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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Trinta e Sete - Parte 2

TRÊS MESES DEPOIS

Arrumava toda a casa, com a ajuda de Thales e Lisa, que andavam atrás de mim como se eu fosse uma porcelana prestes a cair e quebrar. Gravidez não é doença, e eu não vou me privar de movimentos por isso. Estamos pendurando os últimos enfeites da árvore de natal, já que o resto do apartamento está todo decorado.

-Essa árvore está faltando algo. - Observo-a, parecendo tão morta.

-Mãe, ó. - Bernadette entrega-me um dos enfeites.

-Obrigada, meu amor.

-Não acendemos as luzes ainda. - Thales levanta do sofá. - E, essa árvore está precisando de um toque Thales de ser.

-Um toque gay. - Corrige Lisa, tirando a cabeça da guarda do sofá.

-Qual é, vocês duas estão tão sem animo para o natal.

-Eu estou animada. - Digo, pegando mais um enfeite da mão da minha filha.

-Mas não parece. - Ele bate com a mão na lateral do corpo. - Quando foi a última vez que viram filmes de romance e choraram?

-Ontem? - Pergunto à mim mesma.

-Hoje pela manhã. - Corrige Thales, impaciente. - Tá vendo, vocês estão mortas.

-Não estamos! Eu apenas não tenho porque estar feliz o tempo todo. - Lisa dá de ombros.

-Ninguém está, ninguém nunca está. Mas podemos sempre fazer um esforço a mais.

-Thales. - Balanço a cabeça. - Vamos continuar.

-Só depois que você admitir que está assim pelo Bruno.

-Vocês sabem que eu estou. - Quando minha filha ouviu o nome do seu pai, me olhou rapidamente, e depois tornou a olhar para os lados.

-Então volta pra ele, Nick. Você é tão cabeça dura, sempre complica as coisas.

-Falou você que não vai atrás das pessoas por orgulho, Lisa. - Retruco como criança.

-A diferença é que nem o Ryan, nem o Phred, nem nenhum dos meus ex namorados, me ama como o Bruno ama você.

A encaro, sem saber o que falar.

-Nick, qual é, vamos ser sinceros... Você pensa nele dia e noite, e quer muito tê-lo, mas fica pensando no passado e no futuro, deixando o presente de lado e acaba nem vivendo.

-Bruno está feliz assim.

-Ah sim, ele deve estar mesmo, longe de suas filhas e da mulher que ama.

Estou com cinco meses, o que resulta numa barriga bastante saliente, mas nada comparada a gravidez de Bernie. Descobri com quatro meses que espero mais uma menina, e fiquei feliz por isso. Ela ainda não tem nome, e eu decidi escolhe-lho sozinha, vou agradar à mim dessa vez também. Minha menina é completamente ao inverso de Bernie. Bernie era espoleta, não parava quieta, e com três meses já sabíamos o sexo porque ela abriu as pernas, já minha outra pequena é diferente. Quieta e serena, ela parece conversar comigo quando estou mais tristonha, é pequena.

Todos sabem que estou grávida agora, incluindo a mídia. A má mídia e a mídia normal. A má disseram que eu estava grávida de outro cara, e esse foi o motivo do meu término com o Bruno. Agora vê se eu posso com isso? Eu trair o Bruno, engravidar de outro, e nós terminarmos por isso? Não me pronunciei quanto à isso, até porque não voltei com minhas redes sociais e não pretendo. Acho que quanto mais eu der satisfações da minha vida, mais o povo vai falar, e eu prefiro ter a vida mais tranquila possível.

Eu e o Bruno estamos nos dando bem. Digo, ele respeitou minha decisão de término, e agora estamos amigos. Ele busca nossa filha sempre que pode, e quando tem tempo vem para a minha casa visita-la e ver a pequena que habita em mim. O que Thales disse sobre eu sentir saudades dele, é a pura verdade. Eu passo noite e dia pensando nele, pensando em nós, imaginando um futuro e lembrando de tudo do passado. Queria poder dividir os momentos dessa gravidez com ele, e estar com ele quando a Bernie resolveu caminhar de vez, quando ela começou a falar mais, quando minha filha deu o primeiro chute... Momentos que eu queria estar partilhando com ele sem ser por conversas amigáveis. Mas não posso voltar atrás. Tomei uma decisão, e insisti nisso, que agora eu mesmo tenho que aguentar. O meu temor é o dia que ele aparecer com uma pessoa, com uma namorada. Eu não sei se aguentaria por muito tempo se isso acontecesse. Eu o amo demais para vê-lo com outra, mas me amo também para saber que as coisas que passamos não eram saudáveis.

Sou extremamente egoísta quando falo nisso, porque não estou pensando em meus bebês. Mas na verdade estou sim. Estou pensando que se eu continuasse com ele daquela forma, seria um trauma para elas.

-Que dia seus pais chegam? - Pergunta Thales quando entrega para nós copos com soda.

-Semana que vem.

-Passaram três semanas aqui, mal da para acreditar. - Os olhos de Lisa brilham. - Eu amo conversar com a sua mãe.

-Eu sei. E me sinto trocada?! - Faço uma careta boba e ela sorri.

-Vó. - Bernadette olha para o nada, e vem em minha direção. - Cadê?

-A vó está na casa dela, amor. - Dou um beijo em sua cabeça e a puxo para o meu colo.

-Pai. - Ela aponta para a árvore de natal e balança a cabeça positivamente pra mim.

-Ela é tão esperta, e tão parecida com você. - Thales brinca com sua blusinha e ela ri, toda assanhada.

-A parte de ser assanhada puxou ao Bruno.

-A personalidade dela é do Bruno!  - Lisa a observa. - Ainda bem que ela é linda como a mãe.

-O pai dela é lindo. - Saio em defesa.

-Pai lindo. - Repete.

-Isso, defende seu pai. - Thales gargalha. - Meu Deus, Nick. Pelo menos tente disfarçar que ainda ama ele.

-Eu... Eu não sei. Apenas ajo da forma que sai.

-Se eu tivesse um Bruno, lindo e apaixonado, na minha vida, não pensaria muito. - Thales rouba minha filha do meu colo.

-Vamos mudar de assunto. - Peço.

-Vamos falar do natal... Vai ser à noite aqui, e ao dia vamos para o Bruno mesmo?

-Acho que sim, vou confirmar com ele mais tarde. - Dou de ombros.

-Ligue pra ele e aproveite pra dizer que você o ama. - Lisa acaricia meu ombro.

-Quem sabe. - Sorrio, passando a mão pela barriga.

-É o espírito natalino agindo, Jesus! - Thales brinca e Bê ri, encarando ele.

-Jesus! - Grita e nós rimos.

Bruno Pov's

Estava ansioso decorando a casa com a ajuda da empregada nova. Uma senhora um pouco mais velha que a antiga. Montamos a enorme árvore próxima a lareira, e ajeitamos o piamo. Natal é em uma semana e meia, mas gosto de já pensar em tudo, quero que a festa desse ano seja especial.

Especial no quesito de eu estar com as pessoas que eu amo. Só mais especial seria se minha mãe tivesse aqui, e Nicole não tivesse me abandonado.

As coisas parecem tão sem graça sem ela. A casa é vazia sem ela e meus bebês, conversar com ela como amigos me deixa mal. Eu sei que ela me ama, eu sinto isso porque eu a amo também. Mas não posso interferir nas decisões que ela toma. Tenho que ser cauteloso, ir com calma, e saber a hora certa de tentar algo novamente. Thales me mantém informado de algumas coisas e já pedi para Jaime me dizer algo caso Nick se abra pra ela, qualquer coisa que faça mostrar que se eu me declarar novamente, ela vai ceder e voltar pra mim. Penso nela dia e noite, penso nas nossas filhas e que elas não podem viver sem um pai, e que é um desperdício eles estarem se apertando naquele apartamento, sendo que tem minha casa enorme para nós dois.

-Acho que podemos ir para a parte da rua, o que acha? - Pergunto para Beth.

-Podemos arrumar um pouco hoje e outro pouco amanhã, senhor.

-Pode ser.

Me dou por vencido, apenas separando alguns enfeites que comprei. Quando saio para a área externa, sinto o frio que faz na rua. Abraço meu corpo, passando a mão nos braços, olhando para tudo tão gelado e o tempo tão chato. Esse quintal enorme parece um poço de solidão, e com o frio faz parecer pior, pois nada habita nele, nem as flores.

Queria poder ter minha família, minha filha brincando, minha namorada andando de um lado para o outro com uma barriga enorme. Eu não queria ter errado com ela, queria ter feito tudo certo, queria estar com ela em todos os momentos e eu sei que fui péssimo nisso. Me arrependo amargamente de tudo que fiz. Principalmente ter ido atrás de Paige. Depois que Nick e ela discutiram, e eu conversei com a Nicole sobre isso, Paige começou a dar em cima de mim tão descaradamente. Começou a virar o rosto quando íamos nos cumprimentar, perguntava se poderia passar a noite na minha casa, ou ir para a dela. Coisas que eu não vou entender, mas que eu entendi que fui um idiota quando pensei que Nick estivesse errada com a visão sobre a Paige. Eu sempre estive errado, e tentava me cegar sobre tudo.

-Telefone! - Avisa-me Beth.

Acordo do meu transe de pensamentos e vou até a sala pegar meu celular que estava tocando. Nicole estava me ligando, e a cada vez que falo com ela, meu peito se enche de esperança e tudo mais.

-Alô?

-Oi, Bruno. - Sinto sua voz sair com um sorriso.

-Oi, Nick. Tudo bem?

-Sim... E por aí?

-Bem. - Respondo ouvindo o som da sua respiração.

-Está ocupado? - Pergunta.

-Não, porque?

-Quero fazer uma perguntinha e depois tem alguém que quer falar com você. - Ouço um "é" da minha filha, e automaticamente olho para a lareira onde há fotos nossas, e uma das mulheres que mais me importam na vida.

-Tudo bem.

-O natal... vamos passar o dia na sua casa, certo?

-Sim, certo. Poderiam passar a noite também.

-Meus pais vão estar aqui, e queremos passar em família um pouco. - Em família? Eu sou parte da família, ela é minha família e minha família é a dela também. Tiro o sorriso do rosto, encarando o nada com expressão vazia. - Bruno?

-Oi?

-Posso passar para a Bernadette? Ela ficou a manhã toda falando de você, e a tarde só não falou mais porque estava entretida com as coisas do natal.

-Pode sim.

Minha filha pega o telefone, enquanto eu tento falar com ela e ela dá meias palavras pra mim, sendo a maioria gritinhos de felicidade. Nick pede para que ela fale que me ama, e ela repete direitinho, me deixando bobo, um pai coruja. Digo que a amo e ela fala mais algumas coisas.

-A árvore. - Diz.

-Acho que ela quer dizer que hoje montamos a árvore. - Nick fala.

-Montaram a árvore, meu amor?

-Sim! - Ouço empolgação na voz de Nicole quando pergunto para minha filha, chamando-a de amor. Será que Nick pensou que fosse para ela? - Desculpe.

-E a casa já está decorada?

-Diz pro papai que já está toda decorada e linda, e que ele pode vir aqui ver como está.

-Tá linda, decorada. - Repete algumas palavras, do seu jeito de falar, meio enrolado. - Vem.
-Papai vai amanhã visitar você e a maninha, pode ser?

-Pode.

-Bruno, você precisa ver, ela não perde essa mania de balançar a cabeça quando fala.
-Isso vai longe. - Rimos juntos. - E como está o bebê?

-Quietinha e tranquila. Se não fosse pela barriga, às vezes esqueceria que que ela está dentro de mim.

-Ela vai puxar a você.

-Vai ser o oposto da irmã, que puxou a você.

-Bernadette tem a corda toda. - Ouço a sua risada. - Que menina sem vergonha, assanhada.

-Puxou a você. - Nick diz, rindo.

-Bernadette puxou a mim na personalidade e é parecida com você, não tem quase nada meu. Será que essa vai ser parecida comigo e ter a sua personalidade.

-Não ofenda a Bernie, ela é linda.

-Você é linda, e você sabe disso.

-Obrigada. - Sua voz sai abafada.

Fico imaginando-a vermelha com o elogio, sinto como se estivesse a sua frente e ela toda envergonhada. Minhas filhas tem sorte por terem ela como mãe. 

Nicole Pov's

Meus pais chegaram ontem, e hoje aproveitamos para fazer um almoço grande, com direito a muita conversa. Minha mãe me avisou que depois queria ter a conversa comigo, e eu sabia que essa conversa envolvia eu, Bruno, e as crianças. Falando em crianças, Bernie e minha bebê já ganharam tantos presentes que estão embaixo da árvore, mas há muitos  além de roupinhas novas para passarem o natal e o ano novo.

-Mas a paixão de Nick por Nova York começou cedo, mas quando ela começou a assistir...

-Mãe! Ninguém quer saber. - Ninguém precisava saber disso, é uma parte do passado que prefiro que seja mais guardada.

-Eu quero saber. - Thales, bicha ruim, curiosa, diz.

-Tem algo seu que eu não sei? Nossa! Eu pensava que era sua melhor amiga. - Lisa leva a mão ao peito, em sinal de espanto.

-Não tem nada. Minha mãe está falando demais.

-Então tem algo.

-Ela era apaixonada por FRIENDS. Passava horas na frente da televisão olhando os episódios.

-Eu disse pra não falar. - Forcei um sorriso. Queria esgana-lá.

-É só isso? Meu irmão também amava FRIENDS. - Thales dá de ombros.

-Eu amo esse seriado, e você sabe disso. - Lisa sorri, balançando a cabeça.

-Era vidrada no Ross. - Minha mãe diz.

-Você gostava do Ross? - Lisa gargalha tão alto, e minha filha gargalha junto. Que menina maria-vai-com-as-outras.

-Não era o Ross, mamãe. Era o Joey.

Eu era uma adolescente, e eu odeio meu passado. Evito falar nele, principalmente agora. Não gosto de lembrar de quando Bruno me conhecia, e não era o Bruno, era o Peter, um idiota que ia atrás dos amiguinhos. Não gosto de lembrar que não tive um amor de ginásio, não tive uma primeira vez na escola, não tive um grupinho de amigos, e que passava todas as horas do meu tempo livre assistindo FRIENDS. Queria poder apagar tudo isso, não pensar em mais nada daquela época.

Continuamos o jantar com algumas gargalhadas e algumas lembranças do passado, deles, porque do meu prefiro não falar para não estragar nada.

+++

Clima de véspera de natal. Havíamos cogitado a ideia de irmos para Venice e passar a noite lá, mas eram duas viagens para fazer e muitas coisas para levar, e amanhã ainda temos que ir para a casa do Bruno. Não daria certo. Então arrumamos todo o apartamento, mesa de jantar e tudo mais para que seja lindo. Bernadette estava mais manhosa que o normal. Andava um pouco, mas daqui a pouco sentava no chão e ficava nos olhando e observando quietinha 

-Filha, não faz assim, vai ficar doente. - Levanto ela, talvez pela décima vez.

-Mãe. - Ela se agarra no meu pescoço. - O pai.

-Seu pai ta na casa dele, vamos ver ele amanhã.

Essa manha toda era por causa do seu pai e a saudades que ela sente dele. Não tenho culpa se nessas correrias ele não pôde vir aqui, e até entendo. Ele pergunta pra mim, em ligações ou mensagens, todos os dias como as duas estão.

-Esse peru vai ficar pronto amanhã, se não por ele agora no forno. - Minha mãe diz pra Thales, que somente assente com medo de falar algo pra ela. Aliás, ela estava se sentindo mais do que em casa, estava mandando em todos hoje, e colocou até meu pai no serviço.

Antes da noite se apresentar, coloquei a Bê no banho e pus uma de suas roupinhas novas. Ela estava uma princesa de tão linda. Marrenta, com uma calça preta e um tênis branco, uma regatinha preta e por cima uma camisa jeans meia manga. Hoje está um natal com clima agradável, não está tão frio agora pra por casaco nela. Amarrei uma bandana em sua cabeça, que me lembrou tanto o Bruno. Dei um beijo em sua testa e a entreguei para minha mãe para que eu pudesse finalmente tomar o meu banho. Minhas roupas estavam quase todas apertadas, impossível achar um jeans que servisse em mim direito, então optei pela única calça jeans que dava para abotoar e uma bata maior e mais comprida. Os cabelos somente penteei, e passei maquiagem em meu rosto. Nada de especial.


Desci, peguei meu carro e dirigi até a padaria que ainda estava aberta e comprei alguns salgadinhos de festa, que estava afim de comer, e voltei pra casa.

A noite foi ficando tranquila, com músicas e muitas risadas. Comida e falatórios. Bernie estava mais feliz e não saia de perto de sua vó, conversava tanto com a gente, enquanto minha pequena dentro da minha barriga estava quietinha.

Enquanto os presentes eram entregues, e eu estava desembrulhando um belo box das 10 temporadas de FRIENDS, que por acaso ganhei de Lisa, que ria enquanto via minha cara, cantava em minha mente a música "Last Christmas". Como se agora, hoje, ela fizesse todo o sentido.

Last christmas
(No Natal Passado)
I gave you my heart (gave you my heart)
(Eu te dei meu coração)
But the very next day you gave it away (gave it away)
(Mas logo no dia seguinte você jogou fora)
This year
(Este ano)
To save me from tears
(Para salvar-me de lágrimas)
I´ll give it to someone special (I?ll give it someone special)
(Eu vou dar a alguém especial)

Não, nem tanto sentido assim. Não quero entregar meu coração pra ninguém por um bom tempo, porque é difícil de admitir que ele ainda é completamente dele, e bate mais forte por ele. E ele não me deu tantas decepções. Nós apenas brigávamos mais do que o normal, e eu acho que ele me traiu... Não tenho que pensar nisso no dia de hoje, tenho que aproveitar minha família que está reunida nessa sala, rindo e sorrindo.

-Carrinho. - Bê aponta para seu brinquedo novo. Um carrinho de passeio que dei à ela, rosa.

-Quem é a tia mais linda desse mundo? - Pergunta Lisa.

-Taies. - Thales!

Nós caímos na gargalhada. A ceia foi assim, a noite toda foi assim, e Bruno ligou desejando um ótimo natal e mais muitas coisas, mas disse que precisava desligar porque as meninas estavam-o chamando. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Trinta e seis - Parte 2

Estamos na quarta feira da semana seguinte da festa da Tiara. Bruno passou o domingo com a minha filha e a segunda feira também. Quando cheguei terça do trabalho, ela estava em casa com Lisa e Thales na maior folia. Thales havia chego antes de mim ontem porque fui marcar minha consulta na clínica, e consegui para hoje. Só que passam das três da manhã e Bernie não dorme de jeito nenhum.

Dou tapinhas em seu bumbum, me sentindo exausta de sono, estar grávida causa sintomas que são um saco. Ela não parava de chorar, parecia até estar doente. Coloco o termomêtro em seu corpinho e nada, a temperatura estava normal. Checo sua fralda, que também estava limpa. Não entendo o que meu bebê tem, afinal ela nunca foi assim de chorar dessa forma, só quando está doente. Nem quando está com muita fome ela chora assim.

-Amor da mãe, se você não falar o que quer, eu não posso ajudar. - Estava me causando agonia o fato dela nem falar, apenas chorar. - Ai minha vida. - Largo-a na cama e sento-me para descansar.

Ela esperta, senta-se também e para de chorar, fazendo beicinho de quem vai chorar em instantes.

-Acalmou? - Respiro fundo e ela chora novamente. - Cristo!

Pego-a no colo novamente e balanço-a. Vou até a cozinha, esperando que ninguém acordasse com seu choro. Pego sua mamadeira média e encho de água para esquentar a medida certa. Despejo na chaleira e acendo o fogo. Não tenho muitas opções de procurar as coisas com mais precisão, se eu a largo na sua cadeirinha, acho que ela chorará mais. Faço um chá de camomila e adoço um pouco mais que o normal, minha mãe costumava a dizer que açúcar acalma. Dou a mamadeira no quarto para ela, e então ela finalmente cessa seu choro descontrolado. Seus olhinhos da cor dos meus piscam insistentemente e pesarosos, se ela continuar assim daqui a pouco ela se entrega ao sono.

Minhas costas anunciam uma breve dor. Não, isso só pode ser uma espécie de dor psicológica, porque antes de saber que eu estava grávida não havia sentido nenhuma dor nas costas. Ergo minha coluna e meu movimento faz com que minha filha desperte do seu breve sono.

O chá termina e eu a embalo, em pé no quarto. Cantarolo baixinho para que meu bebê pegue no sono e pare de chorar. A aflição que dá vê-la chorar assim, dessa forma, e não poder nem saber o que realmente ela quer. Troco a música de ninar, por Elvis.

-Love me tender, love me true all my dreams fulfill for my darlin' I love you and I always will... - Passo a mão por seus cabelinhos e ela olha curiosa para o quarto. Lembro de sua chupeta, que ela não usa, mas talvez dê certo.

Procuro-a, mas no meio da bagunça que está as minhas coisas com as delas, que não são poucas das duas partes, fica impossível achar ela. Seria tão mais fácil se ela estivesse com o quartinho dela agora, com suas coisinhas bem organizadas. Desisto, e deixo ela atirada em meu ombro. Bê bate no meu ombro com sua mão fechada em punho e antes de começar a chorar, grita pelo seu pai. Ah, eu definitivamente não mereço isso.

-Mal passou três dias com ele e já se acostumou dessa forma? - Olho para o seu rostinho, seus olhinhos cheio de lágrimas. - Meu amor, não chora... a mãe está aqui e te ama tanto. Seu pai não pode agora.

-Paipai. - Minha pequena retorna com seu choro. Passo a mão livre em seu rostinho e ela tira. O problema é esse, ela não quer eu, quer seu pai.

Sento novamente na cama, olho para a escrivaninha com o relógio e vejo que só nessa brincadeirinha dela chorar e não querer dormir já tinham se passado um pouco mais de uma hora. Meu celular estava bem a frente. Ela ainda chorava. Não poderia deixar minha filha assim para suprir meus caprichos, mas dói saber que eu não sou o bastante para ela, que seu pai é essencial... Eu sempre soube disso, mas não sabia que poderia ser tão difícil assim.

Largo-a na cama e ela se deita, pegando a sua fraldinha e respirando pelo nariz, com certa dificuldade, chorar demais deve atacar a sua adenóide. Com uma mão disco o número de Bruno e com a outra passo sobre seu corpinho, que cubro com a coberta. Fico olhando para ela e ele finalmente atende.

-Alô. - Seu timbre entorpecido de sono, rouco, deixa-o sexy. Não tenho que pensar nesse tipo de coisa.

-Bruno! - Agraço por ele me atender. Minha princesa já levanta a cabeça para o meu lado, melhorando um pouco seu rostinho.

-Você está bem, a nossa filha está bem? A nossa da barriga, ou a Bê? - Porque ele pensou que eu estava mal? Sim, quatro horas da manhã e eu apenas iria ligar para dar oi. Óbvio que não.

-Teria como vir aqui em casa? - Pergunto ignorando as perguntas que ele fez.

-Agora?

-De preferência.

-O que aconteceu? - Pergunta pensativo.

-A Bê está desesperada chamando por você. Não posso sair de casa com esse sereno, não faria bem para nenhum de nós três. - Sua respiração pesa, é a segunda vez que eu o acordo, sei que não é legal, mas o que eu posso fazer?

-Chego ai daqui a pouco. - Ele apenas desliga. Sei que ficou irritado comigo, ele odeia ser acordado.

Coloco minha filha no carrinho, com cobertas e bem aconchegante. Coloco seu inseparável leãozinho e sua fralda de pano para ela poder se distrair, e a levo para a sala junto comigo e um cobertor. Me instalo lá no sofá mesmo, já que seria impossível eu voltar a dormir, e não quero correr o risco de acordar nenhum dos dois. Embalei o carrinho e ela me olhava, com seus olhos ainda cheio de lágrimas. Deus porque tudo está parecendo tão difícil ultimamente? Meu filho que está dentro de mim não tem culpa de eu estar grávida, isso aconteceu antes de eu ir embora da casa do Bruno. Tudo está complicado. Pensei que saindo da casa iria sumir meus problemas, mas só sumiu as brigas diarias com o Bruno, porque ainda está a mesma coisa, senão pior. Minha filha era acostumada a ter seu pai babando sobre ela dia e noite, e agora eu acabei estragando isso, eu sou culpada indiretamente do choro dela, da infelicidade que ela deve estar passando.

-Peppa! - Ela diz quando o desenho começa. Não fazia ideia que dava desenhos a essa hora da madrugada.

Viro seu carrinho para a televisão e enfim eu consigo ouvir seu risinho, mas não por muito tempo. Logo tenho que embala-la novamente por que o desenho acaba. Ouço duas batidas na porta e deixo-a sozinha rapidinho para atender Bruno.

-Onde está ela? - Grosso! Não respondi, fiquei olhando ele entrar e minha filha gritar mais uma vez por ele, menos mal que não é chorando. - Minha princesa. - Ele passa a mão sobre seus cabelos enrolados de não pentear. - Acordou a mamãe me chamando? Pra que esse escândalo todo, hein? - Sua voz falando com ela é tão doce. Meu peito alivia, porque finalmente ela conseguiu seu pai ao seu lado e parou de chorar. Fecho a porta e me sento ao seu lado no sofá, com um pouco mais de distância.

-Obrigada por vir, ela não parava de chorar.

-Estou vendo seus olhinhos vermelhos. - Ele meche em sua bochecha e ela ri, escondendo o rosto perto do seu braço. - Você está bem?

-Com sono, cansada e com dor, mas bem.

-Dor onde?

-Um pouco nas costas, coisa da gravidez. Mas estou achando que é um pouco mais psicológica, porque antes de saber que eu estava grávida não sentia nenhuma dor, além dos enjoos que eu achava que era normais no inicio, porque tinha passado por dores no estômago.

-Precisa de analgésicos? - Nego com a cabeça e ele fica acariciando nossa filha, e seus olhinhos vão se entregando para o sono. Ele boceja e eu também, rimos disso e então ele olha para minha barriga e eu fico sem jeito. - Precisa que eu vá com você amanhã?

-Hoje. - O corrijo e ele dá de ombros. - Não vou ter ultra-som amanhã mesmo, só irá ser consulta chata de rotina e encaminhamento para exames.

-Hoje! - Ele me corrige e nós dois acabamos rindo, e nossa filha, apesar dos olhos quase fechados, ri também.

Bruno embala ela até ela cair no sono pesado. Amanhã não irei ter forças nem pra ir pro serviço, quanto mais para a consulta, vou parecer um zumbi. Ele a põe no carrinho, é perigoso deixa-la dormindo no quarto enquanto estamos na sala. E então começamos a conversar, já que estávamos ali.

-Eu ainda não entendi aquilo que você me falou na festa. - Diz ele.

-Aquilo o que?

-De alimentar corvo... sei lá. Tive a impressão que estava falando indiretamente de alguém.

-E estava. - Um dia ele precisará saber quem a Paige é.

-Quem era? O porque falou aquilo.

Expliquei o que aconteceu dentro da casa e o que ela me falou. Falei do meu lado também, que a enfrentei. Mas não falei o porque começamos com isso, não poderia deixar escapar que eu ainda penso nele com tanta frequência como se nós fossemos namorados ainda.

-E o porque começou isso? - Ele estava com a testa franzida.

-Banalmente, um assunto idiota.

-Assunto idiota? Me poupe Nicole, você não discutiria com ela por pouca coisa.

-Juro que foi por idiotice, eu esbarrei nela quando saí do banheiro.

Bruno gargalha alto, mas para em seguido. Idiota, será que não vê que nossa filha está dormindo. - Você não faria isso.

-Mas eu fiz. - Me arrependi de contar pra ele. - O importante é que sua amiguinha não é nenhuma santa.

-E você também não, deixasse ela discutindo sozinha, mas não, foi lá e discutiu também.

-Queria que eu desse as costas?

-Seria mais sensato. Paige não é assim.

-Bruno, se você vai ficar do lado dela, se é que tem um lado essa história,  eu acho melhor que vá embora, chamei você aqui por causa da sua filha e não por caprichos meus.

-Eu não estou do lado de ninguém, só estou tentando dizer o que eu penso sobre as duas.

-Pouco me importa o que você pensa, ok? - Minhas mãos tremiam, não sabia o que poderia significar, mas o amor passou tão rápido na hora que deu lugar a ódio a ponto de querer enfiar minhas mãos no seu pescoço.

-Eu sei que importa, Nick.

-Ela falou aquelas coisas pra mim não foi por diversão, deve ter um porque! - Suspiro fundo.

-O que seria esse porque?

-Nada Bruno...

Tocar feridas antigas dói tanto. Ele estava defendendo ela, e ela discutiu comigo por causa dele, está mais do que na cara que eles tiveram algo, e eu sou uma idiota por ter pensado que não. Não queria lembrar de nenhum detalhe das nossas brigas diárias, das nossas discussões e das vezes que ele estava bêbado.

-Se você não falar eu nunca irei saber! - Bruno estava tão sério. Meu peito já se contorcia, eu não poderia chorar, não queria chorar.

-Estou falando do fato de você me trair com ela.

-Trair? Nicole! - Ele tenta segurar as minhas mãos, eu tiro rapidamente me encolhendo mais para o lado. - Nicole, eu não seria capaz de trair você. Eu nunca beijei, nem transei com outra pessoa em todos esses anos que estamos juntos, além de você! E agora que estamos separados eu também não fiz isso. Sei que quer que eu siga em frente, mas eu não consigo porque eu te amo!

Ouvir aquelas palavras me deixaram tão confusa. Eu tinha duas opções, beija-lo e acreditar nele, ou pedir que ele fosse embora e chorasse sozinha, eu quero fazer os dois. Eu quero acreditar nele, mas parece que tudo é mais impossível depois de tudo que passamos juntos.

-Vá embora, por favor. - Peço baixinho, escondendo o rosto entre as mãos, quando sinto o seu toque.

-Eu não posso ir embora, você não vê que nós temos que ficar juntos?

-Não... não temos. Vá embora, por favor.

Choro, tentando colocar pra fora o que estou sentindo. Deus, como eu queria que as coisas fossem mais fáceis, ou que nós mulheres fossemos mais fortes. Me considero forte até certo ponto, eu era muito forte até conhecer o Bruno. Descobri nele minhas fraquezas, ele me deu a fraqueza maior, que é meus filhos. Se algo acontece à eles, eu posso até morrer. E odeio admitir, mas se algo acontecesse ao Bruno, também poderia morrer. Ao mesmo tempo que Bruno e meus filhos são minha fraqueza, eles também são minha rocha. Me sinto viva por ter eles.

-Não chora... eu te amo tanto, tanto! - Sua testa repousa no meu ombro e eu tenho vontade mais ainda de abraça-lo. Ele parece estar falando a verdade. - Desculpa por sempre ser um idiota. Eu confio em você e acredito no que me falou sobre ela, vou me cuidar.

-Eu preciso de tempo, vá embora, por favor.

-Não posso.

-Se você ama ela, você vai embora, Bruno, por favor! - Ouço a voz de Thales. Nem me viro para olha-lo. Apenas vejo o Bruno dando um beijo em nossa filha e me olhar por segundos, com os olhos inchados.

Ele foi embora e eu me sinto envolvida pelo abraço do Thales, que me conforta. Choro livremente em seu ombro, embora queira realmente parar de chorar e encarar a vida. Mas eu não consigo ser tão forte assim.