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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dezoito - Parte 2

Demorei para conseguir completar a ligação, pois só dava desligado. Tentei várias vezes até que consegui. Falei com ele enquanto tamborilava o dedo na parede, com raiva, com ódio, com ciúmes e com medo do que isso possa ser. Reviro os olhos enquanto ele falava, eu me toquei que não estava prestando atenção no que ele estava falando pois estava pensando no Bruno e na tal de Paige trancado no estúdio.

-Desculpa, doutor Dan, eu preciso que o senhor chegue o mais rápido possível,- não sei se fui grossa cortando o que ele estava falando, mas não foi o que eu queria soar ser, então remendei antes que ele falasse algo - eu estou com medo do que possa ser.

-Se tranquilize, Nicole. Estarei aí em torno de alguns minutos, enquanto isso, não deixe ele fazer nenhum esforço.

-Okay.

Terminei de ouvir a breve instrução dele e desliguei o telefone, seguindo para o quarto. Antes de chegar na porta, ouvi o barulho dele falando com a Bê. Ela respondia feliz da vida, enquanto ele fazia uma voz tão estupidamente infantil, mas tão linda. Balancei a cabeça. Eu estou com raiva dele, ele não me falou sobre essa mulher estar 24 horas no estúdio junto com eles.

O ciúmes tomava conta da minha cabeça, enquanto um breve flashback apareceu na minha cabeça. E se, aquela noite que eu voltei do Havaí e fui procura-lo, se depois daquilo eu não o tivesse perdoado? Como seria minha vida agora? Digo, obviamente eu não teria minha filha, eu não teria afastado-me do serviço, estaria morando com a Lisa no apartamento...

-O destino. - Encosto a cabeça na parede e encaro o fato de ter que entrar no quarto e aguentar tudo isso, afinal, eu escolhi ser namorada dele, eu escolhi seguir em frente tendo uma filha dele, então eu tenho que ter os pés no chão.

Ajeito o tapete da entrada do quarto, e quando retorno meu olhar para o quarto, ele está ajoelhado e ela sentada na poltrona. Os dois riem, ela é tão parecida com ele, em tudo. Bufo de maneira que ele não me escute e chego próximo aos dois.

-Falou com o médico? - Pergunta.

-Falei, daqui a pouco ele estará aqui. Não é para fazer força enquanto ele não chegar e te diagnosticar.

-Okay, não farei. - Ele ergue-se em pé novamente, e nossa filha da um gritinho para chamar atenção.

-A mãe já pega você, meu amor. - Olho para ela, que faz um barulho com a boca e começa a rir sozinha.

Eu não queria ter que começar uma conversa, não agora. Mulher de TPM é uma droga. Estou morrendo de vontades que não posso expressar. A primeira é soca-lo com força, por conta do ciúmes, a segunda é beija-lo, a terceira é discutir, e a quarta é desejar chorar muito.

Ele, então, olha-me com um olhar tão puro, tão lindo. Por segundos eu quis acreditar que ele estava sendo sincero com tudo isso, mas aí minha mente traiçoeira lembra-me de quando eu o conheci, ele era um tremendo cachorro, disse que iria mudar, e eu acreditei, bastou darmos um tempo e ele ficou com mais alguém. Talvez ele nunca deixou de ser o que ele era.

Ou talvez eu esteja com caraminholas na cabeça.

-Agora ou depois? - Acho que ele se referia a termos uma conversa.

-Bem depois, Bruno. - Ignoro seu olhar e estico meus braços para minha filha que já estava tentando descer sozinha da poltrona. - Tá fugindo da mãe, bebê? - Pergunto quando a ponho no meu colo.

-Não. - Responde ela.

Minha pequena brinca com uma parte do meu cabelo, e enquanto eu sigo meu caminho até a cozinha para fazer a última refeição dela, e depois dar um banho para ela dormir, Bruno fica no quarto por um tempo e logo saí atrás de mim.

-Estamos achando que até janeiro nosso álbum fica pronto. - Ele diz de maneira feliz, senti um orgulho imenso, mas dei um sorriso fraco.

-É mesmo? Parabéns.

-E eu pensei que como estamos no verão ainda, deveríamos pegar uma semana para viajarmos.

-Viajarmos Bruno? - Sério mesmo essa pergunta? Eu estava impaciente demais para esses tipos de coisas, com ele pelo menos. - Eu tenho que trabalhar.

-Porque você quer!

-Porque eu já disse pra você que não quero ser sua dependente, eu não sou nenhuma aleijada ou tenho alguma deficiência que me impossibilite de trabalhar. - Despejo algumas palavras sobre ele, que arregala levemente seus olhos.


A Bruno, se você soubesse que esse é um dos menores motivos que eu permaneço lá, e que o maior é sobre me afastar de você se tudo isso continuar. Olho seu rosto que encara o meu. Da vontade de ter um ataque e gritar muitas coisas.

-Ta bom, Nicole. - Ele bufa.

-Okay, Bruno. - Dou as costas pra ele e continuo a colocar a comidinha da Bê dentro do seu pratinho.

Acho que meus amigos, a família, todos devem estar pensando que eu estou fazendo tempestades em copo d'água, ou que eu não estou pensando na Bê. Mas eu estou, e justamente por ela que estou fazendo tudo isso. Exijo sim que eu e o Bruno paramos de brigar para dar além de um ambiente melhor para nossa filha, quanto uma família de ótima convivência. E quanto a Paige? Eu tenho ciúmes dele, da mesma forma que ele já teve minha. Eu sinto que qualquer coisa que chame mais a atenção dele, ele irá escorregar pelas minhas mãos. Eu não quero isso!

Eu quero ele ao meu lado, com a Bê, com a nossa família.

Chuto, sem querer, a porta da geladeira, e ele nota que estou com alguma raiva, alguma coisa entalada na garganta. Quando observo Bê sorrindo, enquanto brinca com os brinquedinhos da sua cadeirinha, eu vejo que se nós um dia nos separarmos, todos nós ficamos mal. Ela sentirá falta do seu pai, e caso ela fique com ele, ela sentirá a minha falta, e eu sentirei falta dele, e ele sentirá a falta dela - só não garanto que ele sentirá a minha.


Ouço a campainha, e antes que pudesse dizer pra ele ir atender, ele saí caminhando em direção da sala. Fecho os olhos sentindo eles ficarem para lá de marejados, então respiro fundo, passo a mão embaixo deles, e pego a comida da Bê.

-Era bom que ficasse de repouso. - Diz Doutor Dan, que quando me vê de longe, assente em forma de cumprimento.

Bruno Pov's

Caminho com o doutor até meu quarto, sento-me na cama, enquanto ele procura seus instrumentos de consulta dentro de sua maleta grande de couro preto.

Balanço meus pés pensando no que vou ser diagnosticado.

-Você já tomou algum remédio? - Pergunta ele puxando a cadeira giratória para minha frente.

-Sim, minha amiga me deu um remédio mais cedo, mas eu não sei o nome.

-Sabe que é perigoso se medicar sem saber o que é que está se passando, não sabe?

Assenti positivamente e então retirei minha jaqueta com cuidado, estava com um pouco menos disposto a fazer as coisas, e ele pediu que eu tirasse minha camisa branca, foi o que eu fiz. Ele verificou minha pressão, meus batimentos, minha respiração, minha garganta, e até a cor de minhas unhas. E disse que assim que eu contasse com detalhes o que eu senti, ele diria para que tantos procedimentos.

-Acho que foi isso. - Contei aos detalhes o que eu senti e desde quando senti.

-Peter, eu suspeito que você tenha quase pego uma pneumonia!

-C-como? - Gaguejo um pouco.

-Você descreveu tudo o que sentiu, e seus sintomas. Eu tenho mais de 20 anos de experiência, e tenho quase certeza que está com princípio de pneumonia.

-E é grave?

-Grave não é, se cuidar! - Ele destaca duas folhas do seu bloco e vai escrevendo mais coisas enquanto vai conversando comigo. - Você teve sorte de ter sido medicado bem antes, assim terá apenas três dias para melhora, ou quatro.

Santa Nicole que bateu o pé para ele vir hoje.

-Repouso?

-Absoluto. - Ele humidece seus lábios que são quase não vistos por seu bigode. - Vai tomar dois comprimidos, e esse antibiótico. Peça para a sua mulher fazer chás, e evite fumar.

-Não fumo faz um tempinho já.

-É bom que pare de uma vez, você sabe todas as consequências do cigarro, não preciso lista-las e nem parecer que estou lhe dando um sermão. - Ele destaca a folha e carimba para me entregar.

-Quer dizer que eu devo tomar chás?

-Sim, e procure ficar sempre bem instalado, não pegar corrente de ar frio.

-Eu posso pegar um sol amanhã? Já que estarei em casa mesmo...

-Somente pela tarde, e não passe de duas horas na rua, pois o sol vai perdendo a sua força e o vento gelado começa a vir.

Nicole Pov's

Termino de arrumar as coisinhas da Bê no quarto, ligo o ar quente no seu banheiro e ligo o ar do quarto também para ela não pegar nenhum vento frio. Verifico as janelas e tudo estava fechado. Peguei-a, peladinha, em meu colo e fiz algumas brincadeiras com ela.

Na banheira ela me olhava e eu fingia que estava conversando com ela no telefone e dizia para ela que era um telefone, de maneira esquisita, ela tentava falar também.

Assim que a sequei, passei o secador em seus cabelos, no vapor mais fraco que tem, e bem de longe. Penteei com sua escova e dizia para ela que estava penteando o cabelo dela, e ela tentava imitar meu gesto.

Depois de pronta para dormir, mas ainda sim com a corda toda, liguei o rádio do seu quartinho baixinho, em alguma música calma, e comecei a cantar para ela. (Música aqui)

In the sky stars are bright
(No céu as estrelas estão brilhando)
'Round your head
(Ao redor de suas)
Flowers gay
(Alegres flores)
Set you slumbers till day
(O coloca para dormir até o dia)

Sua inquietude foi amenizando, ela agora estava deitada em meu colo, piscando seus olhinhos e sua mãozinha repousada em meu peito. Minha vontade de chorar aumentou tanto, quem diria depois de tudo que me aconteceu, esse pequeno serzinho iria me dar tantas alegrias, tantos sorrisos, seria a maior dona do meu coração.


Close your eyes
(Feche seus olhos)
Now and rest
(agora e descanse)
May these hours
(Talvez estas horas)
Be blessed
(sejamos abençoadas)
Good night dear child
(boa noite querida criança)
In your white sheets
(com suas fraldas brancas)
Rest happy
(repouse feliz)
Dreaming of Heaven
(sonhando com o paraíso)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Dezessete - Parte 2

Não demorou muito para a baba ir embora, e enquanto eu curtia um tempinho com a minha filha, lembrava que hoje foi um dia bem legal e recordativo. Vi Bob que queria tanto revê-lo, falei com ele, conversei por vários momentos com o Thales e ri muito do que ele falava, consegui executar meu serviço com a excelência e cada vez mais me empenhando para Pree dar com a cara no muro, e agora quando cheguei em casa descobri que minha filha, além de tagarelar o dia inteiro, começou a ficar em pé mais tempo.

-Que orgulho da mamãe. - Digo enquanto ponho as meias em seus pézinhos.


-Ba mama detul.- Ela diz algumas coisas incompreensíveis e eu rio das suas caras e bocas. Assim que termino de colocar a meia em seus pés, pego ela no meu colo e cheiro seu pescoço gordinho, ela ri tão fofa que me dá vontade de aperta-la mais ainda.

Coloquei ela no sofá ajeitando as almofadas para impedir que ela se mexa, como ela sempre faz, e caia. Ajeitei a televisão, e ao invés de colocar na televisão, pus um DVD de filme infantil para vermos, assim eu entendia e ela ficava entretida.

Olho meu celular quase na metade do filme e vejo que já está na hora do Bruno chegar. Quando pronunciei o nome dele, dizendo que ele já chegaria, ela brilha seus olhinhos para mim e respira fundo voltando a atenção para o filme.

Disco o número de Lisa, que na terceira chamada atende.

-Alô. - Digo primeiramente.

-Apareceu a desaparecida. - Reclama ela no outro lado da linha.

-Eu tenho uma filha, um namorado e um serviço, tá difícil consciliar tudo isso, amor. - Digo ironicamente e ela ri distante. - Está no trânsito?

-Eu tava brincando, querida, e estou no trânsito sim, mas já chegando em casa ainda bem.

-Ok...acho que sua afilhada sente a sua falta sabia?

-É mesmo? Porque que a mãe desnaturada dela não avisa quando eu posso fazer uma visita.

-Porque visita já significa que você não precisa avisar. - Rebato.

-Não significa não.

-Shiu, cala a boca. No meu vocabulário significa sim. - Começamos a rir e Bê também ri, mas não é de mim, é do filme.

-Eu escutei a risada dela, ou é impressão minha?

-Escutou sim.

-Meu Deus, até a risada é parecida com a do Bruno. - Ela fica pasma e já pude ver seu rosto, eu rio lembrando que ela está se tornando a cópia fiel dele e com alguns traços meus.

Fiquei por um bom tempo conversando com ela, enquanto de longe cuidava a Bê feliz olhando o filme animado na televisão. Ela dava gritinhos e falava coisas, até apontava para a tela para eu assistir também, eu ria, achava lindo e narrava para Lisa o que ela estava fazendo.

Pensei no quão rápido ela está crescendo. Eu já penso nisso com frequência, mas agora fiquei pensando em todas as coisas que ainda irão acontecer, como quando seu primeiro dente-de-leite cair, quando ela irá para a escola pela primeira vez, quando irá decidir  que cor irá usar na roupa, quando não irá mais pedir para limpar ela no banheiro. Eu ainda tenho uma longa e eterna jornada de coisas para passar ao lado dela, mas agora eu quero aproveitar o tempo dela pequena e seus primeiros aprendizados.

-Vou desligar para tomar meu banho. - Ouço um barulho junto com o que ela fala.

-Não tá muito solitário esse apartamento para você? - Pergunto curiosa.

-Está, mas não sei o que fazer...

-Porque você e o Thales não tentam morar juntos? Acho que melhoraria muito. - Dou de ombros.

-Vou pensar nisso, agora vou lá. Beijos e dá um beijo na minha pequena.

-Ok, beijos meu e dela também.

Voltei a atenção para minha pequena. Sentei-me ao seu lado e falei algo sobre o filme, ela balançou a cabeça e continuou assistindo. Vi que não tinha muito tempo de filme ainda, menos de quinze minutos, então a pus no meu colo e terminei de assistir com ela. Em alguma altura do filme, bem no fim, algum dos personagens animados disse "nunca" e ela repetiu perfeitamente. Dei um beijo em sua bochecha e fiquei maravilhada com todo o progresso que o dia de hoje está resultando.

Tirei o filme do dvd e coloquei direto em algum canal da televisão para ela ficar feliz. Guardei o dvd na caixinha e sentei novamente ao seu lado tentando lhe ensinar mais algumas palavras.

-Já disse que melhorei, obrigada novamente. - Ouço a voz do Bruno e logo levantei-me.

Caminhei até o hall de entrada e lá estava ele na porta com aquela mesma mulher que ele estava no aniversário da Bê. Meu sangue fervia como se eu houvesse posto ele em algum tipo de recipiente e levasse ao fogo brando.


-Eu sei que está melhor, mas quero que vá ao médico! Imagina se eu não estivesse lá, você estaria sozinho.

Se ela não tivesse no estúdio, ele estaria sozinho? Mas e os meninos? Porque só estaria ela e ele lá dentro? Bufei e me escondi  mais ainda para não notarem minha presença. Ouço um barulho na sala e corro para verificar se tudo estava bem com a Bê, não me perdoaria se ela caísse no chão, mas estava tudo bem, ela apenas tinha jogado o controle longe.

-A mamãe tá aqui amor. - Peguei-a no colo e deixando a televisão ligada, fui para o quarto.

Fechei a porta do seu quarto e sentei-me com ela em meu colo na cadeira de balanço que Bruno pôs próximo a sua janela. Balancei-me com ela e Bê encostou sua cabecinha em meu peito e com sua mãozinha pequena ficou brincando em minha blusa. Se eu estava a ponto de chorar? Sim! De raiva.

Porque sempre quando nós estamos bem, sempre quando nós estamos felizes, algo atrapalha? Por um momento, enquanto repasso a parte do dialogo que escutei em minha cabeça, lembro-me que ela disse que ele passou mal novamente. Será que ele está bem? Argh, eu não devo me preocupar.

Devo sim, ele é meu namorado.

Mas não devo porque ele é um idiota.

Mas devo porque ele é o pai da minha família.

Mas devo porque eu o amo.

Droga.

-Amor. - Ouço três batidas seguidas como ele sempre faz. - Está aí? - Sua voz estava mais rouca que o normal.

Respiro fundo, tento manter o controle da minha voz. Bê se alerta em meu colo e olha para a porta com seus pequenos olhos brilhantes.

-Claro. - Dou o sorriso mais meia boca do mundo.

-Passei mal hoje, bem que você disse para eu não ir. Eu sou um teimoso. - Ele abaixasse a nossa frente e coloca a sua mão no rostinho de nossa filha.

-O que houve?

-Comecei a sentir uma tontura, e os caras disseram que eu estava pálido. Continuei com os acordes depois que eles foram embora, e quando coloquei um pouco de água na boca, senti tudo preto a minha.

-Você desmaiou?

Primeira preocupação foi a pior, o que será que fez ele desmaiar? Gripe tão forte a ponto disso? Ele tem que se cuidar! Segunda preocupação foi: ele desmaiou somente com aquela mulher naquele estúdio. Não sei se agradeço que ela estava lá para socorrer ele, ou se fico brava por estar somente os dois lá dentro.

-Não, eu tonteei, caí no chão e ali fiquei sem força, se não fosse a Paige me ajudar eu não teria levantado de lá tão cedo.

-Ah. - Primeiro o ciúmes, depois o resto. - Eu vou chamar seu médico! - Disse.

-Eu vou chama-lo amanhã de manhã, hoje não.

-Como hoje não, Bruno? Você desmaiou, passou mal, e agora quer deixar pra amanhã? Pior que uma criança. - Bufo descontando minha raiva somente nessa frase que disse de modo agressivo.

-Calma amor, eu não cheguei a desmaiar, e agora me sinto melhor. Paige me deu um remédio...

-E ainda toma remédio sem receita? Antes que eu saiba o que isso é, eu mesmo mato você. - Não associei que minha filha estava no meu colo enquanto eu dava uma cena de ciúmes transposta por cima de uma de namorada preocupada e seu sermão.

Olhei para ela, que estava com o olhar pra lá de concentrado no Bruno, e ele olhava para mim fixamente. Eu sei que ele sabia que eu estava era com ciúmes, mas nenhum de nós dois queria tocar no assunto para iniciar mais uma discussão. Pedi que ele segurasse ela por um tempo e levantei.

-O que vai fazer? - Pergunta ele sentando onde eu estava com a Bê no seu colo.

-Ligar para o seu médico. - Falei e dei as costas, mas virei-me antes que ele falasse algo contra. - Sim, eu vou ligar pra ele mesmo. - Bufei virando novamente para a porta do quarto.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Dezesseis - Parte 2

Uma semana depois e eu e o Bruno ainda estamos só amores. Eu estou curtindo tanto esse nossos momentos família. Conversei com o Pree semana passada, na terça feira, e ele me aceitou de volta na empresa - claro que não foi por pena, nem porque eu sou uma ótima funcionária, é porque trabalho à tempo suficiente ali para receber um enorme seguro desemprego, de salário bem gordo e tudo mais.

Comecei na quarta feira mesmo e já chamei a baba para cuidar da Bê todos os dias da semana, até as quatro horas, que é o horário que chego em casa agora.

Domingo à noite, Bruno está deitado e eu levando sopinha para ele. O coitado pegou uma gripe bonita devido o tempo doido que está fazendo ultimamente, e agora está agonizando na cama com dores no corpo, garganta inflamada, tosse seca, e dor de leve na cabeça.

-Espero que já tenha se conscientizado que você não irá nesse estado para o estúdio. - Digo abrindo a porta com a bandeja em mãos e seu prato de sopa.

-Eu tenho que ir. - Ele vai se ajeitando na cama de forma que eu possa por a bandeja em seu colo. - Rick me matará se essas coisas não serem entregues a tempo para a gravadora.

-Se tivesse continuado com a nossa gravadora eu conseguiria uma folga, amor. - Pouso a bandeja em seu colo.

-Eu sei, mas não é só eu que faço essas escolhas, são os empresários e etc. - Ele fala enquanto eu coloco um guardanapo preso em sua gola.

-Tenho medo de você sair desse jeito sozinho... - Torço meus lábios morrendo de vontade de pegar a sua dor e passar pra mim, só para não vê-lo sofrendo, assim como tenho vontade de fazer quando Bê está doente.

-Nick, eu só estou gripado amor, todo mundo tem isso..- Ele faz uma pausa para tossir.

-Essa tosse de cachorro magro é que me dá medo! - Retruco e ele ri.

-Tosse de cachorro magro? - Ele ri mais uma vez alto.

-Coisas da minha avó. - Reviro os olhos. - Mas não mudamos de assunto... amanhã você vai para o estúdio, mas se não tiver bem, vai ao médico, ok?

-Você quem manda. - Ele faz uma rendição com as mãos e depois bate continência.

Enquanto ele ia terminando a sua sopa, eu pedi licença e fui verificar se Bê ainda estava acordada como antes. Peguei-a no colo e ela faz um beicinho pra mim como se quisesse alguma coisa.

-Pai. - Diz ela.

-Papai está dodói amor, não dá pra ficar muito perto dele por enquanto. - Fiz essa restrição para ele não ficar muito tempo perto dela, porque ela é tão pequena e frágil, e a gripe dele está tão forte, que tenho medo que ela acabe pegando e ficando muito mal.

Acaricio seu cabelinho e o coloco para trás da orelha. Sento-me com ela no meu colo, na poltrona ao lado do seu berço e ela fica brincando com as pontas dos meus cabelos, quietinha e tranquila.

-Vamos treinar mais os seus passinhos, meu amor? - Pergunto e ela me olha com a interrogação no olhar. - A Bê da mamãe precisa caminhar para pentelhar mais, sabia?

Seus passinhos foram tão limitados desde seus nove meses nós a colocamos em pé no chão, segurando suas mãozinhas, mas foi a partir dos dez meses que ela começou a querer caminhar, nós a acompanhávamos segurando seus bracinhos e ela ria divertidamente. Mas ela não tem tanta coragem como o seu pai, ela puxou a mim nessa parte, tem medo de certas coisas. Quando largamos suas mãozinhas para ela caminhar sozinha, ela começa a chorar e senta-se no chão.

Olhei seus pés pequenos com a sapatilha de oncinha que a Lisa deu pra ela - bem perua - e ri dela olhando para seus pés também.


***

Bruno acordou quase a mesma hora que eu e ele não melhorou muito desde ontem à noite. Dei um chá para ele e fiz uma massagem em seu peito com um pouco de VaporRub, mas acho que foi um pouco inútil. Ele disse que sentia-se mais descongestionado, que pelo menos podia respirar melhor sem ser somente com a boca aberta, mas ainda estava com as dores no corpo e se sentindo abobado. Falei mais uma vez para ele não ir, mas ele é teimoso, pegou o seu carro e foi.

-Seu pai é um teimoso! - Reclamei para Bê que já estava acordada. Agora que voltei a trabalhar, minha rotina é vê-la assim que termino de me arrumar.

-Pai ba mama da du peto. - Retruca bem falante! Abro o sorriso vendo ela falar algumas coisas bem compreensíveis, outras eu tentava decifrar, mas estava quase impossível.

-Preguiçosa da mãe, vamos treinar mais a sua fala e mais esse caminhado. - Balanço suas pernas e ela fala comigo como se fosse uma adulta opinando em algo.

Ela não parou de falar por um bom tempo, e estava bem risonha! Não que ela não seja risonha, mas ela estava mais falante e risonha do que o seu normal.

Semana que vem ela tem consulta mensal com o pediatra, já irei perguntar se é normal ela não querer falar muito, mas ela sabe, e também sobre os seus passinhos. O que eu acho é que, infelizmente, minha filha é preguiçosa e tímida, e sim, medrosa também. Mas irei corrigir tudo isso nela.

Depois de troca-la, ajeitei minha bolsa e falei com a baba rapidamente e saí de casa.

Bob não estava na portaria mais uma vez, estou achando que meu velhinho está me evitando, ri de mim mesmo. Sei que não é isso, mas tenho saudades dele sempre falando comigo pela manhã.

Subi para o escritório e dei a olhada em toda a papelada. Agora fui empurrada para cuidar dos detalhes do álbum da banda McFly. Tivemos uma reunião sexta passada e os caras são bem comprometidos e legais, amei começar a trabalhar com eles e no seu novo álbum.

-Saudades de trabalhar nessa sala com você. - Thales dá duas batidinhas e vai entrando enquanto fala.

-A sua mesa está ali ainda, volta a ser estagiário e vem. - Relaxo os ombros e largo a caneta sobre a mesa.

-Eu não, Deus o livre. - Ele fala com certa repugna. - E como está a volta para o trabalho?

-Já me empurraram um novo álbum de uma banda. Não sei como aquele gordo do Pree consegue ser tão insuportável. - Rolo os olhos e ele ri da minha expressão enquanto senta-se a minha frente.

-A banda é ruim? - Pergunta.

-Não, eles são uns amores, queridos e cantam muito bem, porém eu mal me instalei novamente na empresa e ele já me empurra um grande trabalho em mãos. - Bufo.

-Ele quer testar você, não dê bola! - Thales parecia bem relaxado quanto ao que estava falando. - Você só tem que mostrar pra ele que não voltou para brincadeira, que está mais do que empenhada com o serviço.

-Thales, você é um gênio. - Atiro um beijo pra ele que ri e o pega no ar.

-Eu sei! - Ele finge limpar seu ombro como se fosse superior.

-Sua bicha narcisista. - Serro os olhos para ele que dá uma risada maléfica. - Você não deveria estar trabalhando também? - Aponto para minha mesa.

-Deveria, mas minha melhor amiga está aqui e eu prefiro conversar.  - Ele balança os ombros com um ar de "não estou nem aí pro que tenho que fazer".

-Sabe se a baleia aparecer aqui você irá ser xingado, não sabe? - Comento baixinho me inclinando na mesa e ele faz a mesma coisa para me responder.

-Sei e não estou preocupado com isso!

Thales e eu rimos e conversamos por mais alguns minutos porque infelizmente eu tive que pedir licença para fazer minhas coisas. Mas, logo no almoço, nós nos vimos e conversamos mais ainda. Estava sentindo falta disso, de conversar com ele e tudo mais. Assim que saímos do restaurante interno do estúdio, Thales caminhou na minha frente falando algumas coisas e eu observei alguém de longe.

-Thales. - Grito para ele, que olha rapidamente pra trás. - Espera aqui, eu já volto.

Dou uma corredinha por causa do horário e chego perto. Espero a pessoa passar e cheguei ao seu lado com um sorriso bobo de criança.

-Bom dia, Bob. - Digo colocando minha cabeça para o lado, encostando no ombro, como uma criança fazendo charminho.

-Senhora MattVille, quanto tempo. - Diz ele sorrindo, parece feliz em me ver.

-Muito tempo e sem essas formalidades, pra você é Nicole! - Digo e ele ri.

-Que ótimo vê-la e como está bonita, o tempo só lhe faz bem.

Dei um jeitinho no meu corpo e olhei para ele. Sorri encantada com o elogio.

-Obrigada e digo o mesmo sobre lhe ver. Não está mais no período da manhã? - Pergunto.

-Estou! Quer dizer, ás vezes venho só a tarde por conta de exames... Velhice chegando. - Ele sorri como se exames e velhice para ele não fossem problemas.

-Hoje mesmo pela manhã estava lembrando do senhor!

-A é, que ótimo. E a filhinha, como está?

-Grande, e muito sapeca. - Começo a rir e procuro meu celular no bolso de trás da minha calça.

Cato alguma foto dela e lhe mostro, ele sorri e analisa por algum tempo.

-Como ela está linda, ela tem seus olhos, e alguns traços bem fortes do pai.

-Ah, e não é só alguns traços, a personalidade, um pouco também. -  Rio e ele pega meu embalo. Pego meu celular novamente, bloquei-o e o coloco novamente no meu bolso. - Agora eu tenho que subir para trabalhar, mas adorei lhe ver novamente.

-Digo o mesmo Nick, bom serviço.

-Pra você também. - Digo enquanto caminho rapidamente para dentro do prédio.

-O elevador do meio que eu gosto de pegar, já chegou aqui no térreo umas cinco vezes. - Thales diz enquanto aperta o botão freneticamente.

-Sabe que molestar o botão não vai fazer o elevador descer mais rápido, não sabe? - Faço uma careta estranha, ele me olha sério e começa a rir.

-Antes que eu me esqueça, vá a merda senhora. - Ele entra primeiro que eu e põe a mão para a porta do elevador não fechar.

Trabalhar o resto do dia foi moleza. E enquanto eu ia fazendo minhas coisas, dava um intervalo para ligar pra casa e ver como minha pequena estava se portando. Entre uma dessas minhas paradas para tomar um copinho de café preto, lembrei-me de que teria de marcar uma hora no salão de beleza. Preciso ajeitar meu cabelo, ajeitar minha sobrancelha que estou fazendo somente em casa. Enfim, preciso de um tempo-mulher para mim.

O trânsito não foi pior do que sempre é. Enfrentei um tráfego que eu já estava acostumada, e quando cheguei na minha casa, primeiramente larguei minha bolsa no quarto e lavei minhas mãos para pegar minha pequena.

-Bebê. - Digo estendendo meus braços em sua direção. - Ela deu muito trabalho hoje? - Pergunto para a baba.

-Nenhum, mas ela está bem falante hoje e por várias vezes que estava no chiqueirinho, ela se agarrou nas cerquinhas e levantou. - A baba sorri e Bê me olha como se tivesse aprontado.

-Que orgulho pra mamãe. - Aperto levemente sua bochecha.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Quinze - Parte 2

Me senti a mulher mais completa. Enquanto tomávamos banho juntos e fazíamos carícias sem malícias, ele me disse uma vez que me amava e que tudo que ele fez anteriormente para me conquistar, se precisasse, ele faria novamente. Tem como não se apaixonar mais por ele? Tá certo que temos nossas diferenças e que as coisas não estão mais como antes de termos a nossa filha, mas quem disse que iria ser fácil para a vida toda.

Me arrumei com trapos mais antigos do que estou acostumada a usar,  mas Bruno insistiu que eu fizesse comida com uma de suas camisas, enquanto ele cuidava da Bê.

Peguei em sua mão e fomos até o quarto dela. Ela ainda dormia tranquilamente, mas já havia feito a senhora bagunça na cama, ela se mexe muito enquanto dorme, como o Bruno. Eu não queria ter que acorda-la, mas precisava trocar a sua fralda e dar mama! Depois Bruno a cuidaria e se ela quisesse dormir novamente estava tudo bem.


-Arruma as coisas dela para troca-la, por favor, amor. - Peço enquanto me inclino para pega-la em meu colo.

-Essa é a parte ruim de ser pai... a fralda.

-Quem vai trocar ela sou eu, não reclame. - Começo a rir e Bê se mexe em meu colo, e faz uma careta estranha para não acordar.

-Mas eu vou sentir o cheiro nada agradável. - Olho para sua careta e começo a rir novamente.

Realmente, não é nada agradável trocar fraldas! O cheiro é péssimo. Quando menor, lá por seus quatro meses, quase não dava para aguentar o cheiro horrível que saia das fraldas sujas, mas depois amenizou, agora já estou até acostumada um pouco com o cheirinho.

Apoiei-a em seu trocador, e encostei minha mão de leve em seu peito.

-Vamos trocar o sujinho, amor da mãe! - Tento-a chamar, mas como eu disse, ela tem muitas coisas parecidas com o Bruno , inclusive o hábito de dormir como uma pedra. - Bernie da mamãe, acorda minha princesa. - Me inclino para falar um pouco mais perto do seu rostinho.

Ela abre os olhos e já faz beicinho para chorar.

-Que pecado com a minha bonequinha. - Bruno faz gracinha de longe pra ela, mas emburrada, ela continua com seu beicinho pra baixo como se fosse começar a chorar.

-Conheço esse beicinho, é manha, não é dona Bê! - Faço cócegas em sua barriguinha e ela gargalha alto, mas logo torna é fechar a sua cara birrenta.

Tirei sua calça, e abri o pequeno tiptop que havia posto por baixo. Abri sua fralda e levantei sua roupinha na parte de cima.

-Tira o casaco dela por enquanto amor. - Diz Bruno observando eu troca-la.

-Melhor. - Concordo com ele.

Tiro seu casaquinho vermelho e o coloco para o lado. Assim que termino de tirar a fralda carregada, ela fez xixi sobre o trocador. Começo a rir de tão sapeca que ela é, e ela ri do que acabou de fazer, como se fosse uma cobrança por eu ter acordado-a.  Terminei de troca-la e a arrumei direitinho para depois irmos dormir.


Limpei as coisas que estavam sujas e ele a pegou no colo para irmos a cozinha. Os dois iriam me assistir enquanto eu fizesse comida. A televisão da cozinha foi ligada e Bruno pôs em canal de desenhos para ela assistir. Não sei se já comentei antes, mas ela fica eufórica com desenhos e músicas animadas. Ele a pôs no carrinho para aliviar a tensão dos braços devido o seu peso, e sentou-se numa cadeira ao lado.

-O cheirinho está ótimo. - Observa ele chegando atrás de mim assim que termino de fritar algumas coisas para o molho.

-Menos mal. - Dou risada e sinto uma das suas mãos em minha cintura e a outra segurando a minha bunda. - Bruno! - O repreendo e viro o rosto em direção o carrinho da Bê.

-Ela não entende ainda. - Ri baixinho da sua safadice. - Além do mais, você está extremamente sexy com a minha camisa, e sua bunda está cada dia mais deliciosa.

-Eu não acredito que está falando isso numa cozinha. - Baixo a cabeça e abro a tampa da panela enquanto dou risada em silêncio, com um pouco de vergonha do seu comentário.

Enquanto vou terminando minha janta e dando uma espiada ás vezes no relógio e nos dois conversando (ou tentando, pelo menos). Bê fica muito falante quando está perto dele, ela chega a fica afobada para conseguir falar mais coisas, mas são poucas palavras que ela tem em seu vocabulário, e outras ela fala, mas nós temos que desvendar o que é.

-Amor, eu não irei dar comida pra ela, está tarde demais. Se importaria de dar uma papinha e um pouco de água pra ela?

-Claro que não, vida. - Ele levanta-se e ela resmunga porque ele para de brincar com ela.

-Quer ficar brava ainda, olha que abuso. - Dou risada do seu beicinho pra ele, mas não beicinho para choro, é de brava mesmo.

-Com ela é 8 ou 80, como a mãe. - Bruno comenta enquanto abre o armário atrás de um potinho com a papinha. - Amanhã eu tenho que ir para o estúdio pela manhã e sairei ás três, vai ir no seu serviço amanhã? - Pergunta ele.

-Acho que sim, provável que sim. - Ainda tinha umas dúvidas pequenas quanto a voltar para aquele lugar, mas como o Thales disse, eu tenho que pensar em tudo que está acontecendo, e já aconteceu.

-Então, nós nos encontramos para irmos fazer as compras do mês.

***

Acordei desnorteada, minha cabeça doía um pouco! Bruno não estava mais ao meu lado, já deve ter ido para o estúdio. Chequei o horário no telefone, e vi que já passou da hora da Bê tomar a sua mamadeira.

Levantei sem disposição, nem animo. Lembrei-me que ontem a noite nós jantamos e ele me ajudou a arrumar tudo que bagunçamos na cozinha, e depois que colocamos a Bê no quarto, nós chegamos na carícia na cama. Ficamos até mais ou menos umas duas da manhã conversando coisas bonitas e nos beijando. Namorando como fazíamos antigamente.

Liguei a televisão da sala e a da cozinha para não me sentir só. Daqui a pouco a empregada está por aí, e provável que o jardineiro também venha para arrumar o jardim do Bruno. Enquanto colocava o leite no microondas, observo a notícia de uma casa que pegou fogo num bairro distante do nosso. Pensei no pavor que os donos dessa casa estão ou ficaram, pensei nas crianças que perderam a memória que estava lá dentro, os pais que perderam as lembranças boas e o dinheiro que ali foi posto. Fechei os olhos e pedi a Deus que proteja a mim, a minha filha, ao Bruno e à todos que eu amo.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Quatorze - Parte 2

Não era seis horas quando Bê já estava caindo para os lados. As pessoas do parque aos poucos foram sumindo, e acho que já está mais do que na hora de irmos também. Passo minhas mãos pelas pernas do Bruno quando ele se ajeitou para sentar. Ele me olha esperando que eu falasse algo.

-Acho que alguém já está com sono. - Digo observando ela em pé querendo caminhar mais do que ela consegue.

-Vamos indo então? Daqui a pouco já anoitece também. - Ele olha para o céu.

-É, e o caminho é um pouquinho longo. - Acrescento.

-Então vamos. - Ele apoia-se para levantar, e quando consegue, pega Bê no colo e ela ri bem alto. - Vamos né, bebê do pai.

Arrumei as coisas nas sacolas, já nem tinha tanta coisa por que os dois esfomiados comeram bastante e as coisas da Bê ficam na bolsinha dela, pouca coisa que nós comemos dividimos pedacinhos pra ela. Coloquei minha bolsa e a bolsinha dela no mesmo ombro, peguei a sacola com as coisas que levaríamos para casa e outra com o lixo para largar na lixeira mais próxima. Bruno foi cantando alguma coisa pra ela que já estava apoiada com a cabeça em seu ombro, se entregando ao sono. Larguei a sacola no lixo e seguimos para o carro.

Caminhamos um pouquinho mais rápido quando umas meninas andavam pela rua, com certeza elas iriam pedir alguma coisa para o Bruno e agora o pensamento dele foi egoísta, e ele andou rapidamente para o carro. Abri a porta de trás e ele ajeitou a Bê na cadeirinha enquanto eu colocava a sacola e as bolsas ao lado dela. Sentei-me no banco do carona e coloquei o cinto, ele fez a mesma coisa e então demos a partida no carro.

-Troca essa rádio. - Disse reclamando da música chata que tocava.

-Mas eu gosto dessa música. - Ele revida.

-Então deixa nessa rádio. - Dou de ombros.

-Isso foi sacarmo ou falou para eu deixar mesmo?

-Pra deixar mesmo. Eu esqueço que nós temos alguns gostos diferentes. - Ri baixinho de mim e levei meu olhar para a estrada.

-Obrigada.

Hora ou outra eu olhava pelo espelho do carro e lá estava ela, dormindo tão lindamente. Ela acordou cedo, ferveu a tarde toda conosco, deve estar feliz e cansada. Isso que é bom ser criança, poder brincar, correr, se cansar, e depois só deitar para dormir sem preocupações.

-Ultimamente o que eu mais tenho notado é você pensativa, sabia? - Pergunta ele chamando minha atenção.

-Ah...dúvidas frequentes. - Explico.

-Só isso? Quando estamos brigados, pensa em nós dois? - Pergunta.

-Bruno...eu penso, penso em nós, na nossa filha, na nossa família. Penso que nada disso poderia estar acontecendo. - Não é um total desabafo, mas na hora tirou um peso de minhas costas.

-Isso está nos desgastando, mas eu não entendo o porque isso acontece.

-Porque nós dois somos cabeça dura, nós dois não sentamos pra conversar e ficamos jogando um na cara do outro como se fossemos adolescentes. Nós não somos mais Bruno, somos uma família agora, só que quando estamos com a cabeça quente, nem pensamos na nossa filha. - Praticamente nem respirei assim que terminei de falar. Ele até riu do meu suspiro no final, e é claro que até eu ri.

-Eu não quero que pense, em momento algum, que um dia eu vou largar vocês duas. Eu sou difícil de lidar, nós somos difíceis, pirou com a Bê? Claro, mas a culpa não é dela, a culpa é nossa que não sabemos nem lidar com isso sem acabar em briga.

-É isso que eu tento te dizer. - Olho pra ele que intercala o olhar entre eu e a estrada um pouco movimentada demais.

-Eu nunca vou deixar vocês. Quando eu digo que eu te amo, não é mentira. Você sabe, vai fazer três anos que estamos juntos, e eu nunca deixei de gostar de você! - É tão lindo ouvir isso. Saí um sorriso dos meus lábios sem eu nem perceber.

-Também nunca deixei de amar você! - Falo. - E nunca vou deixar.

-É tão bom quando nós não estamos brigando. - Ele comenta.

-Verdade, mas a parte ruim é que geralmente depois da briga vem a reconciliação. - Arqueio levemente as sobrancelhas e ele me olha como se não tivesse entendido. - Não se faça de desentendido!

-Mas isso nós podemos fazer quando chegarmos em casa, não precisamos brigar pra isso. - Ele pisca de forma sexy pra mim. Como esse homem pode ser tão lindo?!

****

Certo, o caminho foi longo, porque só de pensar que quando chegarmos em casa nós iríamos nos amar como nos velhos tempos, parecia que o tempo não queria passar.

Abri a porta de trás e peguei Bê no colo para levar para o quartinho dela, enquanto Bruno pegou as sacolas e minha bolsa. Abrimos a porta e eu fui direto para o seu quartinho larga-la no seu berço. Por momentos pensei que ela iria acordar, mas ela só se mexeu para o lado e continuo a dormir. Liguei o baba eletrônico para ficar de olho sem precisar sair do que estaremos fazendo e fechei a porta do quarto deixando uma pequena frestinha aberta.


-Ela está dormindo ainda? - Bruno saí do nosso quarto no mesmo momento que eu saio do quarto dela.

-Sim. - Pressiono meus próprios lábios, e acho que como se nós estivéssemos planejado, na mesma hora caminhamos rapidamente um para o braço do outro.

O abracei com força e segurei seu rosto com as duas mãos para dar inicio a um beijo caloroso, enquanto suas mãos rondavam meu corpo com um abraço praticamente de urso. Saudades desses momentos mais antigos nos quais não tínhamos hora e nem lugar para praticar nossas safadices, onde nós estávamos em público e ainda sim estávamos morrendo de tesão um pelo outro.

Sem quebrar nosso abraço e nosso beijo, entramos porta a dentro do quarto e estacionamos perto do quarto. Bruno me deixou por alguns segundos e foi fechar a porta, enquanto eu liguei a baba eletrônica e esperei-o logo em seguida.

Nosso fogo era de ser visto de qualquer lugar, até mesmo quem nem soubesse de nada que nós passamos todos os dias, quem nos olhasse agora juraria que vivemos em perfeita harmonia todos os dias. Nossas línguas não tinham um compasso certo em nossa boca, nós apenas nos beijávamos como se não houvesse algum amanhã, mas ainda sim eu tentei transmitir todo meu amor para ele.

Em algum momento do nosso beijo, enquanto minhas mãos estavam estacionadas em suas costas, por baixo de sua camisa, sua jaqueta não estava mais em seu corpo, ele pegou a sua mão esquerda e, sem rodeios, agarrou-me com força pelas minha bunda. Sentia meu sexo pulsar sobre a calcinha que provavelmente já está um pouco úmida.

Me afastei dele e tirei minha roupa, enquanto ele passava a mão, mesmo por cima da calça, em seu membro que estava bem acordado. O jogo não estava tão bem calculado, pois quando voltei-me a ficar próxima dele vestindo apenas calcinha e sutiã, ele estava ainda de calça e camisa. Fui surpreendida por sua delicadeza ao ir me levando com passos para a nossa cama. Deitei e me preparei para ele se deitar sobre mim, mas ao invés disso ele se abaixou ao lado da cama, afastou minhas pernas, e me acariciou deliciosamente sobre minha calcinha, que como havia mencionado antes, estava mesmo molhada. Bruno disse que assim é mais delicioso e que hoje me fará chegar ao ápice duas vezes, uma somente com a sua boca. No inicio não levei a serio, pensei que ele estivesse só dizendo isso, mas o jeito que ele levou a sua boca para o meu sexo agora despido, foi espetacular. Contorcia meu corpo com seus movimentos e seus dedos auxiliando tudo isso. O meu desespero - e posso dizer que está sendo a melhor parte - foi quando ele diminuiu toda a velocidade e começou a fazer tudo bem lentamente, aquilo foi me dando cada vez mais prazer.

Tirei suas mãos e tentei afastar seu rosto, minhas pernas automaticamente se fecharam. Tremi em prazer sobre o seu olhar penetrante ao meu agora, ele estava adorando isso, e eu também. Quando fechei meus olhos para me recompor, abro-os sentindo ele tentar abrir minhas pernas, agora bateu um pouco de vergonha, principalmente quando ele disse coisas sobre esse momento que eu não repetiria em uma mesa de jantar.


O vi penetrando em mim lentamente, minha lubrificação natural nem permitiu que ele tivesse muito trabalho para isso. Elevei minhas pernas para seus ombros e me contentei com aquela posição. A cada estocada dele era um gemido meu mais alto, mais intenso, cada vez mais prazer eu ia sentindo novamente.

Nossa troca de posição resultou numa bela cavalgada invertida. Sentei de costas pra ele e ele levantou meu quadril por diversas vezes ajudando-me a rebolar mais e aumentar o seu prazer. Pensei que nossa transa seria safada e romântica ao mesmo tempo, mas está sendo somente safada. Não que eu esteja reclamando de algo, afinal passamos momentos lindos hoje e eu estou feliz por isso!

Mudamos pela última vez de posição. Fiquei de quatro para ele - confesso que essa posição é uma das mais gostosas de se fazer, mas ainda sim eu morro de vergonha dela - e recostei meu rosto sobre um travesseiro, enquanto ele ficou de joelhos e me penetrou por trás. Seus dedos estimulavam meu clitóris, mas foi quando ele colocou o dedo em meu orifício anal que eu fui ao delírio. Lembrei do quão dolorosa e gostosa foi nossa primeira experiência anal, e nas outras também foram dolorosas no inicio, mas depois se tornou algo tão gostoso.

Bruno anunciou que estava chegando em seu clímax quando sua respiração ficou muito mais ofegante do que já estava e seus gemidos que quase nem se ouvia antes, agora estavam bem claros. Somente senti seu prazer sendo depositado dentro de mim, e nossos corpos se tocarem na cama.

Ele abraçou-me por trás, ainda nus, e eu comentei:

-Errou sua teoria de que eu pudesse chegar duas vezes no orgasmo. - Comento provocando o riso dele.

-Errei, mas eu disse que iria fazer você chegar somente com um oral, e chegou. - Diz ele.

-É.

-Eu amo ficar assim com você... melhor sexo foi e sempre será o seu.

Me derreti feito boba quando ouvi isso. Descansei ainda mais o meu corpo num suspiro profundo e indaguei:

-Se depender somente de mim, será para sempre!