Uma certa vez, em algum livro, eu li que quem traía, sempre irá trair, pode ser raro quando se encontra alguém que realmente gosta, mas ele irá trair novamente. Tinha também um dizer, eu não sei ele exatamente, mas constava que: trair não é só beijar e ir além com outra pessoa, trair é estar com a atual relação pensando em outra pessoa, desejando estar com outra pessoa e materializando outra pessoa no lugar daquela. Eu não sei ao certo, não sei se ele realmente me traiu, ele pode estar falando a verdade quando disse que virou o rosto, mas... como não acreditar? Bruno era da vida, e quando eu digo da vida quero dizer que quanto mais mulheres na sua cama por semana estava melhor. Ele provou que tinha mudado por mim, e quando descobri aquele passado que me atormentava, nós demos um tempo e ele aproveitou com outras garotas. Fica difícil acreditar em alguém assim... Fica quase impossível achar que ele não está me traindo.
A questão é: como não pensar nisso o tempo todo?
A outra questão é: o que fazer quando a gente fica dividido? O coração é fraco. O cérebro engana. Eu fico e pago pra ver, talvez arriscando até ficar mal com isso, e acabar me machucando mais. Ou eu vou, e espero um tempo para pensar sozinha sobre tudo isso.
Não é uma tarefa fácil, eu tenho que pensar em mim, no nosso relacionamento e na nossa filha. Eu estou mais dividida por ela.
Tomei meu café e Bruno continuava na cama. Arrumei-me e esperei a babá chegar. Falei pra ela que chegaria uma hora mais tarde hoje e que não era para ela se preocupar e qualquer coisa era para me ligar. Eu sabia mais ou menos o que fazer. Amanhã já é quarta, o Bruno viaja...
***
Thales ficou eufórico por eu comentar sobre o assunto com ele, mas avisei o quanto antes que isso ainda não era concreto. Comi uma maçã antes de dirigir até a casa de Jaime, e claro, mandei uma mensagem pra ela avisando que iria lá rapidinho.
Toquei uma vez a campainha e ouvi uma corridinha que parou na porta.
-Mãe, a tia Nick está aqui! - Grita Jaimo e logo abre a porta me recebendo com um sorriso.
-Oi, meninão. - Dou um abraço nele e observo Jaime sorrir para mim.
-Entre Nick. - Ela diz e Jaimo vai correndo para algum lugar da casa. Dei um beijo em sua bochecha e seguimos até a sala. - Tudo bem? - Pergunta ela assim que senta no sofá ao meu lado.
-Não sei...- Olho para bem distante e tento concentrar no que dizer. - Jaime, desculpa estar alugando você sempre que tenho algo, mas você, mais que ninguém, sabe o que está passando ... Minhas amigas sabem, mas elas não tem experiência quanto você. - Digo a confundindo mais ainda. - Eu não sei mais o que fazer com o seu irmão.
-O que ele fez dessa vez? - Pensei primeiramente na marca roxa em meu braço, mas ela estava tapada pelas mangas, então não teria risco dela ver.
-Bêbado. A segunda vez...ele tentou me agarrar, mas estava com marca de batom na orelha esquerda, depois ele tentou entrar naquele estado no quarto da minha filha, eu não permiti. Ele caiu no chão. - Sinto as lágrimas acumularem em meus olhos. - Quer dizer, eu não sei se eu o empurrei com força, ou se ele estava fraco demais para parar em pé sozinho. Mas ele veio naquele estado dirigindo pra casa. E se acontecesse algo?
-Não chora, primeiramente. - Ela me puxa para um abraço, e eu choro em seu ombro pedindo desculpas. Assim que o choro cessa, ela segura meu rosto, e prossegue. - Quer me falar mais coisas?
-Eu não passei o dia em casa ontem, não fui trabalhar! Iria vir aqui, mas quando me dei de conta já era tarde demais. Ele vai para Nova York amanhã, e ficará até o final de semana. E ontem à noite, ele foi querido comigo como se nada tivesse acontecido.
-Bruno sofre de bipolaridade...
-Ou de sem-vergonhismo.
-Também. - Ela ri. - Vamos ir por partes... Você o ama?
-Mais do que a mim mesma.
-Você está pensando na filha que vocês tem juntos? - Pergunta ela, agora pegando minhas mãos carinhosamente.
-Penso nela, acho que só não saí de casa por causa dela.
-Então está pensando em sair de casa? - Pergunta ela. Não tinha respostas, meu olhar dizia tudo, eu não poderia aguentar tudo isso por mais tempo, ou iria explodir. - Entendi...
-É mais complicado que pensava? - Pergunto a ela.
-Eu não sou conselheira amorosa, só conheço o meu irmão e conheço você. Apesar dele estar sendo um babaca, ele ama você e a sua filha como nunca amou ninguém...
-Então porque ele me traiu? - Meus olhos, novamente, inundam.
-Eu não sei, Nick. - Ela baixa a cabeça, pensativa.
-Jaime, você já fez muito por mim, por minha filha, pelo nosso relacionamento, mas acho que agora está impossível. Eu sinto que se tiver mais um mês naquela casa eu posso ir a loucura, eu posso ter um surto psicótico e entrar em depressão. Não aguento mais chorar pensando nesse "e se...". - respirei fundo. - Lisa disse que irá me abrigar na sua casa, até eu pensar realmente no que fazer, Thales irá pra lá também para não ter que pagar aluguel. Não estou dando um fora definitivamente no seu irmão, apenas tirando um tempo para pensar.
-Isso tudo vai fazer você feliz? Ou pelo menos vai fazer você melhorar? - Assenti positivamente a sua pergunta e ela sorri, um sorriso tão "mãe". - Então faça. E sabe, qualquer coisa, qualquer mínima coisa que precisar, me chame. Passe um tempo aqui, ou se quiser ir passar com as meninas na casa delas que é maior. Todas nós gostamos muito de você, e queremos o bem seu e da nossa sobrinha, e se pra isso é preciso afastar do Bruno um pouco, faça.
-Eu tenho medo que ele não entenda.
-Bruno é explosivo, mas eu sei que ele não vai ficar muito bravo com isso. Talvez ele fique muito magoado.
Bateu o pensamento repentino quando ela disse "magoado". Bruno sempre me pareceu ter uma alta tendência a ser um depressivo, e se caso ele fume e beba mais frequentemente caso eu faça isso? Tive um cargo de peso despejado em minha cabeça, eu não me perdoaria se ele se estragasse por nós duas.
-Amor. - O marido de Jaime chega na sala e assim que me vê, sorri. - Oi Nicole. - Eu dou um breve oi e ele continua. - Serei breve. Não faça janta, eu encomendei comida japonesa para nós. Vamos comer peixe cru, gracias. - Ele levanta as mãos.
A fala de peixe cru me remeteu ao cheiro do peixe, as escamas fedidas e sua textura. Fiz cara de nojo e perguntei para Jaime onde era mesmo o banheiro. Assim que ela apontou, andei rapidamente até ele e fechei a porta me escorando nela. Tentei engolir minha saliva, mas ela voltou rapidamente em forma de vômito.
-Droga. - Digo entre o intervalo do vômito.
Parecia que eu estava vomitando peixe cru, como se eu estivesse comido ele agora a pouco. Puxei a descarga e enxaguei minha boca com água e enxaguante bucal mentolado. Ouço duas batidas seguidas na porta e em seguida Jaime fala.
-Você está bem, Nick? - Pergunta ela, carinhosamente.
-Estou sim, Jaime. Apenas estava com a bexiga apertada. - Dei uma risada, e eu acho que foi convincente.
A minha conversa com a Jaime foi bem esclarecedora, ela falou-me várias coisas, falou até sobre o jeito do Bruno de ser, aquele que é romântico e ás vezes explosivo. Mas ela sempre, sempre, forçou a ideia de quê ele realmente me ama e ama a nossa filha.







.gif)



