Termino de me vestir enquanto o Bruno pegou a Bê e foi para a sala. Passo uma camada de rímel e um lápis de olho. Nos lábios pus um gloss rosa discreto e peguei minha bolsa sob a cama.
-Estou pronta. - Digo enquanto chego na sala arrumando a minha bolsa.
-Olha como a mamãe tá linda, amor. - Bruno diz para nossa filha que sorri quando me vê.
-Mõ da minha. - Ela pisca seus olhinhos tão doces.
-Sua mamãe, mamãe da Bê, meu amor. - Dou uma corridinha e cheiro sua barriguinha que ri descontroladamente.
-Você está tão perfeita. - Levanto meu rosto para perto do seu e dou um selinho em sua boca e aperto meus olhos fortemente, analiso com cuidado seu cheiro tão bom, seu perfume adentra minhas narinas de maneira tão doce, mas tão voraz, como pode ser tão difícil explicar isso?
-Está irresistível. - Digo para ele.
Bê coloca a sua mão em meu peito como se quisesse nos afastar ou dizer "hey mamãe, eu estou aqui, dá pra me perceberem e deixarem isso pra depois?". Nós dois percebemos isso e rimos dela.
-E você é a menina mais perfeita que poderia existir. - Aperto levemente suas bochechas e ela aperta os olhinhos dando uma gargalhada descontraída.
-Vamos nessa gatinhas? - Bruno anda em frente e nós seguimos até a porta.
Aperto o código do alarme e ouço a tranca da porta dos fundos mesmo de longe e o bip do alarme que fez na sala. Fecho a porta com a chave e ouço o outro bip do alarme. Bruno vai andando com a Bê no colo até o carro e eu me virando com a minha bolsa, meu casaco e a bolsa da Bê no outro braço, mais a chave de casa que eu estava guardando.
-Uma ajuda, eu aceito. - Digo estacionando no meio do caminho enquanto Bruno abre a porta dianteira do carro e ajusta Bê na cadeirinha.
-Se vira! - Ouço ele gritar e logo depois a sua risada. Repreendo meu rosto e fico o olhando com os olhos semicerrados. - É brincadeira. - Ele se vira de um jeito bobalhão.
-Nem queria sua ajuda mesmo. - Dou de ombros.
-Ah, então te espero no carro. - Ele aponta com o polegar sobre seus ombros para o carro.
-Nem ousa, me ajuda. - Falo entre minhas risadas.
Ele vem bobamente para me ajudar, com o sorriso frouxo. A nossa menina faz festa no carro, agora com um brinquedinho em mãos, enquanto eu e ele vamos caminhando e "esbarrando" um no outro de propósito. Engraçado como minha raiva, ou sei lá o que era aquilo, passou tão rapidamente.
Nos ajeitamos no carro, ele na direção e eu no carona. Cuidei para que a Bê estivesse bem ali, e ajeitei minha bolsa ao lado dela no banco de trás. Bruno colocou o cinto, e eu também. Então arrancamos o carro e saímos de perto da casa.
-Okay, para onde vamos? - Pergunto enquanto observo a estrada um pouco mais movimentada.
-Algum lugar que dê para pegar um atalho? - Ele buzina para o trânsito ao mesmo tempo que diz isso. - Poderíamos ir ao shopping, mas domingo deve estar hiper lotado.
-Verdade... e também não deve ter nada pra Bê fazer lá.
-Santa Mônica?
-O parque é muito agitado pra ela, acho melhor ela crescer um pouquinho mais. - Torço os lábios.
-Não, o anta! - Ele me ofende, mas começa a rir. Olho pra ele fingindo estar abismada e ele me toca um beijo. Começo a rir e Bê também ri lá atrás.
-Não deixa ele ofender a mamãe, amor. - Peço olhando-a pelo retrovisor.
-Lá tem um parque bem bonito para se passar uma tarde como essa... e ainda podemos fazer um piquenique, que tal?
-Por mim tudo bem. - Concordo com a ideia. Um piquenique seria ótimo.
Bruno estava só sorrisos dentro do carro, ele contava piadas e regia nossa viagem falando mil e uma coisas. De todas as vezes, depois que a Bê nasceu e nós saímos, nenhuma ele estava nessa alegria contagiante. Percebia seus olhares para a nossa pequena, e ás vezes até para eu. Me sentia envergonhada dele estar me olhando assim. Como qualquer mulher/homem que tem um namorado, eu estou o desejando na minha cama a essa noite, mas antes desejo nosso pique nique família.
É, ninguém disse que seria fácil toda essa jornada, mas também ninguém me disse que a vida mudaria da noite para o dia! Muitas coisas aconteceram boas, ruins, mas eu sou grata ao Bruno por me dar essas experiências, porque me ouvir, por me fazer sorrir, por me dar mais um motivo para viver - não que eu não tivesse motivos para viver, pelo contrário, eu tenho amigas, pais, família, um namorado, um emprego -, mas um filho muda todos os conceitos da vida. Muda tudo. Muda pra melhor.
-A mamãe nem nos ouviu... - Bruno diz para Bê que resmunga algo que eu não consigo entender.
-Aí, desculpa, estava aqui pensando. - Suspiro.
-Pensando em quem? - Pergunta ele intercalando os olhares entre eu e a pista.
-Em mim, em você, em nós, nossa família, a Bê...
-Gostei de ver que eu estou em segundo nessa lista. - Ele brinca.
-Você me entendeu. - Reviro os olhos em brincadeira e ele passa a dirigir com uma mão, quando a sua outra mão encontra a minha e a temperatura do meu corpo se destabiliza completamente.
(*)
Deixamos o carro estacionado numa rua calma perto do parque. Já passamos em um super mercado, quer dizer, eu preferi descer sozinha porque se ele aparecesse ia ser assédio pra tudo quanto é lado e nós não conseguiríamos fazer nossas compras. Comprei coisas básicas para piquenique, e pedi na padaria do mercado que fizessem dois belos sanduíches. Quando cheguei no carro, Bru pede que eu voltasse lá e comprasse uma toalha, porque segundo ele: "piquenique sem toalha, não é um piquenique". Voltei lá e comprei a tal toalha.
No caminho até o parque - era cerca de poucos metros de onde colocamos o carro -, Bruno segurou a Bê, e deu a mão pra mim. Me senti tão feliz com esse pequeno gesto. Segurei minha bolsa, a bolsa da Bê e Bruno conseguiu pegar uma das sacolas com as coisas. Parecíamos mulambos cheio de sacolas e uma criança pequena.
De longe, Bruno já chamou a atenção. Quando que ele não chama? O parque estava cheio, mas ainda dava para conseguir um lugar bom. Andamos um pouquinho até o outro lado, perto da orla e achamos um belíssimo lugar em baixo da árvore. Lado bom: tem sombra. Lado ruim: tem vento. É capaz de nossa toalha voar dali.
-Se eu trouxesse o violão seria mais do que perfeito. - Bruno disse assim que estendemos a toalha juntos.
-Tá ótimo assim, amor. - Falo pegando as coisas da sacola.
-Mãen. - Bê resmunga estendendo os braços pra mim.
-Que foi minha linda? - Peguei-a no colo e ela mudou sua expressão de séria para risonha.
-Tá mal acostumada, só quer colo. - Bruno bufa em um tom descontraído.
-Papai tá com inveja porque você pediu meu colo, lindinha. - Mecho nas suas bochechas e ela gargalha.
-Papai não quer mais saber dela também. - Bruno dá de ombros chegando atrás de mim e ela olha pra ele fazendo bico.
Manhosa? Não... bem capaz!
-Aí que grude com esse seu pai, meu Deus. - Digo em tom áspero.
-A mãe também é um grude comigo. - Ele abraça-me por trás.
-Sabia que tem muitas pessoas aqui e eu não posso falar nada muito safado, não sabe? - Digo baixinho pra ele.
-Somos um casal, eu posso fazer isso a hora que eu quiser. - Ele se aproxima mais do meu corpo. - Principalmente quando você está mais linda que o normal.
-Linda. - Bê chama a nossa atenção.
-Mais palavrinhas pro vocábulo dela. - Falo emocionada.
Arrumamos o resto das coisas e como disse anteriormente, sim a toalha quase voou umas três vezes. Duas meninas se aproximaram de nós e pediram fotos e autógrafos para o Bruno, para minha surpresa, meu milagre, elas me deram oi e brincaram de longe com a Bê que só deu um sorrisinho frouxo e depois se fechou. Já sei qual é o mal dela agora... Leite. Peguei o leite da bolsinha térmica onde é apropriado de guardar a mamadeira, o leite que tirei mais cedo, inclusive, e dei à ela.
Minha filha estava encantada com tudo. Olhava cuidadosamente para tudo e dava sorrisos espontâneos. Bruno ficou do meu lado e me abraçou também. Coloquei ela sentada na toalha e dei um brinquedinho que trouxe em sua bolsa pra ela.
-Obrigada por esse momento, amor. - Ele diz próximo ao meu ouvido enquanto observamos nossa pequena brincar.
-Eu que agradeço. - Digo repousando minha cabeça no seu ombro.
-Hoje ela vai dormir cedo. - Sua fala saí mais baixinha do que antes.
-Eu sei. - Mordo levemente meus lábios.
-Amo esse seu lado safado! - Ele passa a sua mão por minhas costas.
-Só não ativa ele agora porque eu não respondo por mim. - Digo dando um sorriso pra disfarçar esse clima safado.
-Ai... essa noite que não chega, meu Deus.
-Calma meu taradinho!
Aproveitamos aquela tarde ao máximo. Comemos nossas coisas e guardamos o resto. Bruno levou ela ao playground que tem ali, mas ela chorou porque queria ficar perto de mim, então levei as coisas para o carro, tranquei e andei rapidamente até chegar lá. Algumas pessoas já iam arrumando suas coisas para irem embora, e nós ali, brincando com nossa filha.
Bê ficava estérica e feliz com tudo, o passeio está sendo bom pra ela e pelo visto ela vai chegar cansada demais. O que é bom...
terça-feira, 17 de junho de 2014
domingo, 8 de junho de 2014
Doze - Parte 2
-Não. - Ouço ele largar uma coisa, creio que é o telefone e seus passos em minha direção. - Não chora. - Vejo ele se abaixar na minha frente.
-Me deixa. - Fecho os olhos.
-Me desculpa por ser sempre um idiota, eu entendo o seu lado, só não chora. Você é meu ponto fraco, se você se destruir, você me destrói. Por favor... - Por mais lindo que tenha sido ouvir essas palavras de sua boca, eu lembro que depois vamos começar com tudo novamente.
-Me deixa. - Fecho os olhos.
-Me desculpa por ser sempre um idiota, eu entendo o seu lado, só não chora. Você é meu ponto fraco, se você se destruir, você me destrói. Por favor... - Por mais lindo que tenha sido ouvir essas palavras de sua boca, eu lembro que depois vamos começar com tudo novamente.
-A onde tudo isso está nos levando? - Pergunto observando seu olhar vasto sobre o meu. - Eu digo, o que essas brigas estão resultando além do nosso distanciamento? Eu te amo demais para estar sempre brigando e me machucando. - Pressiono meus lábios um ao outro e fecho os olhos para não cair no choro.
-Nick, eu não gosto de brigar com você. Eu sei que viver comigo é chato, e que eu não dou todo o valor que você merece, eu sou um pé no saco. - Balancei a cabeça em concordância e ele ri gostosamente. - Mas eu sei que eu amo você, amo nossa filha e nada na minha vida poderia ser tão importante como vocês duas.
-Então porque vivemos brigando? - Me perco sobre seus olhos graúdos me observando.
-Porque eu sou um idiota! - Suas mãos encontram as minhas e repousam sobre o meu colo. - Você tem que descansar amor! Deve estar cansada.
-Não... eu quero passar um tempinho com a minha filha, passar o máximo de tempo antes que eu comece a trabalhar!
-Resolveu continuar lá?
-Sim, Thales me convenceu.
Ficamos num silêncio até ele separar nossas mãos para levantar. Ele caminha pela cozinha, não sei no que ele meche, mas ouço barulhos. Minha cabeça gira em torno de tantas coisas. Eu estou vivendo por ele, fazendo coisas que eu não faria se eu não o tivesse, estou dando o melhor de mim, será que ele não nota isso? Será que ele não nota o quão estou me doando para ver sempre sua alegria? Ao invés disso, de estarmos bem porque eu estou cedendo, não, nós estamos pior do que éramos antes, e isso está me matando por dentro! Olho para ele mexendo no leite que eu tirei para colocá-lo na geladeira.
-Eu poderia ter feito isso. - Disse observando ele voltar pra minha frente.
-Mas eu posso fazer essas coisas, não sou nenhum aleijado.
-Desculpa. - Dei um risinho e desviei meu olhar pra baixo.
-Levanta. - Ele puxa a minha mão e eu fico de frente pra ele em pé. Segurando a minha mão, ele olha nos meus olhos. -Desculpa por tudo isso. Eu não te prometo que irei melhorar do dia para a noite, mas eu vou tentar!
-Vamos tentar resolver as coisas sempre como adultos? - Propus e ele ri.
-Vamos... - Dou um sorriso para a sua resposta e ele acaricia minha bochecha. - Como eu posso amar tanto você?
-Me faço a mesma pergunta.
Selamos nossas bocas, unindo-as em um beijo apaixonante. Sua mão segurava minha nuca, mas não de uma forma safada, e sim completamente suave, neutra, mas ao mesmo tempo expressando algo. Ele não me segurava fortemente, mas eu senti naquele momento que eu poderia ir para qualquer lugar quando fechasse os olhos, qualquer lugar que ele estivesse, por que não há lugar nesse mundo que faça sentido pra mim se ele não estiver lá. Eu o amo, e é essa parte que nunca mudará.
-Tive uma ideia! - Bruno segura meus braços levemente e olha com seus olhos brilhantes nos meus. - Vamos almoçar, eu te ajudo a fazer o almoço! - Diz ele.
-Que ideia brilhante, Peter! - Ironizo.
-Que foi... essa é a ideia perfeita.
-Vai se catar. - Rio dele, que ri de mim também.
-Depois que almoçarmos nós nos arrumamos, arrumamos a Bê e vamos sair. Quero levar vocês à algum lugar.
-Algum lugar? Quer dizer que nem sabe a onde ainda? - Pergunto.
-Não sei, vou pesquisar algo.
-Adoro essas coisas sem rumo!
(*)
-Eu prefiro esse casaquinho aqui. - Apontei para um dos seus casaquinhos rosas.
-Mas esse vermelhinho é mais bonitinho, e combina com o detalhe da botinha dela. - Ele aponta para o pézinho dela que está sentada no chiqueirinho com seus brinquedos.
-Mas...- Olhei para seu olhar pidão.Quem é que não vai ceder? - Okay! O vermelho. - Peguei do seu guarda roupas o casaquinho vermelhinho.
-Eu estava pensando, agora no fim desse mês vamos reformar o quarto já, colocar um closet pra ela. - Bruno se vira para a parede.
-Mas que tanto. - Bufo e ele ri.
-Pretendo dar muito mais roupas pra ela.
-Bruno, ela já tem roupa o suficiente para abrigar cinco amigas de intercâmbio por um ano aqui em casa. - Digo abrindo uma das porta do guarda roupa pra ele.
-Mas nunca é demais. Assim ela não precisa ficar repetindo.
-Amor, ela nem vai a escola, nem creche... não tem necessidade disso por enquanto. - Peço encarecidamente. Não quero que minha filha se crie mimada demais.
-Tá, tudo bem, mas o closet nós vamos por.
-Okay, o closet colocamos.
-Perfeito. - Ele via em direção dela. - Vá se arrumar, eu vou dar banho nela! - Ele estica os braços para pega-la e ela ri abertamente.
Atirei um beijo para ela assim que ela foi para o colo dele, pensei que como mais cedo eu a xinguei ela não iria nem me olhar direito, mas para minha surpresa ela atira um beijo torto pra mim fechando seus olhinhos que hoje estavam mais claros.
No quarto pego meu hobby e entro para o banheiro. Um banho rápido, nem lavei meus cabelos para que eles não armem muito assim que secarem enquanto não estivesse em casa. E também mais cedo eu havia lavado-os.
Entrei no closet e fiquei olhando para as roupas perdida. Eu não sei o que vestir, principalmente porque nós não temos um paradeiro, vamos sair sem nem saber pra onde. Eu estava sorrindo bobamente e alegremente com a nossa conciliação e mal poderia esperar para quando retornássemos do passeio a Bê nos deixasse um pouquinho em paz para que pudéssemos aproveitar. Preciso do meu marido na cama também.
Alegre, peguei uma calça jeans clara, e separei a bota meia canela na cor preta e peguei uma blusa de manga comprida amarela não chamativa, com um detalhe na manga discreto. Nos casacos peguei uma jaqueta de couro preta curta, mas para minha prevenção peguei um casaco quente para deixar dentro do carro, caso esfrie.
Vesti minhas roupas íntimas e coloquei a calça e a meia. Pus novamente meu hobby com o qual havia saído do banheiro e fui até o quarto. Bruno estava fazendo gracinhas pra ela enquanto colocava a fralda.
-Passou o talco e a pomada? - Pergunto antes de perceber que as coisas estavam ao seu lado.
-Estou limpinha mamãe. - Ele fala pela Bê e me faz rir.
-Vou arrumar a bolsa dela com as coisinhas, pode ir tomando banho. Já até separei minha roupa para não demorar.
-Okay. - Ele vem na direção da porta, onde eu estou, e dá um selinho em minha boca. - Te amo.
-Também te amo.
-Haaaa. - Ouço o gritinho de felicidade da Bê como se ela estivesse entendo algo do que estávamos falando.
Corri para o trocador dela e vesti uma fina calça antes de por a sua calça jeans. Coloquei um tiptop branco, uma blusinha rosa clara de manga comprida e calcei suas botinhas. Para minha surpresa ela não reclamou quando eu pus o casaquinho nela, coisa que ela sempre faz birra.
A pus dentro do chiqueirinho novamente e arrumei as coisas que o Bruno tinha tirado do lugar para dar o banho e trocar a fralda dela. Peguei uma das suas bolsas, a rosinha do ursinho Pooh, e pus tudo o que ela poderia precisar de roupa - como uma outra blusinha, um babador, uma calça para prevenção, e um outro casaquinho -, e pus o que sempre coloco - fraldas, pomada, mamadeiras de passeio, um ursinho pequeno, fraldinha de pano, bico - que ela nem usa direito - e mais algumas coisas coisinhas necessárias.
Peguei ela e a pus sentada sobre o trocador e penteio seus cabelos fininhos e lisinhos, ela reclama de inicio e faz carinha de quem vai chorar.
-Amor da mamãe, vamos sair, ficar bonitinhas, dar um passeio com o papai. - Ela sorri enquanto eu digo isso e então começo a dizer mais coisas mantendo um "diálogo" com ela. Pus uma presilha perto de sua franjinha e lá estava ela, tão linda.
-Nick, eu não gosto de brigar com você. Eu sei que viver comigo é chato, e que eu não dou todo o valor que você merece, eu sou um pé no saco. - Balancei a cabeça em concordância e ele ri gostosamente. - Mas eu sei que eu amo você, amo nossa filha e nada na minha vida poderia ser tão importante como vocês duas.
-Então porque vivemos brigando? - Me perco sobre seus olhos graúdos me observando.
-Porque eu sou um idiota! - Suas mãos encontram as minhas e repousam sobre o meu colo. - Você tem que descansar amor! Deve estar cansada.
-Não... eu quero passar um tempinho com a minha filha, passar o máximo de tempo antes que eu comece a trabalhar!
-Resolveu continuar lá?
-Sim, Thales me convenceu.
Ficamos num silêncio até ele separar nossas mãos para levantar. Ele caminha pela cozinha, não sei no que ele meche, mas ouço barulhos. Minha cabeça gira em torno de tantas coisas. Eu estou vivendo por ele, fazendo coisas que eu não faria se eu não o tivesse, estou dando o melhor de mim, será que ele não nota isso? Será que ele não nota o quão estou me doando para ver sempre sua alegria? Ao invés disso, de estarmos bem porque eu estou cedendo, não, nós estamos pior do que éramos antes, e isso está me matando por dentro! Olho para ele mexendo no leite que eu tirei para colocá-lo na geladeira.
-Eu poderia ter feito isso. - Disse observando ele voltar pra minha frente.
-Mas eu posso fazer essas coisas, não sou nenhum aleijado.
-Desculpa. - Dei um risinho e desviei meu olhar pra baixo.
-Levanta. - Ele puxa a minha mão e eu fico de frente pra ele em pé. Segurando a minha mão, ele olha nos meus olhos. -Desculpa por tudo isso. Eu não te prometo que irei melhorar do dia para a noite, mas eu vou tentar!
-Vamos tentar resolver as coisas sempre como adultos? - Propus e ele ri.
-Vamos... - Dou um sorriso para a sua resposta e ele acaricia minha bochecha. - Como eu posso amar tanto você?
-Me faço a mesma pergunta.
Selamos nossas bocas, unindo-as em um beijo apaixonante. Sua mão segurava minha nuca, mas não de uma forma safada, e sim completamente suave, neutra, mas ao mesmo tempo expressando algo. Ele não me segurava fortemente, mas eu senti naquele momento que eu poderia ir para qualquer lugar quando fechasse os olhos, qualquer lugar que ele estivesse, por que não há lugar nesse mundo que faça sentido pra mim se ele não estiver lá. Eu o amo, e é essa parte que nunca mudará.
-Tive uma ideia! - Bruno segura meus braços levemente e olha com seus olhos brilhantes nos meus. - Vamos almoçar, eu te ajudo a fazer o almoço! - Diz ele.
-Que ideia brilhante, Peter! - Ironizo.
-Que foi... essa é a ideia perfeita.
-Vai se catar. - Rio dele, que ri de mim também.
-Depois que almoçarmos nós nos arrumamos, arrumamos a Bê e vamos sair. Quero levar vocês à algum lugar.
-Algum lugar? Quer dizer que nem sabe a onde ainda? - Pergunto.
-Não sei, vou pesquisar algo.
-Adoro essas coisas sem rumo!
(*)
-Eu prefiro esse casaquinho aqui. - Apontei para um dos seus casaquinhos rosas.
-Mas esse vermelhinho é mais bonitinho, e combina com o detalhe da botinha dela. - Ele aponta para o pézinho dela que está sentada no chiqueirinho com seus brinquedos.
-Mas...- Olhei para seu olhar pidão.Quem é que não vai ceder? - Okay! O vermelho. - Peguei do seu guarda roupas o casaquinho vermelhinho.
-Eu estava pensando, agora no fim desse mês vamos reformar o quarto já, colocar um closet pra ela. - Bruno se vira para a parede.
-Mas que tanto. - Bufo e ele ri.
-Pretendo dar muito mais roupas pra ela.
-Bruno, ela já tem roupa o suficiente para abrigar cinco amigas de intercâmbio por um ano aqui em casa. - Digo abrindo uma das porta do guarda roupa pra ele.
-Mas nunca é demais. Assim ela não precisa ficar repetindo.
-Amor, ela nem vai a escola, nem creche... não tem necessidade disso por enquanto. - Peço encarecidamente. Não quero que minha filha se crie mimada demais.
-Tá, tudo bem, mas o closet nós vamos por.
-Okay, o closet colocamos.
-Perfeito. - Ele via em direção dela. - Vá se arrumar, eu vou dar banho nela! - Ele estica os braços para pega-la e ela ri abertamente.
Atirei um beijo para ela assim que ela foi para o colo dele, pensei que como mais cedo eu a xinguei ela não iria nem me olhar direito, mas para minha surpresa ela atira um beijo torto pra mim fechando seus olhinhos que hoje estavam mais claros.
No quarto pego meu hobby e entro para o banheiro. Um banho rápido, nem lavei meus cabelos para que eles não armem muito assim que secarem enquanto não estivesse em casa. E também mais cedo eu havia lavado-os.
Entrei no closet e fiquei olhando para as roupas perdida. Eu não sei o que vestir, principalmente porque nós não temos um paradeiro, vamos sair sem nem saber pra onde. Eu estava sorrindo bobamente e alegremente com a nossa conciliação e mal poderia esperar para quando retornássemos do passeio a Bê nos deixasse um pouquinho em paz para que pudéssemos aproveitar. Preciso do meu marido na cama também.
Alegre, peguei uma calça jeans clara, e separei a bota meia canela na cor preta e peguei uma blusa de manga comprida amarela não chamativa, com um detalhe na manga discreto. Nos casacos peguei uma jaqueta de couro preta curta, mas para minha prevenção peguei um casaco quente para deixar dentro do carro, caso esfrie.
Vesti minhas roupas íntimas e coloquei a calça e a meia. Pus novamente meu hobby com o qual havia saído do banheiro e fui até o quarto. Bruno estava fazendo gracinhas pra ela enquanto colocava a fralda.
-Passou o talco e a pomada? - Pergunto antes de perceber que as coisas estavam ao seu lado.
-Estou limpinha mamãe. - Ele fala pela Bê e me faz rir.
-Vou arrumar a bolsa dela com as coisinhas, pode ir tomando banho. Já até separei minha roupa para não demorar.
-Okay. - Ele vem na direção da porta, onde eu estou, e dá um selinho em minha boca. - Te amo.
-Também te amo.
-Haaaa. - Ouço o gritinho de felicidade da Bê como se ela estivesse entendo algo do que estávamos falando.
Corri para o trocador dela e vesti uma fina calça antes de por a sua calça jeans. Coloquei um tiptop branco, uma blusinha rosa clara de manga comprida e calcei suas botinhas. Para minha surpresa ela não reclamou quando eu pus o casaquinho nela, coisa que ela sempre faz birra.
A pus dentro do chiqueirinho novamente e arrumei as coisas que o Bruno tinha tirado do lugar para dar o banho e trocar a fralda dela. Peguei uma das suas bolsas, a rosinha do ursinho Pooh, e pus tudo o que ela poderia precisar de roupa - como uma outra blusinha, um babador, uma calça para prevenção, e um outro casaquinho -, e pus o que sempre coloco - fraldas, pomada, mamadeiras de passeio, um ursinho pequeno, fraldinha de pano, bico - que ela nem usa direito - e mais algumas coisas coisinhas necessárias.
Peguei ela e a pus sentada sobre o trocador e penteio seus cabelos fininhos e lisinhos, ela reclama de inicio e faz carinha de quem vai chorar.
-Amor da mamãe, vamos sair, ficar bonitinhas, dar um passeio com o papai. - Ela sorri enquanto eu digo isso e então começo a dizer mais coisas mantendo um "diálogo" com ela. Pus uma presilha perto de sua franjinha e lá estava ela, tão linda.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Onze - Parte 2
O caminho foi todo assim, ficamos falando do Bruno, de mim, do serviço. Parece que foi longo, mas foi rápido. As meninas desceram cambaleando de sono do carro e seguiram para suas casas, eu me despedi do Thales e assumi a direção. Eu estava bem, não tinha bebido e também não estava com sono. Afinal, quando se tem uma criança em casa você cria resistência ao sono incrivelmente e qualquer barulho por mínimo que seja, se torna um rugido alto.
Estacionei o carro e abri a porta. Aparentemente estava todos dormindo, até eu olhar para a sala com a televisão ligada e uma lata de refrigerante perto do sofá. Caminhei para a cozinha e descasquei uma banana. Comi ela rapidamente e fui até o quarto da Bê.
Abri a porta e cheguei próxima do seu berço, eu coração voou do meu peito quando eu não à vi ali. Primeira coisa que passou na minha mente: aconteceu algo com a minha filha. Saí atordoada do quarto dela e abri a porta do meu não me importando de acordar o Bruno.
Me deparo com uma cena inusitada: Bruno está deitado, dormindo de lado e Bê está dormindo a sua frente com o seu pequeno leão de pelúcia ao seu lado. Ambos estão tapados até o peito e Bruno não faz nenhum barulho para dormir, mas se mexe quando eu abro a porta. Fiquei contemplando a cena dos dois, pai e filha dormindo.
Ela tem coisas parecidas com ele, fisicamente é mais comigo, mas seu jeito é bem Bruno de ser. Sua voz que ainda está em formação é parecida com a dele, tomara que ela herde esse dom de cantar e encantar como seu pai tem. E mesmo os dentinhos sendo de leite por enquanto, sua carga dentária é bem parecida com a dele, o que significa que graças a Deus ela não precisará usar aparelho.
Quis me aproximar mais deles, me juntar para dormirmos juntos, mas fiquei com medo de chegar ali e ela ou ele acabarem acordando. Dei meia volta para sair dali, mas ouço sua voz meio rouca.
-Pode se arrumar pra dormir ali no closet? Eu não quero acorda-lá. - Diz ele. Respiro fundo e viro-me pra frente novamente.
-Tudo bem. - Fico pensando em nada somente olhando pra ele que parece não dar a mínima por eu estar ali. - Vou tomar um banho. - Digo sem a pretensão de avisa-lo, somente pensei alto demais.
(**)
Tomei meu banho e me vesti no banheiro mesmo, uma roupa quentinha. Arrumei minhas roupas que havia usado e pus tudo no cesto de roupas sujas. Enquanto estava no banho para evitar pensar no Bruno, pensei no meu serviço. Thales tem razão, eu não posso ficar nesse lenga lenga com o Bruno, vá que um dia nós viemos a terminar nossa relação, como eu irei me sustentar? Sustentar a Bê?
Prometi a mim mesma que amanhã, quando estiver mais descansada, irei pensar a respeito.
Me acomodo tentando não fazer barulho ao lado de Bruno que se esquiva ao máximo para o meu corpo não encostar no dele. Viro-me de costas para os dois e me cubro até o pescoço, pisco meus olhos tentando entender o que eu e ele estamos fazendo e simplesmente apago no sono.
Acordei e a cama estava vazia, parecia que ninguém havia dormido ali. Arrumei a cama e penteei meus cabelos e escovei meus dentes. Preciso ver minha filha, pega-la um pouco no colo, matar essa saudades que já está me matando.
Abri a porta do quarto dela e Bruno está lá, sentado com ela no colo de mau jeito, com a mamadeira em sua outra mão. De longe olho seus olhinhos brilhantes já entregando-se para um sono profundo, ela deve ter acordado cedo para dormir essa hora. Fiquei observando os dois. Bruno é um ótimo pai, um pai perfeito! Como eu o amo...
-Bom dia. - Digo tentando quebrar o silêncio xarope no nosso meio.
-Bom dia! - Sua voz seca me diz que ele não está confortável comigo.
-Bruno, vamos conversar sobre ontem... - Tentei uma aproximação andando alguns passos até onde ele estava, mas parei assim que vi seu rosto nada legal para mim.
-Vamos falar sobre a sua filha que estava ardendo em febre. - Sua raiva é cuspida nessas palavras.
-Ai meu Deus. - Coloco a mão sobre minha testa. - Ontem à noite isso? - Pergunto e me abaixo frente a ele para conseguir ficar na altura que Bê estava no seu colo.
-É, ontem enquanto você rebolava sua bunda em uma festa, ela estava aqui mal.
-Que isso! - Arqueio minhas sobrancelhas. - Será que você não me conhece, Bruno?
-E se eu não estivesse em casa? - Seu olhar estava apontando a culpa toda para cima de mim.
-Caramba, a baba estava aqui... e eu pedi para me ligar qualquer coisa que acontecesse.
-Ligar pra estragar a sua noite? - Ele fez uma cara nojenta. - Não, deixa, você precisa se divertir mesmo.
-E você precisa parar de agir como criança! - Tentei pegar ela do colo dele, mas ele esquiva. - Deixa eu pegar ela! - Ordeno.
Nos encaramos momentaneamente e ele a entrega para mim. Pego ela com cuidado para não acorda-la e ele ameaça se levantar, mas para e fica me encarando por mais alguns segundos.
-Eu não sou a única criança! Não tento pagar com a mesma moeda, só porque eu saí você foi lá e saiu também.
-Claro que saí, eu não tinha esse direito? Minha vida seria ficar trancafiada em casa esperando você voltar todos os dias sem me divertir?
-Você tem uma filha, caramba!
-Eu não fiz ela com o dedo! - Rebato na hora aumentando um pouco meu tom de voz.
Bê dá um pulo no meu colo e acorda chorando estridentemente. Sacudo ela um pouco e Bruno bufa algumas palavras que eu não entendo. Fico tentando acalmar Bê, mas ela não para de chorar.
-Nãum, nãum. - Ela diz tentando me empurrar.
-É a mamãe, amor. - Dou um sorriso pra ela que levanta a mão esperta e bate levemente em meu braço. - Que isso! Não é pra fazer isso, é feio! - Rebato pra ela olhando em seus olhos cheios de lágrimas.
-Paaaaaaaai. - Ela resmunga, quase não deu para entender o que falou, se não fosse ela se esticar completamente para o lado do Bruno. Pronto, um complô contra mim.
-Vem com o pai, filha. - Ele estica os braços e pega ela no colo.
Da onde já se viu, Bê nunca levantou uma mão para bater em mim, nem quando bebê ela fazia isso. Fiquei com pena de ter falado tão seriamente com ela, não é pra ser um xingo, era apenas para alerta-la a não fazer mais isso para não se acostumar mal. Eu nunca a pus para dormir com nós na cama de casal, sempre no seu bercinho para acostumar desde sempre, mas Bruno vai lá e coloca ela pra dormir na nossa cama. Eu nunca deixo ela fazer tudo que ela quer, isso mal-educa ela e eu não quero ser uma "bruxa" pra ela. Bruno não põe limites em certas coisas, garanto que ontem ela acabou batendo nele de brincadeira e ele deixou porque achou bonitinho.
Viro minhas costas e ando em direção da cozinha. Meus peitos doem, preciso tirar um pouco de leite, porque quanto mais ela mama, mais meus peitos produzem e dói demais. Pego a aparelhagem na cozinha e sento-me na pequena mesa que ali tem. Tiro o leite que por acaso não é muito, mas alivia a dor instantaneamente.
-Coloquei ela pra dormir. - Avisa ele com a voz um pouco mais amena. Nem o olho pois sei que vamos discutir. Sinto meus olhos anunciarem que daqui a pouco, sem eu nem perceber, eu vou começar a chorar e desandar meus sentimentos mais do que já estão. - Peço qual comida? - Ouço o barulho do telefone.
-Você que sabe. - Viro o rosto para o outro lado e digo baixinho, se eu chorar não quero que ele perceba.
-Italiana! - Ele disca um número e indaga: - Saiu mais leite?
-Saiu, enquanto ela não parar de mamar no peito também vai continuar saindo. - Tento manter normal meu tom de voz.
-O que ela fez em você não faz, eu sei... o culpado fui eu, ontem quando ela melhorou da febre eu a fiz brincar e deixei ela fazer o que quisesse.
Agora me permiti chorar livremente. Minha filha prefere o pai do que à mim, isso era evidente, mas ela nunca tinha feito isso, e justo hoje que eu já não estou nos meus melhores dias com ele. Isso me esgota de uma maneira que não tem explicação. Ver um dos seres que você mais ama, que você mais dá atenção, carinho, amor, todo o seu tempo é dedicado a ele, e ele simplesmente ama outra pessoa.
Mas eu tenho que me acostumar, daqui pra frente vai ser assim. Eu tenho que cria-la de duas formas e aprender a lidar com isso: tenho que cria-la de maneira melhor possível e cria-la para o mundo. Ela vai crescer, vai querer escolher suas próprias roupas, seu próprio penteado, vai pintar os cabelos, vai querer mudar o quarto de rosa para uma cor mais forte, vai ter sua fase rebelde, vai ter o primeiro beijo e depois as melhores amigas, e eu vou ir ficando para o lado, e quando ela precisar ela vai gritar para mim ou para seu pai, mas só quando precisar. Eu vou ver ela passar por seu primeiro amor e chorar no quarto, e quando eu perguntar algo ela não vai me dizer porque vai ter vergonha ou porque não quer mostrar que está chorando por um homem.
Eu vou fazer da minha filha a minha melhor amiga para que eu seja a dela também. Sei que nem tudo ela vai recorrer a mim, mas eu preciso que ela confie em mim também do que somente no seu pai. Solucei e pus a mão no meu rosto imaginando que ela só vai crescer, e crescer, e crescer, mas ela sempre vai ser a minha pequena princesa, aquele meu pequeno milagre.
Estacionei o carro e abri a porta. Aparentemente estava todos dormindo, até eu olhar para a sala com a televisão ligada e uma lata de refrigerante perto do sofá. Caminhei para a cozinha e descasquei uma banana. Comi ela rapidamente e fui até o quarto da Bê.
Abri a porta e cheguei próxima do seu berço, eu coração voou do meu peito quando eu não à vi ali. Primeira coisa que passou na minha mente: aconteceu algo com a minha filha. Saí atordoada do quarto dela e abri a porta do meu não me importando de acordar o Bruno.
Me deparo com uma cena inusitada: Bruno está deitado, dormindo de lado e Bê está dormindo a sua frente com o seu pequeno leão de pelúcia ao seu lado. Ambos estão tapados até o peito e Bruno não faz nenhum barulho para dormir, mas se mexe quando eu abro a porta. Fiquei contemplando a cena dos dois, pai e filha dormindo.
Ela tem coisas parecidas com ele, fisicamente é mais comigo, mas seu jeito é bem Bruno de ser. Sua voz que ainda está em formação é parecida com a dele, tomara que ela herde esse dom de cantar e encantar como seu pai tem. E mesmo os dentinhos sendo de leite por enquanto, sua carga dentária é bem parecida com a dele, o que significa que graças a Deus ela não precisará usar aparelho.
Quis me aproximar mais deles, me juntar para dormirmos juntos, mas fiquei com medo de chegar ali e ela ou ele acabarem acordando. Dei meia volta para sair dali, mas ouço sua voz meio rouca.
-Pode se arrumar pra dormir ali no closet? Eu não quero acorda-lá. - Diz ele. Respiro fundo e viro-me pra frente novamente.
-Tudo bem. - Fico pensando em nada somente olhando pra ele que parece não dar a mínima por eu estar ali. - Vou tomar um banho. - Digo sem a pretensão de avisa-lo, somente pensei alto demais.
(**)
Tomei meu banho e me vesti no banheiro mesmo, uma roupa quentinha. Arrumei minhas roupas que havia usado e pus tudo no cesto de roupas sujas. Enquanto estava no banho para evitar pensar no Bruno, pensei no meu serviço. Thales tem razão, eu não posso ficar nesse lenga lenga com o Bruno, vá que um dia nós viemos a terminar nossa relação, como eu irei me sustentar? Sustentar a Bê?
Prometi a mim mesma que amanhã, quando estiver mais descansada, irei pensar a respeito.
Me acomodo tentando não fazer barulho ao lado de Bruno que se esquiva ao máximo para o meu corpo não encostar no dele. Viro-me de costas para os dois e me cubro até o pescoço, pisco meus olhos tentando entender o que eu e ele estamos fazendo e simplesmente apago no sono.
Acordei e a cama estava vazia, parecia que ninguém havia dormido ali. Arrumei a cama e penteei meus cabelos e escovei meus dentes. Preciso ver minha filha, pega-la um pouco no colo, matar essa saudades que já está me matando.
Abri a porta do quarto dela e Bruno está lá, sentado com ela no colo de mau jeito, com a mamadeira em sua outra mão. De longe olho seus olhinhos brilhantes já entregando-se para um sono profundo, ela deve ter acordado cedo para dormir essa hora. Fiquei observando os dois. Bruno é um ótimo pai, um pai perfeito! Como eu o amo...
-Bom dia. - Digo tentando quebrar o silêncio xarope no nosso meio.
-Bom dia! - Sua voz seca me diz que ele não está confortável comigo.
-Bruno, vamos conversar sobre ontem... - Tentei uma aproximação andando alguns passos até onde ele estava, mas parei assim que vi seu rosto nada legal para mim.
-Vamos falar sobre a sua filha que estava ardendo em febre. - Sua raiva é cuspida nessas palavras.
-Ai meu Deus. - Coloco a mão sobre minha testa. - Ontem à noite isso? - Pergunto e me abaixo frente a ele para conseguir ficar na altura que Bê estava no seu colo.
-É, ontem enquanto você rebolava sua bunda em uma festa, ela estava aqui mal.
-Que isso! - Arqueio minhas sobrancelhas. - Será que você não me conhece, Bruno?
-E se eu não estivesse em casa? - Seu olhar estava apontando a culpa toda para cima de mim.
-Caramba, a baba estava aqui... e eu pedi para me ligar qualquer coisa que acontecesse.
-Ligar pra estragar a sua noite? - Ele fez uma cara nojenta. - Não, deixa, você precisa se divertir mesmo.
-E você precisa parar de agir como criança! - Tentei pegar ela do colo dele, mas ele esquiva. - Deixa eu pegar ela! - Ordeno.
Nos encaramos momentaneamente e ele a entrega para mim. Pego ela com cuidado para não acorda-la e ele ameaça se levantar, mas para e fica me encarando por mais alguns segundos.
-Eu não sou a única criança! Não tento pagar com a mesma moeda, só porque eu saí você foi lá e saiu também.
-Claro que saí, eu não tinha esse direito? Minha vida seria ficar trancafiada em casa esperando você voltar todos os dias sem me divertir?
-Você tem uma filha, caramba!
-Eu não fiz ela com o dedo! - Rebato na hora aumentando um pouco meu tom de voz.
Bê dá um pulo no meu colo e acorda chorando estridentemente. Sacudo ela um pouco e Bruno bufa algumas palavras que eu não entendo. Fico tentando acalmar Bê, mas ela não para de chorar.
-Nãum, nãum. - Ela diz tentando me empurrar.
-É a mamãe, amor. - Dou um sorriso pra ela que levanta a mão esperta e bate levemente em meu braço. - Que isso! Não é pra fazer isso, é feio! - Rebato pra ela olhando em seus olhos cheios de lágrimas.
-Paaaaaaaai. - Ela resmunga, quase não deu para entender o que falou, se não fosse ela se esticar completamente para o lado do Bruno. Pronto, um complô contra mim.
-Vem com o pai, filha. - Ele estica os braços e pega ela no colo.
Da onde já se viu, Bê nunca levantou uma mão para bater em mim, nem quando bebê ela fazia isso. Fiquei com pena de ter falado tão seriamente com ela, não é pra ser um xingo, era apenas para alerta-la a não fazer mais isso para não se acostumar mal. Eu nunca a pus para dormir com nós na cama de casal, sempre no seu bercinho para acostumar desde sempre, mas Bruno vai lá e coloca ela pra dormir na nossa cama. Eu nunca deixo ela fazer tudo que ela quer, isso mal-educa ela e eu não quero ser uma "bruxa" pra ela. Bruno não põe limites em certas coisas, garanto que ontem ela acabou batendo nele de brincadeira e ele deixou porque achou bonitinho.
Viro minhas costas e ando em direção da cozinha. Meus peitos doem, preciso tirar um pouco de leite, porque quanto mais ela mama, mais meus peitos produzem e dói demais. Pego a aparelhagem na cozinha e sento-me na pequena mesa que ali tem. Tiro o leite que por acaso não é muito, mas alivia a dor instantaneamente.
-Coloquei ela pra dormir. - Avisa ele com a voz um pouco mais amena. Nem o olho pois sei que vamos discutir. Sinto meus olhos anunciarem que daqui a pouco, sem eu nem perceber, eu vou começar a chorar e desandar meus sentimentos mais do que já estão. - Peço qual comida? - Ouço o barulho do telefone.
-Você que sabe. - Viro o rosto para o outro lado e digo baixinho, se eu chorar não quero que ele perceba.
-Italiana! - Ele disca um número e indaga: - Saiu mais leite?
-Saiu, enquanto ela não parar de mamar no peito também vai continuar saindo. - Tento manter normal meu tom de voz.
-O que ela fez em você não faz, eu sei... o culpado fui eu, ontem quando ela melhorou da febre eu a fiz brincar e deixei ela fazer o que quisesse.
Agora me permiti chorar livremente. Minha filha prefere o pai do que à mim, isso era evidente, mas ela nunca tinha feito isso, e justo hoje que eu já não estou nos meus melhores dias com ele. Isso me esgota de uma maneira que não tem explicação. Ver um dos seres que você mais ama, que você mais dá atenção, carinho, amor, todo o seu tempo é dedicado a ele, e ele simplesmente ama outra pessoa.
Mas eu tenho que me acostumar, daqui pra frente vai ser assim. Eu tenho que cria-la de duas formas e aprender a lidar com isso: tenho que cria-la de maneira melhor possível e cria-la para o mundo. Ela vai crescer, vai querer escolher suas próprias roupas, seu próprio penteado, vai pintar os cabelos, vai querer mudar o quarto de rosa para uma cor mais forte, vai ter sua fase rebelde, vai ter o primeiro beijo e depois as melhores amigas, e eu vou ir ficando para o lado, e quando ela precisar ela vai gritar para mim ou para seu pai, mas só quando precisar. Eu vou ver ela passar por seu primeiro amor e chorar no quarto, e quando eu perguntar algo ela não vai me dizer porque vai ter vergonha ou porque não quer mostrar que está chorando por um homem.
Eu vou fazer da minha filha a minha melhor amiga para que eu seja a dela também. Sei que nem tudo ela vai recorrer a mim, mas eu preciso que ela confie em mim também do que somente no seu pai. Solucei e pus a mão no meu rosto imaginando que ela só vai crescer, e crescer, e crescer, mas ela sempre vai ser a minha pequena princesa, aquele meu pequeno milagre.
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