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sábado, 30 de agosto de 2014

Vinte e Três - Parte 2

Virei para o lado oposto dele na cama. No meio da noite, ele estava dormindo e se virou, ficando automaticamente de conchinha comigo. Eu acordei com ele resmungando e passando seus braços em minha cintura. Eu me arrepiei de cima a baixo, fiquei doida para virar, para dar um abraço nele, pra dizer que tudo estava bem e que tudo ficaria bem se não estivesse. Mas daí, eu lembro de tudo.

Uma certa vez, em algum livro, eu li que quem traía, sempre irá trair, pode ser raro quando se encontra alguém que realmente gosta, mas ele irá trair novamente. Tinha também um dizer, eu não sei ele exatamente, mas constava que: trair não é só beijar e ir além com outra pessoa, trair é estar com a atual relação pensando em outra pessoa, desejando estar com outra pessoa e materializando outra pessoa no lugar daquela. Eu não sei ao certo, não sei se ele realmente me traiu, ele pode estar falando a verdade quando disse que virou o rosto, mas... como não acreditar? Bruno era da vida, e  quando eu digo da vida quero dizer que quanto mais mulheres na sua cama por semana estava melhor. Ele provou que tinha mudado por mim, e quando descobri aquele passado que me atormentava, nós demos um tempo e ele aproveitou com outras garotas. Fica difícil acreditar em alguém assim... Fica quase impossível achar que ele não está me traindo.

A questão é: como não pensar nisso o tempo todo?

A outra questão é: o que fazer quando a gente fica dividido? O coração é fraco. O cérebro engana. Eu fico e pago pra ver, talvez arriscando até ficar mal com isso, e acabar me machucando mais. Ou eu vou, e espero um tempo para pensar sozinha sobre tudo isso.

Não é uma tarefa fácil, eu tenho que pensar em mim, no nosso relacionamento e na nossa filha. Eu estou mais dividida por ela.

Tomei meu café e Bruno continuava na cama. Arrumei-me e esperei a babá chegar. Falei pra ela que chegaria uma hora mais tarde hoje e que não era para ela se preocupar e qualquer coisa era para me ligar. Eu sabia mais ou menos o que fazer. Amanhã já é quarta, o Bruno viaja...

***

Thales ficou eufórico por eu comentar sobre o assunto com ele, mas avisei o quanto antes que isso ainda não era concreto. Comi uma maçã antes de dirigir até a casa de Jaime, e claro, mandei uma mensagem pra ela avisando que iria lá rapidinho.

Toquei uma vez a campainha e ouvi uma corridinha que parou na porta.

-Mãe, a tia Nick está aqui! - Grita Jaimo e logo abre a porta me recebendo com um sorriso.

-Oi, meninão. - Dou um abraço nele e observo Jaime sorrir para mim.

-Entre Nick. - Ela diz e Jaimo vai correndo para algum lugar da casa. Dei um beijo em sua bochecha e seguimos até a sala. - Tudo bem? - Pergunta ela assim que senta no sofá ao meu lado.

-Não sei...- Olho para bem distante e tento concentrar no que dizer. - Jaime, desculpa estar alugando você sempre que tenho algo, mas você, mais que ninguém, sabe o que está passando ... Minhas amigas sabem, mas elas não tem experiência quanto você. - Digo a confundindo mais ainda. - Eu não sei mais o que fazer com o seu irmão.

-O que ele fez dessa vez? - Pensei primeiramente na marca roxa em meu braço, mas ela estava tapada pelas mangas, então não teria risco dela ver.

-Bêbado. A segunda vez...ele tentou me agarrar, mas estava com marca de batom na orelha esquerda, depois ele tentou entrar naquele estado no quarto da minha filha, eu não permiti. Ele caiu no chão. - Sinto as lágrimas acumularem em meus olhos. - Quer dizer, eu não sei se eu o empurrei com força, ou se ele estava fraco demais para parar em pé sozinho. Mas ele veio naquele estado dirigindo pra casa. E se acontecesse algo?


-Não chora, primeiramente. - Ela me puxa para um abraço, e eu choro em seu ombro pedindo desculpas. Assim que o choro cessa, ela  segura meu rosto, e prossegue. - Quer me falar mais coisas?

-Eu não passei o dia em casa ontem, não fui trabalhar! Iria vir aqui, mas quando me dei de conta já era tarde demais. Ele vai para Nova York amanhã, e ficará até o final de semana. E ontem à noite, ele foi querido comigo como se nada tivesse acontecido.

-Bruno sofre de bipolaridade...

-Ou de sem-vergonhismo.

-Também. - Ela ri. - Vamos ir por partes... Você o ama?

-Mais do que a mim mesma.

-Você está pensando na filha que vocês tem juntos? - Pergunta ela, agora pegando minhas mãos carinhosamente.

-Penso nela, acho que só não saí de casa por causa dela.

-Então está pensando em sair de casa? - Pergunta ela. Não tinha respostas, meu olhar dizia tudo, eu não poderia aguentar tudo isso por mais tempo, ou iria explodir. - Entendi...

-É mais complicado que pensava? - Pergunto a ela.

-Eu não sou conselheira amorosa, só conheço o meu irmão e conheço você. Apesar dele estar sendo um babaca, ele ama você e a sua filha como nunca amou ninguém...

-Então porque ele me traiu? - Meus olhos, novamente, inundam.

-Eu não sei, Nick. - Ela baixa a cabeça, pensativa.

-Jaime, você já fez muito por mim, por minha filha, pelo nosso relacionamento, mas acho que agora está impossível. Eu sinto que se tiver mais um mês naquela casa eu posso ir a loucura, eu posso ter um surto psicótico e entrar em depressão. Não aguento mais chorar pensando nesse "e se...". - respirei fundo. - Lisa disse que irá me abrigar na sua casa, até eu pensar realmente no que fazer, Thales irá pra lá também para não ter que pagar aluguel. Não estou dando um fora definitivamente no seu irmão, apenas tirando um tempo para pensar.

-Isso tudo vai fazer você feliz? Ou pelo menos vai fazer você melhorar? - Assenti positivamente a sua pergunta e ela sorri, um sorriso tão "mãe". - Então faça. E sabe, qualquer coisa, qualquer mínima coisa que precisar, me chame. Passe um tempo aqui, ou se quiser ir passar com as meninas na casa delas que é maior. Todas nós gostamos muito de você, e queremos o bem seu e da nossa sobrinha, e se pra isso é preciso afastar do Bruno um pouco, faça.


-Eu tenho medo que ele não entenda.

-Bruno é explosivo, mas eu sei que ele não vai ficar muito bravo com isso. Talvez ele fique muito magoado.

Bateu o pensamento repentino quando ela disse "magoado". Bruno sempre me pareceu ter uma alta tendência a ser um depressivo, e se caso ele fume e beba mais frequentemente caso eu faça isso? Tive um cargo de peso despejado em minha cabeça, eu não me perdoaria se ele se estragasse por nós duas.

-Amor. - O marido de Jaime chega na sala e assim que me vê, sorri. - Oi Nicole. - Eu dou um breve oi e ele continua. - Serei breve. Não faça janta, eu encomendei comida japonesa para nós. Vamos comer peixe cru, gracias. - Ele levanta as mãos.

A fala de peixe cru me remeteu ao cheiro do peixe, as escamas fedidas e sua textura. Fiz cara de nojo e perguntei para Jaime onde era mesmo o banheiro. Assim que ela apontou, andei rapidamente até ele e fechei a porta me escorando nela. Tentei engolir minha saliva, mas ela voltou rapidamente em forma de vômito.

-Droga. - Digo entre o intervalo do vômito.

Parecia que eu estava vomitando peixe cru, como se eu estivesse comido ele agora a pouco. Puxei a descarga e enxaguei minha boca com água e enxaguante bucal mentolado. Ouço duas batidas seguidas na porta e em seguida Jaime fala.

-Você está bem, Nick? - Pergunta ela, carinhosamente.

-Estou sim, Jaime. Apenas estava com a bexiga apertada. - Dei uma risada, e eu acho que foi convincente.

A minha conversa com a Jaime foi bem esclarecedora, ela falou-me várias coisas, falou até sobre o jeito do Bruno de ser, aquele que é romântico e ás vezes explosivo. Mas ela sempre, sempre, forçou a ideia de quê ele realmente me ama e ama a nossa filha. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Vinte e dois - Parte 2

Nós duas, eu e Ju, fizemos a janta. Conversamos e rimos tanto que  eu esqueci de quase tudo que ocorria e me deixava desligada. Nossos bebês não aguentaram por muito tempo, e quando arrumamos tudo, peguei Bê no colo e ela resmungou alto.


-Vê se pode, nem ir embora ela quer. - Balanço ela levemente para que ela não acorde.

-Podem ficar aqui se quiserem. - Ela sorri abertamente. Julia sabe um pouco do que está rolando, não falei com ela sobre esse assunto, afinal estávamos com o Kam e não quero comentar sobre seu amigo assim. Ela é esperta, sacou que minha calada e minhas poucas palavras de inicio tinham um motivo: Bruno.

-Obrigada, mas acho melhor nós duas irmos. - Apontei com os olhos para Bê que dormia em meu ombro.

-Vocês que sabem, mas qualquer coisa me avise ou venha pra cá direto.

-Tudo bem. - Sorrio grata.

Ela acompanhou-me até a saída, abrindo a porta para que eu fosse em direção do elevador. Pensei, por leves dez segundos, que talvez seria melhor não dormir em casa essa noite. Mas eu não trouxe roupa, amanhã teria que trabalhar, Bernadette também não tem todas as coisinhas que ela necessita aqui comigo.

Não, péssima ideia. Melhor deixar para outra hora, quem sabe eu fale com a Anne e pouse lá com a minha pequena no decorrer da semana.

Minha filha se mexe no meu colo por alguns segundos, abre seus olhinhos e me olha perdida, mas logo dá duas piscadas a fundo e adormece novamente. No estacionamento, caço meu carro e instalo ela no banquinho de trás para que durma em paz enquanto dirijo.

Quando chegar em casa Bruno pode estar acordado, ou pode não estar. Nós podemos discutir feio por eu não ter dito onde fui, ou ele pode nem estar em casa. Brilhei minha mente pensando que talvez seja melhor eu não dormir no mesmo quarto que ele, assim como na noite anterior. Sinto meu estômago roncar, e levo minha mão na barriga. Bê dá um gritinho e vira a cabeça para o lado, ela está sonhando com algo.

Esbravejo algumas palavras quando lembro-me que iria passar na casa de Jaime. Olhei para o relógio do rádio e era tarde demais para estar batendo na casa dela pedindo por conselhos e etc. Eu tenho que aprender a me virar sozinha, mas é difícil pensar nisso sem ver a opinião das pessoas que sempre me ajudam. Pessoas que tem a cabeça no lugar.

Amanhã à tarde não poderei faltar o serviço, já faltei hoje e posso ser descontada. Agora, me odeio por ter jogado tanta conversa fora sendo que poderia ter aproveitado.

-Mãe. - Minha filha chama-me, olho para ela através do espelho e ela está com carinha de sono ainda. Deve ter acordado quando fiz a curva.

-Mamãe está aqui, amor. - Atirei um beijo pra ela e fiz o retorno na última rua antes de chegar em casa.

Aciono o alarme do carro assim que saio dele. Bê está entorpecida no meu colo, está com sono, mas parece não querer se entregar. Pego sua mochilinha e minha bolsa, e sigo para dentro da casa. Antes de passar a chave, ouço uma música baixinha, vinda do piano. Suspiro fundo.

Já falei o quanto amo quando ele toca aquele piano? É algo tão mágico.

Balanço minha cabeça e minha filha pega meu lenço para brincar com suas mãozinhas.

Passo pelo hall de entrada e atravesso a sala lentamente quando ele para de tocar. Não quis olhar muito aquela cena, porque basta um olhar arrependido dele, que meu coração já diz que nada do que eu pensei anteriormente é a coisa certa à se fazer.

Mas eu sei que é. Eu sinto que é.

-Minhas princesas. - Como pode ignorar completamente aquele ser que ele era ontem à noite? Parei e dei um sorriso meia boca, mas minha filha estica seus bracinhos para ele com uma euforia sem tamanho.

-Cuidado. - Digo para ela e sinto ele pega-la de mim.

-Como passaram o dia? - Pergunta. - Saudades do papai, amor? - Ele pergunta agora diretamente para ela, que balança a cabeça confirmando.

-Fomos na casa da Julia, estava com saudades dela.

-Ela não está mais trabalhando? - Pergunta Bruno, agora caminhando ao meu lado até o quarto da nossa filha.

-Não mais, sabia que não iria ficar muito tempo em varejo. - Respirei fundo.

-Ia perguntar se estão com fome, mas vocês jantaram lá, não é?

-Só vou tomar um chá assim que dar um banho nela e tomar um banho também. - Fecho os olhos e estalo meu pescoço.

Bruno fica me encarando e larga Bê dentro do seu chiqueirinho, enquanto ele guarda a sua bolsa com as coisinhas em seus devidos lugares, eu me locomovo até a porta.

-Eu dou o banho nela e coloco para dormir, toma o seu. - Ele sorri. Como ele não parece hoje o homem que era ontem à noite? Incrível habilidade, Bruno é como um camaleão.

Quando os camaleões se sentem ameaçados, ou quando precisam chegar a sua presa, sem que sejam notados, sua pele automaticamente muda de acordo com o lugar onde está. Na verdade, a pele não muda, ela apenas caí dando lugar para outra. Bruno é basicamente ele. Quando se sentiu ameaçado, viu hoje pela manhã que eu não estava de brincadeira, mudou da água para o vinho. Mas o que aconteceu, aconteceu. Nada vai apagar a minha memória, muito menos a marca roxa dele me segurar com força que ficou no meu braço.

Tiro minha roupa no meio do banheiro e abro o chuveiro bem no quente. Se eu pudesse não ir amanhã para o serviço, eu não iria, mas eu preciso. Já faltei hoje e não posso ficar com esses pensamentos. A água que caí sobre o meu corpo parece levar um pouco do cansaço que está nas minhas costas. Passo o sabonete por ele e quando passo sobre meus peitos, eles doem. Ainda produzo um pouco de leite, é muito pouco, mas ainda vem. Aperto eles levemente para ver se sai alguma coisa, mas apenas duas ou três gotinhas de cada um.

Enquanto seco meus cabelos, enrolada com meu hobby, vejo a movimentação do Bruno entrando rapidamente no quarto e voltando apressado para o quarto da minha pequena. Apresso os afazeres com meu cabelo e ando até o quarto dela.

Bruno estava com um livrinho em mãos, ele lia pra ela, que estava deitada no berço com olhos bem concentrados e respiração tranquila. O cheirinho de bebê paira pelo ar, aquele cheirinho do meu bebê. Sorrio, e ele quando percebe minha presença, olha para mim com um sorriso e retorna sua leitura.

Ele é o melhor pai que minha filha poderia ter, e eu me odeio por pensar que ele poderia um dia machucar ela quando estivesse fora de si.

Coloco um sachê de chá preto em uma xícara e esquento a água na chaleira elétrica. Batuco os dedos sobre a bancada de mármore pensando bem longe, pensando no que fazer quando não se sabe nem ao menos as opções para fazer algo.

Eu queria, mas havia desistido, mas eu tenho que pedir conselho, auxílio, ajuda, de alguém. Sozinha é demais para pensar.

Entro no quarto carregando meu chá e o ponho ao lado da cama. Vou até o quarto da minha filha e ela está dormindo tranquilamente. Deposito um beijo em sua bochecha de leve e sussurro um "amo você". Quando retorno ao meu quarto, ouço o barulho da descarga do banheiro e Bruno vindo, com as mãos molhadas, para a cama.

-Viajo na quarta à noite para Nova York. - Ele se senta ao meu lado na cama, tapando suas pernas, assim como eu. - E fico até domingo. Queria que você e minha filha fossem para lá no final de semana.

Dou um gole escaço do meu chá, arrependo-me amargamente de tão quente que ele estava, queimei minha boca. Reclamo baixinho e respondo para o Bruno.


-Vou ver, de acordo com o serviço. Se eu estiver cansada demais, acho que não irei. - Dou de ombros largando o chá na mesinha.

-Só o fato de você pensar já é muito. - Ele toca levemente no meu ombro. Esquivo meu corpo e ele olha-me com aquele famoso ponto de interrogação no olhar.

-Não é porque passei o dia fora que me esqueci de ontem à noite. - Tento parecer tranquila o possível.

-Nick, me perdoa. Eu não sei o que dá em mim, quando saio começo a beber e perco o juízo.

-Perde tudo não é, Bruno? - Reviro os olhos. - Você vem sozinho, bêbado, pra casa. E se sofre um acidente? Como eu fico? Como a Bê fica? - Bufo irritadamente e ele tenta me tocar mais uma vez, mas assim como fiz na outra, eu esquivo.

-Eu tenho sido péssimo, eu sei. A segunda vez que faço isso. Me perdoa. - Seu olhar no meu foi como o de uma criança para a mãe. É quase impossível dizer não para ele, e foi assim que eu cheguei aqui. Bufo e fecho os olhos para me concentrar melhor.

-Eu queria saber o porque? Eu não tenho sido boa pra você? Bruno, não precisa me trair, se quiser ficar com outras mulheres, eu irei entender. - Baixo minha cabeça e ele fica quieto.

-Eu não fico com ninguém além de você.

-E aquela marca de batom perto da sua orelha? Fui eu que fiz? Claro que não fui eu porque você chegou da rua com ela. - Irrito-me aumentando o tom de voz.

-Ah, aquilo foi a Paige...

-Tinha que ser. - Meu peito ferveu, mas não foi só de ciúmes, foi de raiva, de ódio. Queria esganar aquela mulher se fosse possível.

-Ela foi me dar um beijo na bochecha, mas bem na hora eu dei um passo pra frente, aí foi o beijo na orelha... - Não olho pra ele, penso se eu acredito nisso como uma pateta ou se ignoro o que ele falou e vou dormir.

-Bruno, eu realmente estou cansada. - Pego meu chá para dar mais um gole, mas minha blusa do pijama levanta um pouco na parte do antebraço e eu tapo rapidamente.

-O que é isso Nicole? - Pergunta ele.

-Isso o que? - Faço-me de desentendida.

-A marca no seu braço.

-Deixa isso pra lá. - Tomo um gole do chá que já está mais fresco do que antes.

-Como deixar pra lá. Como fez isso? - Pergunta. Eu não quero ter que dizer, eu não sei como dizer. Fico em silêncio, e após mais dois goles do chá, ele retorna a falar. - Posso ver, pelo menos?

Largo a xícara e levo meu braço na sua direção. Ele remanga a manga e fica passando o dedo indicador sobre a marca roxa, uma pequena saliência havia ali por ter sido recente.

-O que houve aqui, amor? - Quando eu ouço aquele "amor", tive a vontade de chorar e me trancar, reclamar sozinha pra Deus a quantidade de coisas que haviam entaladas em mim.

O que há de errado comigo que eu só choro?

-Quer saber mesmo? - Pergunto e ele assente. - Bruno. Promete que não ficará bravo?

-Prometo.

-Ontem quando você chegou daquele jeito, me pegou forte pelo braço  como da outra vez, mas dessa vez chegou a ficar a marca. Não queria ter que falar isso pra você, sei como a sua cabeça anda cheia de coisas, mas...


Ele cala minha boca com um beijo. Não foi um beijo safado, nem um beijo intencional para afins sexuais, foi apenas um beijo que estava dizendo "desculpa, me perdoe". Eu deixei todo aquele amor fluir por ali. Por mais que a gente brigue, por mais que eu o odeie ás vezes, eu o amo acima de tudo, então sempre haverá aquela parte de mim que irá ceder.

-Me perdoa, meu amor. Eu juro que estava fora de mim, nunca iria machucar você desse jeito, e agora, mais do que nunca, eu prometo que isso não acontecerá novamente.

-Bruno, eu te desculpo. Mas, por favor, não faça nenhuma promessa que não irá cumprir. Eu te amo, mas preciso pensar em muitas coisas.

-Como? - Sua face fica perdida, me encarando.

-Eu preciso pensar.

-Sobre nós? - Pergunta sua voz.

-Sobre tudo. - Desabafo e respiro fundo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Vinte e um - Parte 2

Poucos minutos depois eu me recompus do choro. O que mais me motivou foi, quando sentada, vi Bê rindo do desenho. Ela não merece passar por tudo isso por culpa minha e do Bruno, na verdade ela não merecia passar por nada. A sua infância deveria ser só alegrias, como é a de praticamente toda criança. Enxuguei minhas lágrimas na minha blusa e arrumei algo para o meu café, mas resolvi deixar o dele pronto também.

Tomei o meu e peguei ela para ir pro quarto. Já que estou em casa, algo preciso fazer. Liguei seu chuveiro e coloquei água em sua banheira, e ela brincava em seu chiqueirinho, enquanto eu arrumava seu banho.

-Vamos tomar banho? - Digo tirando sua blusinha do pijama.

-Buuu. - Ela faz barulho com os lábios se cuspindo toda, olho pra ela com uma careta e ela ri colocando a mão sobre meu rosto.

-Tá fazendo carinho na mamãe? - Pergunto acariciando seu rosto também.

-Carinho mãe. - Ela repete algumas palavras e eu rio do seu jeitinho carinhoso de ficar.


Durante o banho ela ficou fazendo gracinhas, e quando eu ria, ela ria também. Seus olhos sempre ficavam me encarando, analisando, como se ela soubesse que eu não estava tão feliz quanto sempre estou. Vesti sua roupinha quentinha, junto de um par de botinhas e um lencinho em seu pescoço, com direito a uma faixa no cabelo e tudo.

Ela permaneceu em pé, no carpete, dando alguns passos e caindo, ela ria e voltava a fazer a mesma coisa. Passei a sua colônia e a levei para o quarto junto comigo em seu carrinho, com dois ursos para ela brincar.

Bruno não estava mais atirado na cama como antes, não vi sinal dele e também suas coisas não estavam mais atiradas no chão. Deixei ela no carrinho ao lado da cama e entrei no closet para procurar uma roupa e enfim tomar banho.

Assim que peguei tudo o que precisava, desliguei as luzes do closet, fechei a porta e dei de cara com o Bruno. Sua cara estava horrível, havia passado um caminhão sobre ela, e ele não parecia tão bem assim, mas dessa vez eu não irei cuidar dele, de jeito nenhum.

-Nick. - Ouço ele me chamar assim que passo por ele, olho primeiro para nossa filha que não tira os olhos do seu ursinho, e depois giro os calcanhares para fita-lo.

-Oi? - Perguntei.

-Obrigada pelo café.

-Não tem de quê! - Dou um sorriso fechado e volto a fazer o que iria fazer.

-Vocês vão sair? - Pergunta ele quando estou terminando de ajeitar  minha roupa sobre a cama.

-An, sim, vamos. - Respondo olhando brevemente para ele.

-Quer que eu fique com ela para você tomar banho?

-Eu esperava que fosse ficar sem pedir. - Pensei, mas evitei começar uma discussão na frente dela. Segurei minhas emoções e minhas lágrimas. - Pode ser. - Dou de ombros seguindo para o banheiro.

O mais difícil não é parar de pensar nele, o mais difícil é pensar no que eu vou fazer. Estou perdida, completamente perdida. Lembro que há algum tempo eu falei com a Lisa sobre ir embora de casa, falei com o Thales também que me ofereceu abrigo no seu apartamento. Mas eu não sei se ir embora é realmente a melhor opção, Bê é um neném ainda, ela precisa do seu pai, mas eu preciso de paz para cuidar dela, e não é nessa casa, e não é desse jeito que eu irei conseguir.

Hoje irei falar com a Julia, logo depois irei passar na casa da Jaime e avisar pra ela caso eu tenha decidido algo, ou pedir a sua opinião que é sempre boa. Ela é uma irmã pra mim, ela e as irmãs do Bruno são minhas irmãs, todas me acolheram super bem, todas ligam para saber como estou, como a Bê está, visitam quando podem... Estão sempre ajudando.

Saí com a toalha na cabeça, somente de lingerie. O olhar do Bruno passou por todo meu corpo, senti calafrios, mas tentei controlar meus instintos de pular em seu colo e esquecer de tudo, eu tenho que parar de agir como se nada tivesse acontecido, tenho que começar a encarar meus problemas.

-Vão chegar muito tarde? - Pergunta ele.

-Porque? - Pergunto enquanto coloco minha calça jeans.

-Estava afim de jantar em algum lugar com vocês. - Ele coça sua cabeça. Vou evitar briga!

-Pode jantar fora, convide seus amigos, ou suas irmãs, mas não conte comigo nem com a Bê. Vamos chegar tarde. - Falo assim que levanto da cama para colocar a blusa.

-Vão na Lisa?

-Não. - Respondo diretamente.

-Tudo bem. - Bruno respira fundo. Ele parece sim arrependido, mas eu ainda lembro de todos os fragmentos do Bruno da noite anterior. Porque ele está se estragando dessa forma?

Eu pergunto o porque ele não dá um fora na nossa relação e aproveita tranquilo seus afairs por aí? Agora não sou eu que estou gostando de sofrer, ou procurando chifre em cavalo, e sim ele que está me dando mais do que motivos para pensar tudo isso.

As brigas, a roupa suja de batom, a Paige... Tudo isso me faz repensar em minhas escolhas, como tinha dito anteriormente, mas também me fazem pensar em escolhas novas para isso não tornar-se a repetir.

Bruno senta na cama e puxa o carrinho para perto dele, ficou brincando com a Bê que soltava risos e sorrisos. Acho aquela cena bonita sim, acho que ele é um bom pai, é uma pessoa boa, mas ele não sabe fazer as escolhas dele. E eu não estou sabendo fazer as minhas.

Calcei minhas botas e toquei minha jaqueta sobre meu corpo, a fechei e complementei com um lenço. Passei a escova em meus cabelos e no meu pulso carreguei uma borrachinha para caso eu precise prendê-lo.

-Vamos bebê? - Pergunto esticando os braços para pega-la assim que largo minha bolsa sobre a cama.

-Vou esperar vocês para o jantar. - Ele insiste no assunto. Fecho os olhos e os abro devagar.

-Não precisa, nós duas vamos jantar fora. Amanhã, talvez jantamos juntos.

-Porque talvez? - Ele franze o cenho parando de brincar com nossa filha e olhando para mim.

-Se você não sair para beber, talvez jantamos juntos.

-Nicole... - Ele olha pra mim que impaciente giro os olhos e puxo minha filha pelo carrinho.

-Outro dia conversamos. - Bufo e saio pelo corredor empurrando seu carrinho.

Deixo ela por segundos na sala para voltar ao quarto e pegar o meu celular e pegar sua bolsinha. Bruno não estava onde estava há minutos atrás, não sei onde foi. Pego o que tinha de pegar e volto para a sala.

Dirigi quase perdendo o rumo. Não, não é no volante, pois depois do acidente é o que eu mais presto atenção, ainda mais carregando minha filha junto comigo, mas sim na minha cabeça.

Tudo gira, pensamentos com contraditórias, conversas e promessas, projetos e planos...meu namoro, minha família. Ai, mãe, seria tão mais fácil se você pudesse dar uma de super heroína como sempre fazia e resolvesse esse problema pra mim. Ou meu pai dissesse que iria fazer algo. Isso resolvia, eu sempre me acalmava, ao lado deles eu me sinto melhor, me sinto coberta, protegida. E eu sinto que tenho que fazer o mesmo com a minha filha. Defende-la seja do que for, sua vida antes da minha, e zelar pelo seu aconchego e paz.

-Cadê pai? - Pergunta ela fazendo gesto com a mão como se ele tivesse sumido.

-Papai está em casa. Hoje seremos eu e você, amor. - Digo olhando para ela pelo retrovisor. - Hoje e talvez pra sempre. - Falo baixinho em lamentação.

Aperto no rádio e o que toca é meu CD dos Beatles. Bê gosta, ela fica calma, escutando a música, ás vezes até dança - do seu jeito, corpo pra um lado, depois para o outro.

***

-Como eles crescem rápido. - Digo olhando para Bê que estava em pé ao lado de Taylor, que fazia carinho em sua bochecha e ela ria fechando os olhinhos.


-Muito. - Comento no segundo gole do suco de maracujá que Kam serviu a nós.

-Pra mim, todo o dia é como quando Tay nasceu. - Kam a abraça de lado e o olhar dos dois não escondeu a paixão avassaladora que tinha atrás.

Talvez, ao meio de tantas desavenças, tanto tempo, o que mais permaneceu intacto, foi o relacionamento dos dois. Raro ver alguma discussão, uma reclamação, eles se entendem a base do olhar. E é na base do olhar que vemos, também, o quanto cada um se ama mais do que a si próprio.

Jogávamos a conversa fora e claro, eu tentava esconder meus pensamentos no Bruno, em nós dois, em nossa família, tentava pensar coisas boas.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Vinte - Parte 2

Dois meses depois ~~

(Música)

-Mais uma vez? - Pergunto olhando o estado que Bruno chega em casa, segunda vez em um mês.

-Me deixa. - Ele empurra-me para o lado.

Fico olhando o jeito cambaleante dele de andar pelo corredor até achar a porta do nosso quarto, mas não é em frente do nosso quarto que ele para, e sim no da nossa filha. Bufo de raiva, querendo me trancar no quarto e chorar até não conseguir mais. Empurro ele para o lado, ele cambaleia novamente e caí no chão.

Tenho saudades quando nós caíamos no chão de corrermos atrás do outro pela casa, brincando como duas crianças.

A visão que ele me dá atirado no chão, com seus olhos vermelhos, e  sua aparência horrível, e sua marca de batom perto da orelha, me fazem sentir nojo.

-Você não chegará perto da minha filha hoje. - Puxo a porta para fecha-la e ele levanta o dedo.

-Você não manda em mim, e ela também é minha filha.

-Bruno, você não tem condições de vê-la hoje, vamos para o banho. - Estico a mão para ele, que nega e se apoia na parede para levantar.

Vê-lo assim, vulnerável, bebendo por motivos desconhecidos, e usando cigarros escondidos de mim, me faz repensar em tudo que já aconteceu mais uma vez. Não sei se sinto pena dele atirado no chão tentando levantar de sua fracassa, ou se fico com raiva e empurro-o quando ele conseguir levantar, só para ele ter mais trabalho.

Esse último mês tem sido um inferno. Por algum motivo ainda desconhecido, Bruno não para de beber, e é a segunda vez que chega nesse estado em casa. Bê está irritada nesse mês, ela chora por quase tudo, e já ficou com febre umas três vezes. Bruno anda fumando escondido, eu sei, sinto o cheiro em sua roupa e da outra vez quando ele tentou me levar pra cama desse jeito, quando nos beijamos, senti o gosto da toxina e me repugnei.

Não sei o que está acontecendo. Cheguei a passar dois dias na casa da Jaime para ver se ele melhoraria, mas ele continua a mesma coisa, briga comigo, e chega tarde em casa.

E agora, não é coisa da minha cabeça, eu tenho quase a plena certeza de que ele está sim me traindo, e sim, é com aquela assessora, ou sei lá o que dele, Paige. Ela apareceu aqui em casa em um domingo, para almoçar. Me neguei a fazer qualquer coisa, então peguei minha filha, minhas coisas e fui almoçar na casa da Julia.

Essa semana fecha o mês e Bruno tem uma entrevista em Nova York, é minha saída, meu refúgio, é assim que irei conseguir fazer alguma coisa e pensar em alguma coisa.

Sento na cama e ele para na porta, de maneira bem torta, quase caindo.

-Você está trabalhando demais Nicole, é melhor largar esse serviço. - Giro meus olhos enquanto vejo ele se aproximar com dificuldade. - Ou tem alguém melhor do que eu.

-Não tem ninguém Bruno. - Bufo e ele senta-se ao meu lado.

-Larga essa pessoa e fica comigo. - Ele segura meu braço, apertando.

-Me solta. - Digo estridente.

-Não grita comigo.

Tento manter a calma e levanto.

-Não vai falar nada? - Ele pergunta, pra lá de debochado.

-Não irei perder meu tempo com você desse jeito. - Olho para ele dos pés a cabeça. - Durma sozinho aqui. - Digo.

-Nicole, você vai dormir comigo, é minha mulher e eu estou mandando. - Ele se atrapalha um pouco nas palavras.

-Onde tá escrito que eu sou sua propriedade? - Pergunto rudemente em tom mais baixo para não acordar minha filha.

-Todos sabem disso, você também deveria saber.

-Eu não sou sua, agora vá tomar um banho porque você está fedendo! - Aponto para o banheiro.

-Só se você ir comigo. - Ele levanta vindo em minha direção.

-Não começa. - Impulso-o para longe de mim com minhas duas mãos em seu peito e ele se desequilibra, mas não caí.

-Cadê sua amiga gostosa? - Bruno tem a cara de pau de perguntar isso olhando em meus olhos, mas o que mais dói não é ele perguntar da Lisa, e sim saber que bêbado fala o que sempre pensou. Respiro fundo e começo a chorar.

-Eu vou chamar ela pra você, mas tenho quase certeza que ela não irá querer ter algo com um chato e idiota. - Eu não tenho o que falar, perdi todas as minhas armas há muito tempo, e por mais que eu fale um sermão inteiro, nenhuma palavra o atinge.

-A noite quando nós transamos e você sussurra meu nome dizendo que me ama, eu não sou nada disso! - Exclama ele como se isso fosse um troféu.


Ele segura fortemente no meu braço, e eu boba, deixo. Olho para o seu rosto, ele parece uma pessoa completamente diferente, ele não é o mesmo Bruno que eu conhecia antes. Respiro fundo com lágrimas nos olhos, e sua boca encosta em meu pescoço. Pego seu cabelo firmemente, eu preciso fazer alguma coisa.

-Vá deitar. - Empurro ele mais uma vez pra trás, e agora ele caí como caiu no corredor. Pego a chave do lado de dentro do quarto e saio com meu celular em mãos, e por mais que doa, eu fecho a porta e passo a chave no trinque.

Entro no quarto de hospedes e coloco meu rosto no travesseiro. Eu poderia ligar para alguma pessoa, falar o que está acontecendo, mas eu e ele temos que resolver nossas coisas sozinhos, e não com o auxílio sempre de alguém à mais na história.


Dói mais do que qualquer coisa, e o que dói mais é não saber o porque ele está fazendo isso. O que eu preciso mais é um refúgio, é um colo de mãe. Bruno me machuca dessa forma, não só fisicamente por causa de suas pegadas em meus braços que deixam leves marcas roxas, ou seus beijos forçados que deixam algumas marcas que eu cubro com o pó e a base, mas sim me machuca por dentro, meu coração dá pra sentir quebrado, despedaçado. E esse é o momento que eu me arrependo da maioria das escolhas que eu fiz. Me arrependo de ter beijado-o a primeira vez naquele estúdio, me arrependo de ter ido com ele para Nova York, de aceitar o seu pedido, me arrependo de ter passado pela humilhação que ele fez eu passar quando éramos novos, me arrependo das escolhas que eu fiz. Só não me arrependo de um dia tê-lo amado, mas arrependo-me de ter amado-o mais do que eu amo a mim. Não me arrependo de ter tido essa garota maravilhosa, essa menina extraordinária que eu posso chamar de minha filha, mas arrependo-me de ter dado à ela uma infância conturbada com essas brigas. Não arrependo-me de vir morar com ele, mas arrependo-me de quando disse que isso seria a melhor coisa a se fazer.

Amar é a escolha mais difícil, essa sim é a pior escolha. Porque é difícil, é muito difícil amar. E dói. Eu pensei que quando encontrasse o amor da minha vida, os dias se transformariam em delícias sem fim. Bom, no inicio era assim, mas agora dói. Dói. O amor de verdade dói.

If heartache was a physical pain
(Se a mágoa fosse uma dor física)
I could face it I could face it
(Eu poderia enfrentá-la, eu poderia enfrentá-la)
But you're hurting me
(Mas você está me machucando)
From inside of my head
(Dentro da minha cabeça)
I can't take it I can't take it
(Eu não aguento, eu não aguento)

***

Não sei em que exato momento da noite, ao meio das minhas lágrimas, eu dormi. Só sei que acordei tarde demais para trabalhar, e que agora precisarei dar a desculpa certa para Pree.

Enquanto falo com Pree pelo telefone, vou andando até o quarto da Bê para ver como ela está. Acordada, e com um sorriso estampado, brincando com seu leãozinho que ela tanto ama.


-Bom dia minha princesa. - Beijo sua bochecha quando a pego no colo.

-Dia. - Diz ela animada.

-Ta com fome? - Pergunto.

-Sim. - Responde minha princesa.

Ando com ela até o corredor e lembro do que fiz com o Bruno, tenho que abrir a porta pra ele. Respiro fundo e vou para cozinha, estalo minha filha na sua cadeirinha da cozinha, e ligo a televisão dali para ela se animar com o desenho que estava passando, enquanto sua mamadeira esquentava.

Entreguei a mamadeira pra ela e pus o babador em seu peitinho. Fui a minha luta até o quarto em que dormi, peguei a chave que estava sobre a cama e abri lentamente a porta. É lastimável o que eu vi. Bruno estava deitado na cama, apenas de cueca, suas roupas espalhadas por tudo e o chuveiro parecia estar pingando, as luzes acessas, e seu celular apitando com uma chamada perdida. Me aproximo para ver de quem era, e vejo que Phil tentou lhe ligar, agora com mais calma, olho o roxo que está em meu braço. Não é nada forte, nem muito perceptível, apenas a marca de dois dedos seus.

Encosto no Bruno que ronca um pouco mais alto, e por baixo dele, pude ver a ponta de alguma coisa. Pego o que estava embaixo dele, e vejo o porta retrato onde tem uma foto do momento do nascimento da nossa filha. Eu, ela e ele.

Meus olhos voltam a lacrimejar. Deixo tudo como está e corro para a cozinha com os pensamentos em burburinho.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dezenove - Parte 2

Assim que concluí a música, vi seus olhinhos se pesarem mais ainda. Ela então, caiu nos braços de Morfeu, e eu passei minha pálida mão a sua cabecinha, sua pele tão macia. Sorria, maravilhada, com esse maravilhoso presente que Deus me concedeu.


Levantei para coloca-la no berço e a tapo direitinho. Desligo o ar condicionado, verifico a baba eletrônica, e desligo a luz.

-Você cantando pra ela foi de longe uma das cenas mais lindas que eu poderia ver em toda minha vida. - Ouço Bruno dizer assim que fecho a porta. Levei um susto com isso.

-Estava ouvindo? - Pergunto.

-Não, estava olhando daqui. - Ele aponta pra porta.

-A bom. - Digo sem animação e indo para o quarto com ele caminhando ao meu lado. - O que o médico disse?

-Você não ficará viúva. - Ele ri da sua piada.

-Até porque eu não tenho marido. - Respondo, talvez tenha soado um pouco ríspido demais. Se corpo deu um tranco, parando no meio do caminho. Eu continuei com meus passos até o quarto, sentia seu olhar me observar, eu não quero olhar para ele, eu só quero trocar minha roupa e deitar, mas eu preciso saber o que o médico falou para ele.

-Quando nós brigamos? - Pergunta sua voz se aproximando de mim quando eu abro a porta do nosso quarto.

-Nós brigamos? - Pergunta semicerrando os olhos para ele.

-Odeio quando você se faz de desentendida. - Ele bufa girando seus olhos. - Quero dizer, porque está tão fria comigo? Nós estávamos bem...

-Você sabe meus motivos. - Sinto meus olhos se umedecerem levemente e sigo meu caminho de volta para o quarto.

Ele não falou mais nada, não sei se está pensando em alguma coisa para falar, se está ingerindo o que eu falei, se está bravo e não irá falar mais nada... Não sei.

Jantei juntamente dele, quer dizer, eu na cozinha e ele na sala de jantar. Não demos uma única palavra. Fui para o quarto e ele foi na mesma hora que eu.

Abro o closet, procuro minha roupa para dormir e vou para o banho.

Eu posso depositar tranquilamente qualquer lágrima embaixo do chuveiro, mas eu não consegui chorar. Meus olhos ficaram somente marejados, mas as lágrimas não caiam.

Vesti minha roupa e Bruno já encontrava-se na cama, deitado e tapado até o pescoço.

-Não tenha medo de me perder... isso não vai acontecer. Nós não casamos, nem somos noivos, mas se depender de mim vai ser até que a morte nos separe. Eu amo você, amo nossa filha, e amo a família que construímos juntos...

-Então pare de me provocar com essa mulher em minha vida. - Retruco. - Bruno, você tem noção o que é olhar pra ela e ver exatamente o tipo de mulher que você gosta, ali disposta pra você, basta um toque e ela corre... - Balanço a cabeça e pego meu celular na mesa da cabeceira. Deito ao seu lado, mas sem muita proximidade, e ouço ele retrucar algo que não entendo.

-Já disse que eu não trocaria você por nenhuma mulher do mundo, Nicole. - Ele mexe-se na cama, e enquanto encaro o teto, sinto o seu olhar em mim. - O que eu faço pra acreditar em mim?

-Bruno... você lembra como você era antes de nós namorarmos?

-Lembro, e você lembra o quanto eu mudei?

-Nós nunca mudamos o que realmente somos. - Implico e ele suspira fundo.

-Acha então que eu ainda sou aquele moleque que tirava sarro de você no colegial? Que transava com qualquer uma?

Fiquei em silêncio e ele vira-se bruscamente agora olhando para o teto também. Ele sabia o motivo do meu silêncio, e eu precisava ser sincera.

-Estou com princípio de pneumonia.

-Como? - Pergunto e olho para o seu rosto, parecia mais pálido.

-Você ouviu. - Sua vez de ser ríspido comigo.

-Vamos comprar seus remédios amanhã, eu pego na farmácia quando estiver voltando do serviço, e peço para vir mais cedo.

-Repouso absoluto por três dias, se precisar, mais. - Ele parecia não estar ouvindo o que eu estava falando, ou me ignorava.

-Onde está as receitas? - Pergunto e ele somente respira fundo.

-Pode suspender a babá amanhã, e nós próximos dias, eu fico com a nossa filha.

-Bruno, dá para me responder? - Pergunto. - Está agindo como uma criança.

-Criança aqui está sendo você, que prefere acreditar no que não existe só para se machucar mais. Você é masoquista, Nicole. Olhe pra você, não tem motivos para estar assim, sabe que eu sou seu, sabe que nós temos uma família, mas ainda sim prefere acreditar no inexistente.

Suas palavras foram facas em meu peito que parecia de aço, mas era papel. Senti-me rasgando por dentro, numa fervura alta, uma raiva de mim mesmo, e aquele sentimento de ouvir a verdade e não poder nem questionar. Ele está certo, eu insisto enxergar coisas onde não tem.

-A dor de somente pensar em perder você, Bruno, dói mais do que qualquer ato físico impulsional. - Faço o mesmo que ele, agora volto a encarar o teto.

-Eu tenho que estampar em minha testa que eu amo você. É você Nick, não é mais ninguém, somente você. - Ele diz numa súplica que me fez ter o impulso de ir para o lado e beijar a sua bochecha, e quando ele me olha, confuso, beijar levemente seus lábios.


***

Mesmo enquanto trabalhava, eu não conseguia me concentrar em nada. Bruno ocupava a minha mente de preocupações. Tenho medo de que ele não se cuide direitinho enquanto eu esteja trabalhando e acabe acontecendo algo para ele. Foi um sacrifício ele entender que ele não poderia ir para o estúdio hoje, mas consegui convence-lo. Eu sei que Bruno está se sentindo desolado depois que sua turnê acabou, e que ele não vê a hora do tempo no estúdio acabar para que ele possa fazer uma outra, ele ama as fãs dele, e o pior é que eu acho que nem sempre ele expressa isso.

Bê está passando o dia com a Lisa, achei melhor não chamar a babá, e o Bruno não tem condições de cuida-lá sozinha, então Lisa se voluntariou.

Pego meu celular para verificar se há alguma chamada, mas não tem nada. Respiro fundo e volto a agarrar a caneta para anotar algumas  outras coisas.

-Com licença. - Ouço após duas batidas. - Oi, meu nome é Lucy, sou nova aqui e fiquei sem tinta na impressora. Disseram que eu poderia falar com você para me fazer esse favor. - Disseram, eu sei quem disse, Thales.

Sorri abertamente. - Olá Lucy, meu nome é Nicole, seja bem vinda, e fique a vontade. Tem aquele computador ali. - Apontei para o computador que Thales ficava quando era estagiário.

Meu tempo de estagiária aqui era um saco. Não tinha ninguém para me auxiliar como hoje eu auxilio alguns, era apenas eu, as máquinas, meus estudos e comprometimento. Como a empresa cresceu de uns tempos pra cá. Batuco a caneta enquanto tento me concentrar  novamente no que estava escrevendo, mas o barulho baixinho da impressora parecia mais interessante. Hoje, qualquer coisa está mais interessante do que trabalhar.

Quando saí daquele escritório encontrei Thales na frente do elevador, como a gente sempre faz, mas hoje ele estava menos "feliz" do que sempre está.

-Conta, qual é o problema? - Pergunto.

-Nada. - Ele se escora na parede do elevador. Thales sabe que eu não engoli esse "nada" como resposta, então dá um sorriso fraco e amarelado, e indaga. - Estou exausto.

-O que foi?

-Ah, o de sempre. Meus pais brigaram no final de semana, justo nesse que eu fui pra lá. Aí cheguei em casa, e lembrei que tinha que trabalhar, resumindo, dormi umas duas vezes debruçado na mesa.

-Nossa. - Eu dei uma pequena risada pelo fato dele dormir, mas lamentei seus pais brigarem.

-Meu irmão separou-se da mulher, e agora vai morar com meus pais novamente, acredita? Absurdo!

-O que tem de tão mal nisso? - Pergunto enquanto caminhamos pelo estacionamento.

-Tudo! Porque quando eu estudava e trabalhava em Los Angeles, mas morava com eles ali, eles praticamente me expulsaram dizendo que eu tinha como me sustentar aqui, e agora com meu irmão eles abrigam normalmente, sendo que ele é cinco anos mais velho que eu.

-Família é família. - Dei de ombros.

-Você não tem irmãos, dê graças à Deus, porque é um saco.

Thales e seu muro de lamentações, vulgo, eu. Escutei boa parte das coisas que ele me falou e foi bom até, pude me descontrair com os problemas dele, enquanto o meu estava de repouso sobre a cama. Depois que peguei meu carro, no trânsito de Los Angeles, escorei minha cabeça para trás e fiquei martelando o que Bruno me falou ontem à noite. Ele tem razão, eu gosto de ficar sofrendo sempre, isso é terrível, mas eu sempre vejo coisas onde não tem. Não sei se é pela horrível experiência que tive, ou se é porque estou sabendo que antes Bruno era mulherengo e do tipo "estou nem aí".