sua mulher em casa? - Pergunta ela autoritária. Baixei  minha guarda e fiquei escutando-a.

-Duas vezes.

-Bruno, poderia ser uma ou um milhão, você não deveria deixar de avisa-la, ou pedir para alguém lhe levar pra casa. O que deu na sua cabeça dirigir daquela maneira?

-Paige disse que eu poderia ir tranquilo.

-E tem mais essa Paige, qual é a sua com ela?

-A minha? Nada, ela não é nada minha.

-Sabe que a Nick morre de ciúmes dela, Bruno. - Minha irmã só fala o que ela já havia me dito em algum dia que eu não devo ter dado muita bola. - Leva-la para almoçar na sua casa, no domingo, quando domingo deveria ser um dia mais família?

-Só por isso ela precisou se revoltar? - Pergunto, impaciente.

-Só por isso? Quer que eu liste tudo o que fez anteriormente, e tudo o que fazia antes de conhece-la? - Balanço a cabeça negativamente como uma criança repreendida e ela da um riso mais debochado. - Poupo-me boa parte da tarde. O que você fez pra ela, a cada dia que passava, e que você pensava "não dá em nada", só foi acumulando. Um dia a gente explode, Bruno.

-Eu não queria que fosse assim.

-Então acorda! Isso é vida real, aquela é a sua mulher, aquela é a sua filha, nós somos a sua família, nos valorize, pois no momento que você precisará de uma mão não será nem a bebida, nem o cigarro, nem a Paige que estará lá, será nós.

Refleti por segundos no que ela falou e resolvi me abrir.

-O problema, Jai, é que eu fico oscilando os momentos. Agora eu estou aqui querendo mais do que tudo, ela ao meu lado, seus carinhos, seus sermões. Tudo que a compõe. Mas tem horas que eu quero sair um pouquinho, deixar a cabeça evaporar, mas tenho a consciência de que depois disso eu terei minha mulher em casa... Não sei se me entende!

-Bruno, você já pensou que esses momentos que você quer sair, você poderia sair com ela? - Não, na verdade não mesmo. Espero ela dar continuidade a sua fala. - Você pode deixar a Bê comigo, ou com uma das nossas irmãs. Até mesmo a Urbana não se negaria a cuida-la por uma noite, e se você não pudesse deixar com nenhum, deixaria com uma babá. Levaria ela a um jantar, à algum lugar que ela goste, a uma balada, à um jogo, já que ambos gostam.

-Mas eu não tenho mais o que fazer, eu já estou conscientizado que eu tenho que ser alguém melhor, mas como?

-Mostra pra ela quem você é. Prova que ama ela mesmo!

-Como eu faço isso?

-Não vou te dizer. - Ela balança a cabeça. - Descubra, use seu próprio amor para apontar os devidos caminhos.

-Você já me fez sentir melhor. - Levanto e fico em frente dela, que levanta e me afaga em um abraço. Jaime me entende, na verdade entende qualquer pessoa, ela tem esse poder de transformar o complicado em fácil.

-Posso te fazer uma pergunta? - Pergunta ela quando nos desvencilhamos.

-Claro, todas. - Assenti com um pouquinho de receio pelo que viria, eu não sei o que se passa na cabeça dela no momento.

-A Nick não é alérgica a peixe, é?

-Não... - Balanço a cabeça tentando pensar, nós comíamos ás vezes comida japonesa, é óbvio que ela não é alérgica. - Porque?

-E ela gosta?

-Gosta sim, comíamos comida japonesa sempre que podíamos.

-Bruno eu acho que tenho uma coisa pra nós investigarmos, mas posso quase te dar uma garantia. - Ela sorri de maneira estranha, que medo do que pode estar se passando ali.

sábado, 20 de setembro de 2014

Vinte e oito - Parte 2

Bruno  Pov's

(Música)

Eu bebi dois, três, quatro copos de whisky. Estava doendo dentro de mim, estava apertando como nunca havia apertado meu peito, nem mesmo quando eu cometi loucuras por ela, nem mesmo quando ela passou um mês longe de mim no Havaí, e eu em turnê, nem mesmo quando eu chorei no show, doeu tanto assim.

Me sinto impotente, me sinto, com o perdão da comparação, com uma doença terminal, sabendo que por mais que eu faça tudo, nada voltará ao que era antes. Eu espero que ela me perdoe um dia, mas eu sei que terei que provar pra ela que eu a amo, e que eu não traí ela com ninguém e jamais trairia.

Eu preciso da minha pequena Fiona, e da minha pequena joia rara, que ela trouxe ao mundo.

-Ah Nick, se você soubesse a mensura do meu amor por vocês, nada disso teria acontecido. - levei o copo mais uma vez a boca e terminei de vez com o que tinha dentro. - Amanhã pela manhã tenho que estar no estúdio, trabalhando no terceiro álbum, trabalhando como se nada tivesse acontecido, e como se eu e você fossemos um casal ainda, mas quando eu chegar em casa verei que essa não é mais a realidade. Eu deveria ter te dado mais valor, eu sei. - Falo comigo mesmo, mas sinto que ela pudesse estar ouvindo isso de alguma forma, mas é bobagem. - Eu quero suas unhas café arranhando minhas costas, seus lábios com rosa fraco dando um contraste com sua blusa social rosa que realça seus peitos. - Sirvo mais metade do copo e sento-me novamente na poltrona. - Todos tem um lado mais pendente, um lado que precisa de ajuda mesmo que não falamos, todos precisamos de resgate... Nick. Como eu vou explicar que eu te amo além do normal?

E assim, mais uma vez, eu virei o copo. Olhei para o piano, me chamando. Algo preciso colocar pra fora. Preciso tocar e cantar para conseguir dormir no silêncio e vazio que a casa se encontra.

Everybody's got a dark side
(Todo mundo tem um lado obscuro)
Do you love me?
(Você me ama?)
Can you love mine?
(Você pode amar o meu?)
Nobody's a picture perfect
(Ninguém é uma imagem perfeita)
But we're worth it
(Mas nós valemos a pena)
You know that we're worth it
(Você sabe que valemos)
Will you love me?
(Você vai me amar?)
Even with my dark side?
(Mesmo com o meu lado obscuro?)

Eu prometo que vou ser melhorar, eu vou melhorar, eu irei me controlar. Mas eu juro, juro por tudo que há de mais sagrado em minha vida que eu nunca a traí, e nunca irei fazer isso. Minha mãe prezava o homem que zelava por uma única só mulher dentro de casa, e que saía do serviço para casa, e ela o esperava. Eu sou esse homem com a Nick.

Sei que errei, umas vezes, bebi e saí para me divertir, mas nunca tive coragem de traí-la com ninguém.

Adormeci sob as teclas do piano. Minhas costas incomodaram e pediram um bom descanso, mas infelizmente não é isso que eu darei assim que sairei do estúdio hoje.

Meu celular pessoal estava com a bateria por um fio, sorte que deu para ele despertar e me acordar. Abri a porta para a empregada e fui para meu banho, me sentia mais disposto apesar da dor. Mas, tudo isso passou, quando eu entrei no closet para por uma roupa. O clima não é mais o mesmo, parece que está mais preto e branco, já que as roupas da Nick são mais vivas e seus sapatos ao fundo do closet dão um toque mais especial ao local.

-Droga.

Procurei uma roupa mais ou menos. Mas optei por uma bermuda jeans, uma camisa mais descontraída e uma flanela xadrez sobre ela. Penteei meus cabelos ala meu modo, apenas com as mãos, e pus um chapéu com aba pequena sobre eles.

O que eu mais queria era pegar minha Kawasaki z1000 e andar pela orla, até algum ponto de mais paz, do que ir para o estúdio. Pensei na minha moto que há tanto tempo não uso.

-Hoje irei tira-la do pó, amor. - Falei quando cheguei na garagem.

Já tinha pego meus documentos e outras coisas que precisava, arrumei tudo na bolsa atravessada e montei sobre a moto, e coloquei o capacete.

Andar de moto é como andar de bicicleta, depois que aprendemos, nunca mais esquecemos. É quase o mesmo esquema, porém, tem um motor e mais coisas a cuidar, como por exemplo: a gasolina. Eu nunca usei ela depois que me uni à Nick, principalmente depois que  minha filha nasceu. A emprestei para Ryan, e ele deixou aqui por um milagre.

Dirigi pelas ruas com o pensamento longe, aliás, nem tão longe, ele está perto, mas parece mais inalcançável do que está. Bufo mesmo estando com o capacete e esbravejo algumas palavras por conta do trânsito parado.

+++

-Que milagre é esse, estar de moto? - Phil observa quando chega no estúdio,depois de mim.

-Ah, aquilo. - Aponto com o polegar sobre os ombros. - Resolvi voltar com ela a ativa.

-Mas desde que você casou com a Nick você aposentou ela, tinha até  emprestado pro cara. - John observa bem.

Respiro fundo e dou um sorriso tentando parecer mais forte do que estou e sou.

-Eu e a Nick não estamos mais juntos. - Olho para o lado e evito olhar para alguém ali.

-Sou seu irmão e estou sabendo disso só agora... - Eric arqueia as sobrancelhas.

-Ela escolheu assim, tenho que respeitar.

-Vocês dois nasceram pra ficarem juntos, mas desculpa, você rateia. - Kam dá de ombros e torce os lábios, ele sabe que apenas falou a realidade. - Eu e a Julia temos tantas coisas que se opõem, mas é justamente isso que fazem nós sermos felizes. Não completamos um quebra-cabeças com peças iguais.

Não completamos um quebra-cabeças com peças iguais. Aquilo girou em minha mente. Girou definitivamente. Daria um bom pedaço em alguma possível música nova. Irei pensar isso com calma, mas agora tentarei me concentrar no meu serviço.

(Pode parar a música - se é que não acabou já hahaha)

Nicole Pov's

Assim que chegamos da praia, exaustos, fomos dormir. Quando acordei pela manhã, tomei um chá com bolachas e assisti o tele jornal. Não estava com pressa de chegar naquela empresa, ainda mais porque agora estou mais perto dela, já que o apartamento fica bem próximo.

Thales irá vir para cá esse final de semana. Já nos programamos. Ele dormirá com a Lisa no quarto e eu fico com meu antigo quarto junto da minha filha. As coisas por ali ainda estão um pouco bagunçadas, mal paramos em casa esse final de semana, e justamente por isso acho que estou melhor, não tive tempo de pensar nele.

Viu, e não quero pensar agora. Esbravejo impaciente no trânsito. Motoqueiros ultrapassando os carros nos corredores, e uma tranqueira pela frente. Eu já estava saindo em cima do horário, com esse trânsito irei chegar atrasada.

Atalhei por diversas ruas que consegui e acabei chegando em cima do horário, literalmente. Bati meu ponto ás 08:30 cravado. Andei para a minha sala e não cumprimentei ninguém dessa vez, estava impaciente. Quando sentei na minha cadeira, o furacão Thales adentra a sala e fecha a porta rapidamente.

-Ressaca? - Pergunta quando olha meu rosto não amigável.

-Exaustão! - Reviro os olhos e apoio meus cotovelos sobre a mesa. - Se eu pudesse ir embora para minha casa dormir agora, eu iria sem pensar duas vezes.

-Complicado. - Ele senta a minha frente. - A boa notícia é que eu posso ficar por aqui hoje. Pree disse que tem poucas coisas para eu fazer, fechamento de alguns contratos e revisão, coisa básica. Aí,assim que eu terminar, lhe ajudo.

-Você é um anjo! Hoje preciso subir no estúdio para auxiliar uma banda, ver alguns detalhes...

-Aquele estúdio lembra o Bruno?

-Você acabou de me lembrar dele. - Sorrio ironicamente. - Está sendo mais fácil do que eu pensava.

-É que você não o viu ainda. - Thales suspira. - Quando eu topava com o Jeremy por alguns cantos era terrível!

-Obrigada pelo auxílio, amor.

-De nada.

-Sabe. - Suspiro fundo. - Acho que não está tão difícil ainda porque eu não tive tempo de pensar em tudo isso! Hoje é segunda, nós terminamos sábado... faz pouco tempo.

-Só promete que não irá reprimir nenhum sentimento? - Ele pega minha mão e eu o encaro. - Promete?

-Vai aguentar meus choros?

-Sim, sempre. Irei aguentar e chorar junto! Eu amo você, pequena.

-Ele me chamava assim. - Olho para a parede e Thales aperta mais a minha mão.

-Parei, não está mais aqui quem falou. Vamos ao trabalho.

O dia passou tão corrido que não deu tempo de pensar em praticamente nada. Recebi uma ligação da baba dizendo que a Bê estava manhosa, e que dormira por muito tempo, logo vi que minha noite vai ser bem longa. Lisa já estava em casa quando liguei novamente para a baba, e ela disse que Bê já estava acordada olhando desenhos na televisão. Aliviei-me, pois de inicio pensei que minha garotinha estava doente, e mais essa sobre mim não daria certo.

Sai do escritório morrendo de fome, convidei Thales que recusou ir  até uma lancheria comigo, então fui sozinha. Pedi um café descafeinado, um bolinho recheado e um copo de salada de fruta. A salada de fruta foi somente pela aparência, minha boca salivou, então peguei para comer depois.

Rapidamente terminei a comida e encarei o trânsito de volta para a minha casa. Não estava dos piores como pensei que estaria, então logo já cheguei. Subi para a casa, limpei os pés no carpete por mania e abri a porta.

Bruno estava sentado no sofá segurando minha filha, ela ria e o olhava maravilhada. Lisa estava passando para cozinha quando me viu e deu meia volta. Bê deu um gritinho quando ouviu o barulho da chave e da fechadura quando fechei a porta. Ele me olha e sorri.


Eu não tinha pensado tanto nele assim, mas agora parece que ficou pior. Descobri o que é minha criptonita: seu sorriso!

-Que surpresa, boa noite. - Digo tirando a bolsa do ombro e largando no sofá oposto ao que ele estava sentado. - Boa noite minha vida. - Beijo a testa da minha filha e Bruno fica me encarando quando meu rosto passa bem rente ao seu.

-Boa noite? São sete horas apenas. - Ele ri quando olha para o relógio. Vejo um capacete ao lado do sofá.

-Passei no café para comer algo, somado com o trânsito. - Torço os lábios. - Resolveu arrancar a moto do Ryan? Pobrezinho.

-Ah, aquilo. - Bruno olha rapidamente para o capacete e me encara enquanto eu sento. - Tirei o pó dela um pouquinho.

-Ah. - Rio dele e minha filha suspira, como se estivesse cansada. - Cansada meu amor? - Pergunto.

-Muito. - Ele responde e leva uma das mãos a boca. - Força do hábito. - Eu rio e ele também.

-Dormi mãe. - Ela diz confusa e fecha os olhinhos se encostando no ombro do pai, mas logo os abre.


-Já vi que alguém vai capotar...Já dormiu o dia inteiro, não é?

-Ela não está doente?

-Não, pelo menos tenho quase certeza que não.

-E vocês precisam de alguma coisa, ela precisa de fraldas? Roupas,   algo assim.. comida?

-Bruno, hey, calma! De sábado pra cá quase nada mudou. - Bruno ri sem graça e eu sorrio. - Ela e eu estamos bem, se caso precisarmos nós avisamos.

-É que pareceu mais tempo, a casa parece um cemitério... silenciosa.

-Está nos chamando de barulhentas? - Arqueio a sobrancelha mudando o assunto para outro lado da corda bamba.

A conversa foi mais tranquila do que eu pensei. Em nenhum momento, assim como na mensagem, ele falou de nós dois. Procuramos manter a conversa no nível de amizade, e nós conseguimos isso com sucesso. Não vai ser tão difícil isso, só falta o meu coração desapegar um pouco mais, porque deixar de ama-lo é impossível.

Nossa filha adormeceu nos braços dele, e ele mesmo a pôs no quarto para dormir. Comentei que já iria arrumar minhas coisas e dormir também, afinal amanhã é mais um dia de serviço, ele entendeu minha indireta. Não que eu o quisesse fora dali, ou não quisesse mais conversar com ele, mas eu precisava tomar um banho, por o meu pijama e dormir.

O acompanhei até a porta e a abri pra ele. Isso me lembra quando nós tínhamos a recém engatado num romance, quando ele me pediu em namoro e nós ficávamos enrolando para nos despedirmos. Mas não ouve enrolação dessa vez.

-Boa noite Nick, qualquer coisa me ligue.

-Boa noite Bru, digo o mesmo! Fique com Deus. - Me aproximei para um beijo no rosto, mas nem eu nem ele viramos. Demos um selinho rápido, e pra ele pareceu extremamente delirante, enquanto pra mim, praticamente mortal. Sei que passarei boa parte da noite e do dia pensando nisso e pensando nele.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Vinte e Sete - parte 2

-Eu simplesmente odeio quando isso acontece! Elas demoram tempos para crescerem. - Lisa lamenta olhando sua unha do indicador quebrada.

-Eu não tenho esse tipo de problema. - Thales balança a mão, mais ou menos como se dançasse single ladies.

-Minhas unhas crescem rápido, mas eu não posso deixar por muito tempo. - Apontei para Bê que olhava para nós sem nem saber o porque estávamos falando e nem sobre o que.

-Eu odeio as minhas, elas crescem bastante, mas parecem garras. Unhas masculinas. - Pres revira os olhos terminando a sua água de coco.

A conversa parou em tantos assuntos depois que almoçamos. Me afastei de todos para atender o celular, mas minha filha curiosa e cuidadosa, ficou me observando de longe, enquanto atendia o telefone.

-Se eu não ligar, ninguém mais liga. - Minha mãe reclama. - É uma beleza.

-Mãe, me desculpa. Sei que não tenho desculpas dessa vez, acabei esquecendo.

-Nicole, você nunca esquece das coisas... deve ser a pressão do trabalho e da bebê, sim?

-Deve ser mamãe. - Repouso a mão na cabeça e rio da preocupação dela. - Mas vamos falar de vocês, como estão?


-Bem, ah Nick, eu e seu pai temos uma saúde de ferro! - Ela ri e da um pequeno espaço para continuar. - Sua tia que esteve mal esses tempos.

-A Zeli? - Pergunto arqueando a sobrancelha.

-Sim, ela mesmo. Sabe que ela não larga a bebidinha do final de semana, ai da sempre nisso.

-Bebida. - Falo com desdém. - Mas ela já está bem?

-Já sim, muito bem! E aí minha filha, como está a pequena? - Ouço sua voz mais fraca. - Faz tempo que não vem nos visitar.

-Mas vocês podem vim pra cá, morar aqui! - Bufo, brava pela insistência da minha mãe. - Não vou insistir nisso. A Bernadette está bem, sapeca como sempre e muito esperta.

-É minha pequena, você era assim também, Nick. Ela tem um gênio bem parecido com o seu em alguns aspectos.

-Mas é a cara do Bruno. - Ouço meu pai falar.

-Chega pra lá, depois você fala com ela. - Minha mãe diz e meu pai resmunga algo, mas logo eles começam a rir.

-Vocês dois, hein. - Dou risada deles e passo a mão pelo rosto.

-Onde você está filha, em casa?

-Não, estou na praia, aproveitando o dia bonito.

-Deixa eu falar com a minha netinha.

-Mais tarde eu te envio um vídeo dela, mãe! - Rio dela e ela ri de mim. Observo a Bê de longe que volta e meia me olhava. O que vai ser dela filha de dois ciumentos e doidos temperamentais. - Ela está tão linda, mãe.

-Eu sei filha, eu sei. Ela é linda. - Ouço a sua respiração funda. -Nicole, abre o coração, o que houve?

-Nada, mãe.

-Quem não te conhece, que te compre, Nicole! - Ela bufa. - Brigou com o Bruno?

-Não, nós estamos bem como amigos.

-Que história é essa, Nicole?

-Nós terminamos mamãe. Eu acabei saindo daquela casa...

-Como é? Você não pensa, Nicole. O que aconteceu pra ter terminado assim? Aí meu Deus, e a Bê, como é que ela vai viver sem os pais juntos, isso é muito ruim minha filha.

-Mãe. - Tento chamar a sua atenção para falar, mas ela continua falando tudo o que eu já pensei há tanto tempo antes de fazer isso, antes de dar um ponto final nisso. - Mãe. - Ela continua, desandou a falar mais e mais.- Mãe, deu! Para. Eu não vou continuar conversando com a senhora desse jeito, estou num restaurante! - Falo em tom autoritário.

-Desculpa filha, mas você pensou bem antes de fazer isso?

-Pensei mãe, eu pensei por meses, pensei em tudo que a senhora disse, pensei! - Falo já impaciente, meu sangue estava fervendo. -  Desculpa, não quero ser ignorante, mas eu sei o que eu estou fazendo -ou acho que sei.

-Tudo bem, tudo bem. Te ligo mais tarde, então. Manda um beijo para minha bebê e um pra você, eu e seu pai lhe amamos, vamos deixar você aproveitar a praia.

-Tudo bem mãe, beijos e boa tarde. Amo vocês.

Desliguei o telefone, meu sangue já estava fervoroso, consegui me irritar com bem pouquinha coisa, o que é que está acontecendo comigo mesmo? Ando em direção da mesa e eles riem e conversam alto.Sentei-me com as pernas cruzadas e passava o celular de uma mão para a outra, até que, sem querer, desligo uma possível ligação de alguém.

-Droga. - Falo baixinho procurando no celular de quem era.

Quando vi que a chamada perdida era do Bruno, meu coração gelou. Ele já está em casa, ele já olhou que eu não estou mais lá, ele já deve ter ficado bravo comigo, mas eu pedi para ele não me ligar. Bufo colocando nas mensagens e direcionando uma à ele.

"Oi, desculpa desligar assim, mas quando peguei ele sem querer desliguei, sou uma tapada! hahaha"

-Depois de almoçar, conversar, e tomar um milk shake, eu vou dar um último mergulho. - Lisa estica as mãos para cima.

-Vou junto, tenho que aproveitar o dia de hoje, sem namorado, sem filhos... como será que estão meus bebês. - Pres fica pensativa ao extremo quando toca no assunto dos cães.

-O Ke deve estar cuidando deles. - Assente Thales. - E você, saiu muda e voltou calada... o que houve? - Ele passa a mão no meu braço de leve acariciando.

-Mãe! Me colocou a bronca pelo que eu fiz, ai já me estressei. - Torço os lábios e ele faz o mesmo gesto.

-Quando você explicar direitinho pra ela, ela vai lhe dar razão.

-Assim espero.

O celular vibra, mas estamos saindo da lancheria, então deixo para olhar quando estivermos lá fora. Lisa pega Bê no colo, que está fervendo para ir ver a água novamente, e Pres olha as horas em seu celular e Thales fica ajeitando os óculos no alto da cabeça.

"Foi nada, eu vi pelas fotos que a Pres postou que você está na praia... divirtam-se ai, e se precisar de algo me avisa."

Ele não tentou nada, ele não disse que nós precisávamos conversar, ele não falou absolutamente nada do que aconteceu e está acontecendo. Eu também não sei se queria que ele falasse algo, porque eu pedi para ele não falar, mas pensei que ele tentaria. Uma parte de mim ficou frustada, a outra feliz porque ele respeitou minha decisão, mas depois do que li na mensagem, parece que aquele aperto no peito voltou do zero ao cem, e piorou. Sou a pessoa mais estranha desse mundo, aliás eu tenho que ser assim, eu sou mulher.

-Você não vem? - Pergunta Pres enquanto vai andando da areia para o mar.

-Não, obrigada. - Agradeci e voltei aos meus pensamentos, dessa vez sozinha.

Meus olhos marejaram em lágrimas teimosas para cair, lágrimas que queriam descer a qualquer custo, e tudo isso porque eu amo o Bruno, e quero ficar ao lado dele, mas não posso porque simplesmente viver aquela vida, daquele jeito, não dá mais. Eu realmente espero que ele seja feliz.

Bobagem, eu quero que ele seja feliz ao meu lado.

Mas fui eu quem quis que tudo acontecesse assim, então eu tenho que aceitar caso ele tenha algo com aquela vadia.

Eu quero, mas não quero. Tenho que dar o melhor para minha filha, e está mais fácil dar o melhor com nós separados do que brincando de casinha fingindo que está tudo bem, porque não está mesmo! Pego meu celular para dar uma navegada no google. Ele está mais rápido, agora sem os aplicativos das redes sociais que eu usava antes, então o google rapidamente abriu. Pesquisei várias frases e trechos de obras literárias. Até isso eu perdi, meu bom e velho hábito de ler. Antes eu devorava um livro em segundos, e agora, eu não sei como terminar três páginas sem me preocupar com o serviço, com dar atenção para minha filha, e atenção para meu namorado. Ex namorado.

“Amor não é se envolver com a pessoa perfeita, aquela dos nossos sonhos. Não existem príncipes nem princesas. Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos. O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.”

Algumas coisas que lemos, vemos, ouvimos, se encaixam tanto em nossa vida, que nós ficamos assustados. Esse pequeno trecho, por exemplo, de um poeta brasileiro, me descreve completamente. Eu queria ver no Bruno uma pessoa perfeita, mas eu conheci ele com todos os defeitos e ele conseguiu me amar mesmo eu tendo um caminhão de defeitos também. Eu consegui conviver com todos os defeitos de um garoto perfeito, e agora eu estou idealizando uma família estilo comercial de margarina, mas não estou pensando que eu conheci ele assim.

Talvez a melhor escolha que eu tenha feito, foi essa, foi abandonar aquela casa, deixar tudo o que tínhamos na mais perfeita amizade, porque assim nem eu, nem ele e nem nossa filha fica pensando nos problemas de brigas e discussões. Agora ele é um homem livre para fazer as escolhas dele, para aproveitar o tempo que quiser fora de casa, bebendo, dançando, sem ter que me dar satisfações quando chegar em casa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Vinte e seis - Parte 2


-Tem certeza que passou? Podemos ir sem nos preocupar que você vomitará na água? - Pergunta Thales parado na porta enquanto nós esperávamos para sair.

-Eu estou bem, foi só um mal estar.

-Ela deve estar preocupada com algo, foi por isso. - Lisa passa a mão no meu ombro. - Agora para de marra e vamos sair, aproveitar. - Ela dá um gritinho e minha filha grita também.

Nós rimos daquilo e saímos do apartamento como doidas. Pres ligou o rádio do carro, alegou que sem música não iria sair. Cantávamos enquanto a Bê nos olhava como se fossemos doidas, acho que ela não conhece muito bem esse meu lado mais doido.

-Filha, esses são seus padrinhos e sua tia, tudo louco. - Balanço a cabeça enquanto olho pra ela, que esperta fica me encarando e rindo.

-Louca é sua mãe! - Pres diz da direção.

-Cala a boca e vai prestar atenção pra onde tá dirigindo. - Dou u tapinha no banco dela e ela ri.

-Cala boca. - Minha filha repete.

-Que papagaio. - Lisa pega seus pézinhos e Thales se vira pra trás e faz uma careta pra ela.

-Quem é a nojenta do dindo? - Pergunta ele e ela olha pra ele com os olhos brilhantes.

-Mãe. - Diz ela e nós rimos, mas ela provavelmente não entendeu o porque então saiu rindo como nós estávamos.

-SO WAKE ME UP. - Pres balança os braços assim que paramos na sinaleira.

Quanto a mim e ao Thales hoje pela manhã, bom, eu chorei, e entre algum soluço, Lisa levantou e falou com nós. Ele pediu um trilhão de vezes desculpas a mim, por um lado ele tinha razão no que ele falou, mas tudo isso é recente demais para eu absorver isso numa boa.

O momento de arranjarmos um lugar para deixar o carro foi o mais difícil. Minha filha não parava quieta, até parecia que estava indo ver o mar. Fiquei olhando para ela balançando as perninhas, enquanto Pres manobrava o carro para deixar estacionado perto de uma cafeteria.

-Bom, chegamos! - Thales bate as mãos. - Espero que tenha pessoas bonitas por aqui hoje.

-Eu estou aqui, eu sou linda, então sim, tem pessoas bonitas. - Lisa balança seus cabelos presos num rabo de cavalo e nós rimos disso também.

Estávamos rindo de tantas coisas, e enquanto pegávamos nossas coisas, íamos rindo, como se fossemos idiotas, ou sei lá o que. Achamos um lugar na areia, Thales cravou o guarda-sol na areia, e enquanto ia ajeitando, Pres estendia sua toalha ao lado da Lisa.

-Segura ela aqui que eu vou estender a minha. - Entreguei Bê para Lisa e peguei a toalha na minha sacola.

Tirei minha roupa assim mesmo, estava com meu biquíni por baixo mesmo. Pedi para Lisa tirar a da Bê enquanto ia me ajeitando no lugar, Pres passou protetor nela e ajudou a passar em nós. Estávamos todos já sentados nas toalhas e olhando para o mar.

-Sinto muito, mas eu não vou ficar só olhando! Olha essa imensidão! - Thales aponta para o mar, só ai que percebi que minha filha olhava encantada para o mar. Ela brilhava os olhinhos enquanto acariciava seu urso, ela estava realmente hipnotizada com tanta beleza.

-Vamos levar ela até a beirada? - Pergunta Pres levantando da toalha.

-Vamos! - Concordo.

Peguei ela no colo para irmos, mas Bê se balançou e quis descer.Deixei ela encostar nos chão e quando seus pés encostaram na areia, ela olha para mim e sorri, mas fica logo depois com um semblante meio estranho, de certo está estranhando a textura da areia.

-Eu tenho que gravar isso. - Pres bate as mãos e corre para pegar o celular.

Ela anda dois passinhos e caí de bunda na areia, nós rimos disso também e ela parecia apreensiva no inicio, mas quando viu que rimos, ela também riu.

-Olha o mar, amor. - Apontei para o mar e ela sorrio.

-Mar, mãe. - Seus olhinhos brilharam mais do que antes. Eu pude ver o Bruno através dela.

Peguei-a no colo e a levei para o mar, e senti primeiro a água para ai então coloca-la. A tia babona estava gravando tudo sem parar, e Lisa estava olhando emocionada.

-Olha aqui o dindo gostoso. - Thales chama atenção dela quando ela ameaçou chorar.

-Amor da mãe. - Peguei-a no colo, molhando meu peito que estava quente e seco, e dei um beijinho em sua bochecha.

-A titia também quer um beijo. - Pres anda em nossa direção e grava o beijo que Bê dá em sua bochecha.

Não sei por quanto tempo mais ficamos ali, mas logo no primeiro ventinho eu a tirei do mar. Não quero arriscar que ela pegue uma gripe ou algo parecido. Fiquei por tempos olhando ela sentada na areia, olhando para seus pézinhos, e por diversas e diversas vezes eu alertei ela sobre a areia, dizendo que era cacaca, ela repetia e ria de mim com cara de brava pra ela.

(Play aqui!)

A coloquei sobre a toalha agora, com seu ursinho. Bruno adoraria ver tudo isso. E eu ainda estou pensando nele, eu prometi que não iria me arrepender, mas é difícil ter esses momentos com ela e não pensar nele, pensar no que ele acharia. O mar e a praia sempre vão me remeter lembranças como o dia em que disse o sexo pra ele, quando ela ainda era apenas um pedaço de mim dentro de mim, quando ela não parava de chutar, no último banho de mar antes de ganha-la. Aquele dia foi lindo, ele me ajudou com tudo, até na hora de sentar e levantar da cadeira, de entrar no mar, de molhar a barriga, de dar atenção.

Como nós nos perdemos tanto de ser aquele casal tão lindo? Nós éramos lindos. Éramos... isso é mais difícil do que pensava. O que será de mim depois de tudo isso, eu não queria que nada acabasse do jeito que acabou, mas eu sou mais complicada do que pareço.

Soluço e passo a mão por debaixo dos olhos com cuidado. Bê me observa e passa sua mão na minha coxa, como ela pode ser tão esperta e me compreender tão facilmente.

-Você é o melhor presente que eu poderia ganhar! - Beijo sua bochecha.

Loving can hurt
(Amar pode doer)
Loving can hurt sometimes
(Amar pode doer às vezes)
But it's the only thing that I've known
(Mas é a única coisa que eu sei)
When it gets hard
(Quando fica difícil)
You know it can get hard sometimes
(Você sabe que pode ficar difícil às vezes)
It is the only thing that makes us feel alive
(É a única coisa que nos mantém vivos)

Amar não pode doer, amar dói. Assim como tudo que fazemos tem seus contras, o contra do amor é a dor. Aperta o peito, embaça a vista,  tremula as pernas, deixa-nos tontos e sem sentido. Eu amo ele, e nunca vou deixar de ama-lo, mas temos escolhas a fazer, e eu não poderia passar a vida toda daquele jeito, não sofrendo e tentando parecer que tudo estava bem.

Daqui a menos de dois meses nós chegamos na época de natal. Eu havia planejado fazer algo grande com o Bruno há uns meses atrás, mas agora eu só penso em deixar tudo melhor passando longe. Apesar que eu não sei o que o amanhã me reserva, mas se tudo continuar assim, eu quero passar com meus pais, no Havaí.

When I'm away
(Quando eu estiver longe)
I will remember how you kissed me
(Me lembrarei de como você me beijava)
Under the lamppost back on 6th street
(Embaixo do poste de luz da 6ª rua)
Hearing you whisper through the phone
(Ouvindo você sussurrar pelo telefone)
Wait for me to come home
(Espere por minha volta para casa)

Bruno Pov's 

E eu novamente tinha me dirigido ao Phil para pedir ajuda. Mostrei para ele a carta e expliquei tudo que tem acontecido nos últimos tempos, ele pareceu pensar bastante sobre o assunto, até fechar a porta do escritório da casa, e sentar-se na cadeira do outro lado da mesa.

-Todos te avisaram. - Ele entrelaça seus próprios dedos.

-Eu sei. - Baixo a cabeça, mas logo ergo.

-Porque traiu ela?

-Eu não traí ela, acredite em mim. Eu nunca, nunca, trocaria a Nicole por outra mulher! - Balanço a cabeça e ele continua me olhando.

-Então porque se aproximou da Paige desse jeito?

-Porque ela sempre me ajuda, ela me diz com clareza quando as coisas não estão boas... você vê que ela é uma ótima profissional.

-E você vê que sua mulher odeia ela, então para que cutucar a onça com vara curta? - Phil franze a testa esperando uma resposta minha, mas nada que eu disser vai adiantar. - A Nicole ama você, ela específica isso sempre, pra qualquer um saber... e você provoca ela levando uma assessora pra almoçar na sua casa em pleno domingo, que é dia de aproveitar com a família?

-Eu não pensei que isso faria mal...

-Bruno, bro, lembra quando você ficou morrendo de ciúmes da Nick com o Thales? - Assenti positivamente. - Imagina se ela não houvesse especificado que ele era homossexual, e levasse ele para sua casa pra almoçar, iria gostar?

-óbvio que não.

-Então... até no amor existe limites. Você passou os limites que Nick acredita que sejam extremos. Um conselho de amigo, faça o que ela disse, não tenta correr atrás dela sem saber o que dizer, porque vai piorar! - Ele da um tapinha na mesa e eu dou um sorriso torto.

Me sinto o maior idiota do mundo. Enquanto Urbana abre a porta e fala com o Phil, eu fico tamborilando meus dedos na mesa, impaciente, pensando em como será a minha vida sem as minhas maiores preciosidades dentro de casa.

-Ela está cada dia mais linda e inteligente. - Ouço Urbana dizer.

-Nessa idade eles são lindos. - Phil passava os olhos na tela do celular.

-Minha filha? - Pergunto ouvindo seu gritinho.

-Parece que ela foi na praia com a titia e companhia. - Urbana diz enquanto mostra-me o celular.

Vejo o pequeno vídeo de 15 segundos onde mostra a Nick levando ela até o mar e deixando suas perninhas dentro, Thales fala alguma coisa e ela ri batendo a mãozinha na água. Nicole está tão bem, sorridente, talvez ela estivesse precisando disso mesmo.


No outro vídeo aparece ela dando alguns passinhos na areia, e fazendo careta, mas assim que todos eles riem, ela ri também. A foto que Pres postou também é dos seus pés todo sujo de areia.


-Ela está feliz. - Comento baixinho.

-Como? - Pergunta Urbana.

-Ele e a Nick terminaram, dessa vez acho que foi bem sério. - Phil fala baixinho.

-Pobre Nick. - Ela balança a cabeça. Tem razão, pobre Nick, ter que me aguentar por todo esse tempo, com toda essa ranzinza, com todo esse bipolarismo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Vinte e cinco - Parte 2



Bruno Pov's

Peguei o avião de Nova York para Los Angeles. A demora estava grande, eu quase nunca consigo dormir no avião, mas hoje eu estava mais inquieto, algo me incomodava e eu não sabia dizer o que era. Passei por muitas músicas que costumo sempre escutar, e enquanto escutava umas e outras, aproveitei para twittar algo rapidamente, e ainda ver pelas conversas em minhas mentions que não paravam, que Nick havia desativado o twitter, claro, ela nem o usa direito mesmo.

Passei pelas minhas fotos, admirei minha filha e logo John me balança para ir jogar, já que chegou a minha vez.

+++

Não havia sinal de ter alguém em casa quando desci. Ryan seguiu para o apartamento dele e eu entrei em casa, desativei o alarme que estava ligado, isso quer dizer que realmente ela deve ter saído.
Passei na cozinha, tomei um copo de água por causa do calor, e fui para o quarto. Abri a porta e a cama estava devidamente arrumada como ela sempre faz. Retirei meus sapatos e minha jaqueta, sento-me na cama e ouço um barulho, levantei e vi que havia sentado em cima de uma carta. (Play!)


"Para Bruno." 

Abri-a, uma extensão bem grande de palavras, passei o olho rapidamente, mas decidi lê-la direitinho. Observei a letra de Nick, tão perfeitamente desenhada, como se ela medisse cada traço que iria fazer, enquanto a minha um garrancho.

"Oi, deve ser de tarde agora, ou inicio da noite. Você já deve ter visto que a casa estava fechada e que não há ninguém. Quero deixar claro que você é meu melhor amigo e amante, que nada mudou e que não brigamos, vamos encarar tudo isso como apenas uma férias para nós mesmos! Na estrada para isso tudo, para a vida, nos deparamos com pessoas e pessoas, pessoas especiais, pessoas que não fazem diferença, pessoas que aturamos e pessoas que amamos. De todas essas pessoas, você foi a pessoa que mais me trouxe pessoas. Me trouxe uma família, uma filha, amigos, admiradores..."

Levantei-me atordoado, ainda não havia terminado a carta, mas que diabos ela está fazendo? Cocei minha cabeça e o closet me deu a resposta. Abri ele, passando os olhos rapidamente em tudo, o lado esquerdo, o lado dos seus sapatos, roupas, bolsas e tudo mais, está ali, mas não está ali. Falta muita coisa que o compõe, tem umas três camisas, um par de sapatos, uma toalha, e um moletom. Encaro mais de perto e percebo que as três camisas são as minhas três camisas, que ela sempre usava para se sentir mais a vontade. O moletom é meu, ela o usou enquanto estava grávida já que alegava que tudo dela ficava feio, e a toalha e o sapato, eu não sei porque estão ali. Sentei-me no sofá sem encosto que há no meio do closet e continuo a ler.

"Não quero falar sobre a hora que é agora, porque simplesmente acho que não é interessante. Nos acidentes da vida, no destino que ela nos dá, você foi e é uma das melhores coisas com o pior passado. Nós nunca mudamos quem somos verdadeiramente, apenas tentamos nos adaptar para que as pessoas também se adaptem com nós, e todos viverem com perfeita harmonia. Eu costumava ler bastante, acho que lembra quando lhe falei isso, mas há uma citação que eu acho bem interessante, que gostaria de falar: "O amor é como as rosas, cada pétala uma ilusão, cada espinho uma realidade!" Mas mesmo assim nós não deixamos de colher a rosa por causa dos espinhos, digo, os problemas sempre tem uma solução. 
Fugir eu sei que não é a melhor solução para os problemas, eu sou ciente disso, mas percebeu que nós não somos mais os mesmos? Que frase clichê, mas o clichê sempre é o mais real. Nós não somos mais os mesmos apaixonados. Não estou reclamando que você não me leva mais para jantar, e sim comentando que dos sete dias da semana, pelo menos em três nós brigamos. " 

Ergui minha cabeça e andei para fora do closet, abri o quarto da minha filha, ele estava vazio. Não, não vazio de móveis pois todos continuavam ali, mas vazio de vida. Cadê a maioria dos seus brinquedos? Suas roupinhas no armário? Sua fraldinha pendurada ao lado do berço? Seu chiqueirinho cheio de ursos, seu fraldário cheio de fraldas, talco, pomada... É como se eu houvesse construído esse quarto para alguém que não existe, alguém que não nasceu, como se ele nunca fosse habitado.

Sentei-me na poltrona e antes de continuar a ler, respirei fundo mais uma vez.

-O que eu fiz, meu Deus. - Lamento pelo flashback que passa em minha mente e agora sim, retorno a pensar na carta.

"William era um grande cara com grandes pensamentos. Você também, Bruno, também é um grande cara - digo, a alma é grande -, com grandes pensamentos, mas falta-lhe algo, algo que eu não sei o que é, e agora com a minha ausência eu peço que descubra. 
Venha visitar a sua filha sempre, eu também sempre a levarei para você vê-la, mas só toque nesse assunto o que dia que pensar bem no que falar. Por favor, eu peço e repito, por favor, não venha com mil e uma desculpas, porque eu sempre escuto uma desculpa depois das nossas brigas, e isso cansa um pouco. 
Isso está soando dramático demais, não é mesmo? Mas não se preocupe, eu e o drama temos um longo relacionamento, ele sempre anda de mãos dadas comigo, assim como o ciúmes perante à você, assim como o medo e a esperança. E agora, quero lembrar, mais uma vez, que isso não é uma carta de despedida e nem uma carta de briga, é apenas um casal terminando algo de um jeito mais simples e menos corriqueiro. Fui covarde em não te esperar para ir embora de casa, covarde por não pronunciar essas palavras olhando para seus olhos sagazes e ferozes, seus olhos penetrantes e que dizem mais do que posso falar em um minuto. Se eu tivesse feito tudo isso olhando nos seus olhos seria uma perda grande, eu não teria coragem de virar as costas e lhe abandonar, eu não teria coragem de dizer tudo isso. Eu fui covarde e sou covarde. 
Quero terminar dizendo que, acima de qualquer coisa, você é meu Shrek pra sempre, e, se você quiser, eu sempre serei a sua Fiona.

“Duvides que as estrelas sejam fogo, duvides que o sol se mova, duvides que a verdade seja mentira, mas não duvides jamais de que te amo.”  
; Da que te ama hoje, amanhã, e até o tempo permitir - ou além -, Nicole. " 

Eu sou sensível, eu choro, eu não aguento todas essas coisas, muito mais falando nela. Eu sou o ÚNICO responsável por isso, ela sempre ao meu lado, sempre me apoiando, aturando meus dias de discussão, meus porres, eu a machuquei e ela não falou nada para mim, porque? Porque eu simplesmente surtaria e ela não gostaria de me ver se culpando e lastimando. Ela me ama, e eu a amo, mas eu sou um idiota e eu sempre, mesmo não querendo, faço as coisas erradas.

Nicole Pov's 

Eu iria pra praia com todos, como combinado, mas acordei pela manhã cedo com um enjoo matinal horrível. Aluguei o banheiro do apartamento vomitando como doida, até ouvir um pequeno movimento. A porta se abre e Thales dá um gritinho de desculpa, eu, toda atrapalhada, olho para a porta estática, sem nem ao menos saber o que responder.

-Já irei sair. - Thales passou a noite conosco, o bom é que ele já vai se acostumando com o apartamento, mas ele dormiu porque nossos planos é irmos para a praia.

-Tudo bem, eu espero. - Ele fala do outro lado.

Levanto-me para fazer minha higiene, escovo os dentes rapidamente e abro a porta, ele sorri pra mim, mas entra rapidamente assim que eu saio da frente dele, de certo estava apertado. Ando até a cozinha e abro a geladeira, preciso comer algo já que na janta eu nem belisquei a comida direito.

-Bom dia - Ele me abraça por trás, o mais engraçado disso tudo é que eu pensei, por dois segundos, que fosse o Bruno, mas lembrei rapidamente da minha condição e tudo que está rolando. - acordou cedo. - Observa ele.

-Tenho que dar mama para a Bê, e já estou acostumada com esse horário mesmo. - Dou uma risada nervosa.

-Vou ligar a televisão, ok?

-Ok, só não muito alto por causa da Lisa, que aliás não gosta muito de ser acordada.

-Tudo bem, chefe mandou.

Preparo o leite da minha filha, não consigo mais tirar leite do peito, acho que finalmente chegou ao fim, e também conforme ele cresce mais, ela vai desgostando do leite e ás vezes nem toma a mamadeira completa. Dou um suspiro enquanto ouço Thales perambular canal por canal até achar algum que lhe interesse, mas não é por isso que suspiro, é porque simplesmente eu não sei o que pensar. Não havia pensado no Bruno até agora, porque estava rindo com meus amigos, e não precisava pensar na minha vida amorosa. Bruno por mais que tenha sido um idiota, ele foi o meu idiota por muito tempo e a cada lembrança que eu tenho me remete a sua imagem, seus olhos, sua boca, seu sorriso, tudo. Eu sou uma idiota covarde, e agora estou com medo de ficar sozinha e acabar pensando demais no que eu fiz. Mas eu não vou me arrepender.

Isso é pro meu bem!

-Nicole! - Thales estala os dedos na minha frente. - Você quase derramou todo o leite no fogão, se não fosse eu estaria um incêndio nessa cozinha! - Ele bufa pegando a leiteira.

-Desculpa, eu...

-Eu só estava pensando na vida. - Ele fala como se fosse eu. - Estava pensando no Bruno,  e acho que quanto mais pensar, mais isso tudo vai parar de fazer sentido e você vai ficar com remorso. Se quiser voltar, volte hoje mesmo, ainda da tempo. - Thales finge que está com um relógio no pulso e olha as horas. Eu tento pensar em fazer algo, mas ele está certo. Eu fico pensando, pensando, pensando e daqui a pouco vou me arrepender.

Deixo meus olhos umedecerem um pouco, lágrimas queriam cair, mas eu não queria deixar. Thales me olha, larga a leiteira e quando eu vejo que ele vai me abraçar, eu me obrigo a apertar os olhos e sair da cozinha.

-Me desculpa, me desculpa, me desculpa. - Thales vem atrás de mim e eu o impeço de me abraçar com a mão espalmada a sua frente.

-Você está certo! - Respiro fundo. - Eu estava pensando no Bruno. Eu sou uma idiota por pensar nele, e isso que não se fez nem vinte e quatro horas que eu larguei daquela casa.

-Eu não quis dizer isso... - Homens. Bufo.

-Quis sim, mas não disse. Obrigada por cuidar o leite pra mim. - Me esquivo para pegar o leite e ele dá um abraço em mim.

Me afago em seus braços quentes e enterro meu rosto próximo ao seu ombro.

Choramingo baixinho e ele fica murmurando coisas dizendo que tudo vai ficar bem, que tudo vai se ajeitar. Eu só respiro, só tento manter minha calma, mas ouço um chorinho, que não é vindo de mim, e sorrio. Esse é meu motivo para sorrir.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Vinte e quatro - Parte 2

(Escute a partir daqui)

Já no sábado pela manhã eu não conseguia ter muitos pensamentos. Apenas sentei-me na frente da escrivaninha ás sete horas da manhã e num pedaço de papel escrevi sobre muitas coisas.

Não pude ir para Nova York, eu e o Bruno não brigamos, mas eu tenho que fazer o que é preciso, e se eu fosse talvez perderia a oportunidade.

No quarto minha filha ainda dormia tranquilamente, então foi o momento que aproveitei para tirar a pequena caixa que ainda estava  e levar junto com ela a bolsa da Bê. Restara apenas os móveis, e a roupinha que iria colocar nela assim que fossemos sair.

Lisa, Thales e Pres se propuseram a ajudar com as coisas. No carro da Jaime, que a Lisa vai dirigir, ela e Pres levaram as caixas maiores, e no meu irá algumas coisas e o Thales junto cuidando da Bê, e eu dirigindo. Estava tudo planejado.

Entrei para o banheiro, talvez a última vez que tomara banho naquele grande e espaçoso banheiro. Quando escovei os dentes, olhei para a pia do lado da minha na qual ele sempre usa, olhei através do espelho esperando enxergar a imagem dele ali, sorrindo e escovando os dentes, como é sempre que estamos bem, como era logo que nos mudamos.

Calcei meus sapatos assim que já estava com a minha calça. Desativei todas as minhas redes sociais ontem à noite, tenho apenas o celular como contato agora. Verifiquei se tudo estava em boas condições antes de acordar minha filha. Arrumei a cama do nosso antigo quarto e sobre ela coloquei a carta, eu sei que ele virá ligeiramente para o quarto, nas suas roupas confortáveis, nos seus chinelos de pelos!

-Minha princesa, vamos acordar. - Passei a mão sobre o seu rostinho, sua bochecha estava bem quentinha diferente da minha. Ela vira para o lado resmungando algo e eu pude perceber, como sempre soube, que ela sim tem mais do Bruno do que de mim. Não só fisicamente, emocionalmente e até dormindo faz as mesmas coisas que seu pai. Dei uma pequena gargalhada e ela pisca os olhos sonolenta. - Filha, precisamos ir daqui a pouco. - Insisto e ela abre os olhos quando a pego no colo. - Desculpa meu amor. - Observo seu rostinho tristonho olhando pra mim.

Troco sua roupa enquanto para distrair, ela brincava com seu inseparável leãozinho. Calço sua sandália e a levo no colo para a sala. Ponho minha filha sentada no sofá e ela me olha, dá um sorriso e leva sua mãozinha até meus cabelos presos num rabo de cavalo. Será que ela sabe/sente que eu estou triste? Que o que eu estou fazendo é para o bem de todos nós? Será que um dia ela vai entender o meu lado?


-A mamãe te ama! - Beijo sua perninha de fora e ela ri para mim.

-Ama. - Repete e eu ouço a campainha. - Ó. - Ela levanta o dedinho falando sobre o barulho.

-A campainha meu amor. - Eu devo ser a mãe mais emotiva que existe no mundo, porque a cada coisinha nova que ela faz, eu tenho vontade de chorar.

Andei até a porta e vejo duas sombras.

-Chegamos! - Avisa Lisa.

-Não perdi a visão. - Digo e ela manda seu dedo do meio.

-Mas perdeu o humor.

-Tudo bem? - Pergunta Pres dando um beijo em minha bochecha.

-Na medida do possível, sim. - Respiro fundo.

-Onde está minha pitoquinha? - Pergunta Lisa já entrando em direção da sala. Pres a segue.

-Não sabem do Thales? - Pergunto.

-Ele avisou que está vindo, acordou tarde!

-Não seria o Thales se não acordasse tarde. - Balanço a cabeça rindo.

Thales não demorou para chegar, e aí foi a parte mais difícil, carregar as caixas com roupas pesadas para o carro da Jaime, que estava todo aberto, enquanto eu tomava um café aguado que fiz na pressa. As meninas pediram licença e foram em direção do apartamento da Lisa, mais tarde buscaríamos as coisas do Thales - e sim, eu o convenci a morar com ela, opa, agora com nós.

-Posso ir levando ela para o carro? - Thales pergunta, eu sei que ele só quer um pretexto para e deixar sozinha.

-Claro, já está tudo lá? - Pergunto.

-Tudinho.

Agradeci à ele e caminhei até a frente da lareira, onde tem três porta retratos, inclusive aquele que está eu e ele no nascimento da Bê, mais um onde ele está somente com seus irmãos, sua falecida mãe e seu pai, e outro é de uma noite de festa, eu ainda estava grávida, e estava todo mundo na beira da piscina, rindo e bebendo. Todas as fotos são lindas e de momentos preciosos, momentos que eu prezarei para o resto da vida, momentos que eu dava tudo para poder ter um replay.

Passei a mão sobre o do nascimento da nossa filha, ainda somos aquele mesmo casal daquele dia feliz? Fecho os olhos e tento imaginar como será daqui pra frente, mas é praticamente impossível.

-Não queria ir embora assim. - respiro fundo tentando conter alguma lágrima que pudesse cair. Eu que quero assim, eu tenho que ser forte. - Não queria ir embora. - Passo os olhos sob o teto, vejo o sofá, a lareira novamente, a cortina. Ando em frente vejo a entrada da sala de jantar, a cozinha, a porta de vidro, o corredor que dá aos quartos, o lustre, as plantas. São tantas lembranças!

Passo a chave na porta, aciono o alarme e a ponho embaixo do tapete - quer coisa mais clichê que isso? Mais uma vez, tomo coragem, respiro fundo e ando em direção do meu carro.

Abro a porta e tiro a chave da minha bolsa.

-Está tudo bem? - Pergunta Thales pondo a mão sobre o meu ombro.

-Mãe. - Bê chama minha atenção.

Sorrio para ambos, meu sorriso tem verdade, porque pode não estar tudo bem agora, porque é difícil abandonar um lugar onde você tem tantas boas lembranças, mas vai ficar tudo bem, isso que eu estou fazendo é para o nosso bem.

-Está. - O sorriso partiu até do meu olhar, então Thales sorrio e acenou com a cabeça. Dei a partida no carro e fomos para nosso ponto: minha nova antiga casa!

(Pode parar aqui)

***

-Eu preciso comer algo, antes que eu ataque a mamadeira da Bê. - Lisa levanta da poltrona passando a mão na barriga.

-Por mim vamos comer algo. - Thales opina.

-Eu não irei fazer comida. - Sai em minha defesa.

-Nem eu! - Lisa olha para Thales.

-Podemos comer no restaurante italiano, faz tempo que não saímos assim mesmo. - Ele cruza os braços e eu olho para Pres.

-Vamos com nós, não é? - Pergunto e ela torce os lábios rapidamente.

-Sabe o que é, eu combinei que almoçaria com o Kealoha. - Ela torce os lábios mais uma vez, mas depois de encarar meu rosto, ela sorri e balança a cabeça. - Eu almoço todos os dias com ele, hoje eu posso faltar. - Ela ri.

-Ok, então vamos!

Decidimos irmos no mesmo que sempre vamos, mas como é sábado nós já suspeitávamos que muitas pessoas iriam almoçar fora, o que era ruim, pois no fundo sabíamos que nós não teríamos escolha em irmos para outro restaurante. Então pegamos nosso rumo para Venice. Iríamos ao Del Piccolo.


Pegamos a mesa no lado de dentro, que são as maiores mesas do restaurante, então pedimos a cadeirinha para por minha filha e nos instalamos. Sentei ao lado de Pres e Thales e Lisa a nossa frente. Fizemos nossos pedidos, eu pedi o que eu sempre amo comer, e só de lembrar a saliva vem ao dobro em minha boca: tagliatelle à bolonhesa. Ao acompanhamento foi um suco de laranja natural, já que vinho eu não posso beber já que estou na direção. Não que eu não quisesse, pois vinho de safra antiga, boa marca e ainda por cima italiano, são um dos melhores.

-Poderíamos ter trazido nossos biquínis. - Lisa lamenta ao olhar pela janela o belo dia que fazia lá fora.

-Verdade, eu amaria tomar banho, pegar um sol, hoje! - Pres também olha para a janela.

-Bê foi poucas vezes a praia, ela nasceu no inverno, e quando deu o verão ela era pequena demais para entrar na água, aí só entramos com ela até a beira. - Comentei e Thales ri.

-Então vamos aproveitar que estamos aqui. - Ele diz.

-Mas ninguém trouxa nada. - Choramingo.

-Vamos pegar... - Todas nós olhamos para Thales, não seria má ideia.

-Então vamos vir amanhã. -Digo com calma.- Ninguém tem pressa, aí podemos vir mais cedo, trazer nossas coisas, aproveitar mais.

As comidas vieram para a nossa mesa, atraquei meu prato enquanto falávamos sobre outras coisas, assim que terminei, ajudei a Bê a usar a mamadeira - ela sabe segurar, mas cuidado a mais não é problema. Meu estômago estava girando dentro de mim, parecia que eu estava com azia, com algo assim, mas não era isso. Senti uma bola parar no meio da minha garganta.

-Licença. - Peço arredando a cadeira. Ouço o chorinho da minha filha assim que saí, mas eu não poderia voltar ali, precisava chegar ao banheiro.

Quase que literalmente abracei o vaso, vomitei tudo o que tinha e o que não tinha, que é a pior parte, aquele sulco gástrico horrível, com gosto de água de esgoto. Quando achei que iria parar, ouço o barulho na cabine ao lado e ouço também um barulho nojento vindo do vaso, vomitei mais uma vez, mas por nojo.

Saio da cabine, passo água no meu rosto e de repente os meus pensamentos no Bruno tinham sumido enquanto estava vomitando, mas, agora voltaram. Ajeitei meus cabelos e passei água na boca, logo depois jogando-a fora.