Nós duas, eu e Ju, fizemos a janta. Conversamos e rimos tanto que eu esqueci de quase tudo que ocorria e me deixava desligada. Nossos bebês não aguentaram por muito tempo, e quando arrumamos tudo, peguei Bê no colo e ela resmungou alto.
-Vê se pode, nem ir embora ela quer. - Balanço ela levemente para que ela não acorde.
-Podem ficar aqui se quiserem. - Ela sorri abertamente. Julia sabe um pouco do que está rolando, não falei com ela sobre esse assunto, afinal estávamos com o Kam e não quero comentar sobre seu amigo assim. Ela é esperta, sacou que minha calada e minhas poucas palavras de inicio tinham um motivo: Bruno.
-Obrigada, mas acho melhor nós duas irmos. - Apontei com os olhos para Bê que dormia em meu ombro.
-Vocês que sabem, mas qualquer coisa me avise ou venha pra cá direto.
-Tudo bem. - Sorrio grata.
Ela acompanhou-me até a saída, abrindo a porta para que eu fosse em direção do elevador. Pensei, por leves dez segundos, que talvez seria melhor não dormir em casa essa noite. Mas eu não trouxe roupa, amanhã teria que trabalhar, Bernadette também não tem todas as coisinhas que ela necessita aqui comigo.
Não, péssima ideia. Melhor deixar para outra hora, quem sabe eu fale com a Anne e pouse lá com a minha pequena no decorrer da semana.
Minha filha se mexe no meu colo por alguns segundos, abre seus olhinhos e me olha perdida, mas logo dá duas piscadas a fundo e adormece novamente. No estacionamento, caço meu carro e instalo ela no banquinho de trás para que durma em paz enquanto dirijo.
Quando chegar em casa Bruno pode estar acordado, ou pode não estar. Nós podemos discutir feio por eu não ter dito onde fui, ou ele pode nem estar em casa. Brilhei minha mente pensando que talvez seja melhor eu não dormir no mesmo quarto que ele, assim como na noite anterior. Sinto meu estômago roncar, e levo minha mão na barriga. Bê dá um gritinho e vira a cabeça para o lado, ela está sonhando com algo.
Esbravejo algumas palavras quando lembro-me que iria passar na casa de Jaime. Olhei para o relógio do rádio e era tarde demais para estar batendo na casa dela pedindo por conselhos e etc. Eu tenho que aprender a me virar sozinha, mas é difícil pensar nisso sem ver a opinião das pessoas que sempre me ajudam. Pessoas que tem a cabeça no lugar.
Amanhã à tarde não poderei faltar o serviço, já faltei hoje e posso ser descontada. Agora, me odeio por ter jogado tanta conversa fora sendo que poderia ter aproveitado.
-Mãe. - Minha filha chama-me, olho para ela através do espelho e ela está com carinha de sono ainda. Deve ter acordado quando fiz a curva.
-Mamãe está aqui, amor. - Atirei um beijo pra ela e fiz o retorno na última rua antes de chegar em casa.
Aciono o alarme do carro assim que saio dele. Bê está entorpecida no meu colo, está com sono, mas parece não querer se entregar. Pego sua mochilinha e minha bolsa, e sigo para dentro da casa. Antes de passar a chave, ouço uma música baixinha, vinda do piano. Suspiro fundo.
Já falei o quanto amo quando ele toca aquele piano? É algo tão mágico.
Balanço minha cabeça e minha filha pega meu lenço para brincar com suas mãozinhas.
Passo pelo hall de entrada e atravesso a sala lentamente quando ele para de tocar. Não quis olhar muito aquela cena, porque basta um olhar arrependido dele, que meu coração já diz que nada do que eu pensei anteriormente é a coisa certa à se fazer.
Mas eu sei que é. Eu sinto que é.
-Minhas princesas. - Como pode ignorar completamente aquele ser que ele era ontem à noite? Parei e dei um sorriso meia boca, mas minha filha estica seus bracinhos para ele com uma euforia sem tamanho.
-Cuidado. - Digo para ela e sinto ele pega-la de mim.
-Como passaram o dia? - Pergunta. - Saudades do papai, amor? - Ele pergunta agora diretamente para ela, que balança a cabeça confirmando.
-Fomos na casa da Julia, estava com saudades dela.
-Ela não está mais trabalhando? - Pergunta Bruno, agora caminhando ao meu lado até o quarto da nossa filha.
-Não mais, sabia que não iria ficar muito tempo em varejo. - Respirei fundo.
-Ia perguntar se estão com fome, mas vocês jantaram lá, não é?
-Só vou tomar um chá assim que dar um banho nela e tomar um banho também. - Fecho os olhos e estalo meu pescoço.
Bruno fica me encarando e larga Bê dentro do seu chiqueirinho, enquanto ele guarda a sua bolsa com as coisinhas em seus devidos lugares, eu me locomovo até a porta.
-Eu dou o banho nela e coloco para dormir, toma o seu. - Ele sorri. Como ele não parece hoje o homem que era ontem à noite? Incrível habilidade, Bruno é como um camaleão.
Quando os camaleões se sentem ameaçados, ou quando precisam chegar a sua presa, sem que sejam notados, sua pele automaticamente muda de acordo com o lugar onde está. Na verdade, a pele não muda, ela apenas caí dando lugar para outra. Bruno é basicamente ele. Quando se sentiu ameaçado, viu hoje pela manhã que eu não estava de brincadeira, mudou da água para o vinho. Mas o que aconteceu, aconteceu. Nada vai apagar a minha memória, muito menos a marca roxa dele me segurar com força que ficou no meu braço.
Tiro minha roupa no meio do banheiro e abro o chuveiro bem no quente. Se eu pudesse não ir amanhã para o serviço, eu não iria, mas eu preciso. Já faltei hoje e não posso ficar com esses pensamentos. A água que caí sobre o meu corpo parece levar um pouco do cansaço que está nas minhas costas. Passo o sabonete por ele e quando passo sobre meus peitos, eles doem. Ainda produzo um pouco de leite, é muito pouco, mas ainda vem. Aperto eles levemente para ver se sai alguma coisa, mas apenas duas ou três gotinhas de cada um.
Enquanto seco meus cabelos, enrolada com meu hobby, vejo a movimentação do Bruno entrando rapidamente no quarto e voltando apressado para o quarto da minha pequena. Apresso os afazeres com meu cabelo e ando até o quarto dela.
Bruno estava com um livrinho em mãos, ele lia pra ela, que estava deitada no berço com olhos bem concentrados e respiração tranquila. O cheirinho de bebê paira pelo ar, aquele cheirinho do meu bebê. Sorrio, e ele quando percebe minha presença, olha para mim com um sorriso e retorna sua leitura.
Ele é o melhor pai que minha filha poderia ter, e eu me odeio por pensar que ele poderia um dia machucar ela quando estivesse fora de si.
Coloco um sachê de chá preto em uma xícara e esquento a água na chaleira elétrica. Batuco os dedos sobre a bancada de mármore pensando bem longe, pensando no que fazer quando não se sabe nem ao menos as opções para fazer algo.
Eu queria, mas havia desistido, mas eu tenho que pedir conselho, auxílio, ajuda, de alguém. Sozinha é demais para pensar.
Entro no quarto carregando meu chá e o ponho ao lado da cama. Vou até o quarto da minha filha e ela está dormindo tranquilamente. Deposito um beijo em sua bochecha de leve e sussurro um "amo você". Quando retorno ao meu quarto, ouço o barulho da descarga do banheiro e Bruno vindo, com as mãos molhadas, para a cama.
-Viajo na quarta à noite para Nova York. - Ele se senta ao meu lado na cama, tapando suas pernas, assim como eu. - E fico até domingo. Queria que você e minha filha fossem para lá no final de semana.
Dou um gole escaço do meu chá, arrependo-me amargamente de tão quente que ele estava, queimei minha boca. Reclamo baixinho e respondo para o Bruno.
-Vou ver, de acordo com o serviço. Se eu estiver cansada demais, acho que não irei. - Dou de ombros largando o chá na mesinha.
-Só o fato de você pensar já é muito. - Ele toca levemente no meu ombro. Esquivo meu corpo e ele olha-me com aquele famoso ponto de interrogação no olhar.
-Não é porque passei o dia fora que me esqueci de ontem à noite. - Tento parecer tranquila o possível.
-Nick, me perdoa. Eu não sei o que dá em mim, quando saio começo a beber e perco o juízo.
-Perde tudo não é, Bruno? - Reviro os olhos. - Você vem sozinho, bêbado, pra casa. E se sofre um acidente? Como eu fico? Como a Bê fica? - Bufo irritadamente e ele tenta me tocar mais uma vez, mas assim como fiz na outra, eu esquivo.
-Eu tenho sido péssimo, eu sei. A segunda vez que faço isso. Me perdoa. - Seu olhar no meu foi como o de uma criança para a mãe. É quase impossível dizer não para ele, e foi assim que eu cheguei aqui. Bufo e fecho os olhos para me concentrar melhor.
-Eu queria saber o porque? Eu não tenho sido boa pra você? Bruno, não precisa me trair, se quiser ficar com outras mulheres, eu irei entender. - Baixo minha cabeça e ele fica quieto.
-Eu não fico com ninguém além de você.
-E aquela marca de batom perto da sua orelha? Fui eu que fiz? Claro que não fui eu porque você chegou da rua com ela. - Irrito-me aumentando o tom de voz.
-Ah, aquilo foi a Paige...
-Tinha que ser. - Meu peito ferveu, mas não foi só de ciúmes, foi de raiva, de ódio. Queria esganar aquela mulher se fosse possível.
-Ela foi me dar um beijo na bochecha, mas bem na hora eu dei um passo pra frente, aí foi o beijo na orelha... - Não olho pra ele, penso se eu acredito nisso como uma pateta ou se ignoro o que ele falou e vou dormir.
-Bruno, eu realmente estou cansada. - Pego meu chá para dar mais um gole, mas minha blusa do pijama levanta um pouco na parte do antebraço e eu tapo rapidamente.
-O que é isso Nicole? - Pergunta ele.
-Isso o que? - Faço-me de desentendida.
-A marca no seu braço.
-Deixa isso pra lá. - Tomo um gole do chá que já está mais fresco do que antes.
-Como deixar pra lá. Como fez isso? - Pergunta. Eu não quero ter que dizer, eu não sei como dizer. Fico em silêncio, e após mais dois goles do chá, ele retorna a falar. - Posso ver, pelo menos?
Largo a xícara e levo meu braço na sua direção. Ele remanga a manga e fica passando o dedo indicador sobre a marca roxa, uma pequena saliência havia ali por ter sido recente.
-O que houve aqui, amor? - Quando eu ouço aquele "amor", tive a vontade de chorar e me trancar, reclamar sozinha pra Deus a quantidade de coisas que haviam entaladas em mim.
O que há de errado comigo que eu só choro?
-Quer saber mesmo? - Pergunto e ele assente. - Bruno. Promete que não ficará bravo?
-Prometo.
-Ontem quando você chegou daquele jeito, me pegou forte pelo braço como da outra vez, mas dessa vez chegou a ficar a marca. Não queria ter que falar isso pra você, sei como a sua cabeça anda cheia de coisas, mas...
Ele cala minha boca com um beijo. Não foi um beijo safado, nem um beijo intencional para afins sexuais, foi apenas um beijo que estava dizendo "desculpa, me perdoe". Eu deixei todo aquele amor fluir por ali. Por mais que a gente brigue, por mais que eu o odeie ás vezes, eu o amo acima de tudo, então sempre haverá aquela parte de mim que irá ceder.
-Me perdoa, meu amor. Eu juro que estava fora de mim, nunca iria machucar você desse jeito, e agora, mais do que nunca, eu prometo que isso não acontecerá novamente.
-Bruno, eu te desculpo. Mas, por favor, não faça nenhuma promessa que não irá cumprir. Eu te amo, mas preciso pensar em muitas coisas.
-Como? - Sua face fica perdida, me encarando.
-Eu preciso pensar.
-Sobre nós? - Pergunta sua voz.
-Sobre tudo. - Desabafo e respiro fundo.



:'( Juro que chorei .. Espero que eles se resolvam logo <3
ResponderExcluirEles são tão perfeitinhos, Quero HOOOOOOOOOT RAPAZ, KXJDJDMISDJDJDDF
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