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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Trinta e seis - Parte 2

Estamos na quarta feira da semana seguinte da festa da Tiara. Bruno passou o domingo com a minha filha e a segunda feira também. Quando cheguei terça do trabalho, ela estava em casa com Lisa e Thales na maior folia. Thales havia chego antes de mim ontem porque fui marcar minha consulta na clínica, e consegui para hoje. Só que passam das três da manhã e Bernie não dorme de jeito nenhum.

Dou tapinhas em seu bumbum, me sentindo exausta de sono, estar grávida causa sintomas que são um saco. Ela não parava de chorar, parecia até estar doente. Coloco o termomêtro em seu corpinho e nada, a temperatura estava normal. Checo sua fralda, que também estava limpa. Não entendo o que meu bebê tem, afinal ela nunca foi assim de chorar dessa forma, só quando está doente. Nem quando está com muita fome ela chora assim.

-Amor da mãe, se você não falar o que quer, eu não posso ajudar. - Estava me causando agonia o fato dela nem falar, apenas chorar. - Ai minha vida. - Largo-a na cama e sento-me para descansar.

Ela esperta, senta-se também e para de chorar, fazendo beicinho de quem vai chorar em instantes.

-Acalmou? - Respiro fundo e ela chora novamente. - Cristo!

Pego-a no colo novamente e balanço-a. Vou até a cozinha, esperando que ninguém acordasse com seu choro. Pego sua mamadeira média e encho de água para esquentar a medida certa. Despejo na chaleira e acendo o fogo. Não tenho muitas opções de procurar as coisas com mais precisão, se eu a largo na sua cadeirinha, acho que ela chorará mais. Faço um chá de camomila e adoço um pouco mais que o normal, minha mãe costumava a dizer que açúcar acalma. Dou a mamadeira no quarto para ela, e então ela finalmente cessa seu choro descontrolado. Seus olhinhos da cor dos meus piscam insistentemente e pesarosos, se ela continuar assim daqui a pouco ela se entrega ao sono.

Minhas costas anunciam uma breve dor. Não, isso só pode ser uma espécie de dor psicológica, porque antes de saber que eu estava grávida não havia sentido nenhuma dor nas costas. Ergo minha coluna e meu movimento faz com que minha filha desperte do seu breve sono.

O chá termina e eu a embalo, em pé no quarto. Cantarolo baixinho para que meu bebê pegue no sono e pare de chorar. A aflição que dá vê-la chorar assim, dessa forma, e não poder nem saber o que realmente ela quer. Troco a música de ninar, por Elvis.

-Love me tender, love me true all my dreams fulfill for my darlin' I love you and I always will... - Passo a mão por seus cabelinhos e ela olha curiosa para o quarto. Lembro de sua chupeta, que ela não usa, mas talvez dê certo.

Procuro-a, mas no meio da bagunça que está as minhas coisas com as delas, que não são poucas das duas partes, fica impossível achar ela. Seria tão mais fácil se ela estivesse com o quartinho dela agora, com suas coisinhas bem organizadas. Desisto, e deixo ela atirada em meu ombro. Bê bate no meu ombro com sua mão fechada em punho e antes de começar a chorar, grita pelo seu pai. Ah, eu definitivamente não mereço isso.

-Mal passou três dias com ele e já se acostumou dessa forma? - Olho para o seu rostinho, seus olhinhos cheio de lágrimas. - Meu amor, não chora... a mãe está aqui e te ama tanto. Seu pai não pode agora.

-Paipai. - Minha pequena retorna com seu choro. Passo a mão livre em seu rostinho e ela tira. O problema é esse, ela não quer eu, quer seu pai.

Sento novamente na cama, olho para a escrivaninha com o relógio e vejo que só nessa brincadeirinha dela chorar e não querer dormir já tinham se passado um pouco mais de uma hora. Meu celular estava bem a frente. Ela ainda chorava. Não poderia deixar minha filha assim para suprir meus caprichos, mas dói saber que eu não sou o bastante para ela, que seu pai é essencial... Eu sempre soube disso, mas não sabia que poderia ser tão difícil assim.

Largo-a na cama e ela se deita, pegando a sua fraldinha e respirando pelo nariz, com certa dificuldade, chorar demais deve atacar a sua adenóide. Com uma mão disco o número de Bruno e com a outra passo sobre seu corpinho, que cubro com a coberta. Fico olhando para ela e ele finalmente atende.

-Alô. - Seu timbre entorpecido de sono, rouco, deixa-o sexy. Não tenho que pensar nesse tipo de coisa.

-Bruno! - Agraço por ele me atender. Minha princesa já levanta a cabeça para o meu lado, melhorando um pouco seu rostinho.

-Você está bem, a nossa filha está bem? A nossa da barriga, ou a Bê? - Porque ele pensou que eu estava mal? Sim, quatro horas da manhã e eu apenas iria ligar para dar oi. Óbvio que não.

-Teria como vir aqui em casa? - Pergunto ignorando as perguntas que ele fez.

-Agora?

-De preferência.

-O que aconteceu? - Pergunta pensativo.

-A Bê está desesperada chamando por você. Não posso sair de casa com esse sereno, não faria bem para nenhum de nós três. - Sua respiração pesa, é a segunda vez que eu o acordo, sei que não é legal, mas o que eu posso fazer?

-Chego ai daqui a pouco. - Ele apenas desliga. Sei que ficou irritado comigo, ele odeia ser acordado.

Coloco minha filha no carrinho, com cobertas e bem aconchegante. Coloco seu inseparável leãozinho e sua fralda de pano para ela poder se distrair, e a levo para a sala junto comigo e um cobertor. Me instalo lá no sofá mesmo, já que seria impossível eu voltar a dormir, e não quero correr o risco de acordar nenhum dos dois. Embalei o carrinho e ela me olhava, com seus olhos ainda cheio de lágrimas. Deus porque tudo está parecendo tão difícil ultimamente? Meu filho que está dentro de mim não tem culpa de eu estar grávida, isso aconteceu antes de eu ir embora da casa do Bruno. Tudo está complicado. Pensei que saindo da casa iria sumir meus problemas, mas só sumiu as brigas diarias com o Bruno, porque ainda está a mesma coisa, senão pior. Minha filha era acostumada a ter seu pai babando sobre ela dia e noite, e agora eu acabei estragando isso, eu sou culpada indiretamente do choro dela, da infelicidade que ela deve estar passando.

-Peppa! - Ela diz quando o desenho começa. Não fazia ideia que dava desenhos a essa hora da madrugada.

Viro seu carrinho para a televisão e enfim eu consigo ouvir seu risinho, mas não por muito tempo. Logo tenho que embala-la novamente por que o desenho acaba. Ouço duas batidas na porta e deixo-a sozinha rapidinho para atender Bruno.

-Onde está ela? - Grosso! Não respondi, fiquei olhando ele entrar e minha filha gritar mais uma vez por ele, menos mal que não é chorando. - Minha princesa. - Ele passa a mão sobre seus cabelos enrolados de não pentear. - Acordou a mamãe me chamando? Pra que esse escândalo todo, hein? - Sua voz falando com ela é tão doce. Meu peito alivia, porque finalmente ela conseguiu seu pai ao seu lado e parou de chorar. Fecho a porta e me sento ao seu lado no sofá, com um pouco mais de distância.

-Obrigada por vir, ela não parava de chorar.

-Estou vendo seus olhinhos vermelhos. - Ele meche em sua bochecha e ela ri, escondendo o rosto perto do seu braço. - Você está bem?

-Com sono, cansada e com dor, mas bem.

-Dor onde?

-Um pouco nas costas, coisa da gravidez. Mas estou achando que é um pouco mais psicológica, porque antes de saber que eu estava grávida não sentia nenhuma dor, além dos enjoos que eu achava que era normais no inicio, porque tinha passado por dores no estômago.

-Precisa de analgésicos? - Nego com a cabeça e ele fica acariciando nossa filha, e seus olhinhos vão se entregando para o sono. Ele boceja e eu também, rimos disso e então ele olha para minha barriga e eu fico sem jeito. - Precisa que eu vá com você amanhã?

-Hoje. - O corrijo e ele dá de ombros. - Não vou ter ultra-som amanhã mesmo, só irá ser consulta chata de rotina e encaminhamento para exames.

-Hoje! - Ele me corrige e nós dois acabamos rindo, e nossa filha, apesar dos olhos quase fechados, ri também.

Bruno embala ela até ela cair no sono pesado. Amanhã não irei ter forças nem pra ir pro serviço, quanto mais para a consulta, vou parecer um zumbi. Ele a põe no carrinho, é perigoso deixa-la dormindo no quarto enquanto estamos na sala. E então começamos a conversar, já que estávamos ali.

-Eu ainda não entendi aquilo que você me falou na festa. - Diz ele.

-Aquilo o que?

-De alimentar corvo... sei lá. Tive a impressão que estava falando indiretamente de alguém.

-E estava. - Um dia ele precisará saber quem a Paige é.

-Quem era? O porque falou aquilo.

Expliquei o que aconteceu dentro da casa e o que ela me falou. Falei do meu lado também, que a enfrentei. Mas não falei o porque começamos com isso, não poderia deixar escapar que eu ainda penso nele com tanta frequência como se nós fossemos namorados ainda.

-E o porque começou isso? - Ele estava com a testa franzida.

-Banalmente, um assunto idiota.

-Assunto idiota? Me poupe Nicole, você não discutiria com ela por pouca coisa.

-Juro que foi por idiotice, eu esbarrei nela quando saí do banheiro.

Bruno gargalha alto, mas para em seguido. Idiota, será que não vê que nossa filha está dormindo. - Você não faria isso.

-Mas eu fiz. - Me arrependi de contar pra ele. - O importante é que sua amiguinha não é nenhuma santa.

-E você também não, deixasse ela discutindo sozinha, mas não, foi lá e discutiu também.

-Queria que eu desse as costas?

-Seria mais sensato. Paige não é assim.

-Bruno, se você vai ficar do lado dela, se é que tem um lado essa história,  eu acho melhor que vá embora, chamei você aqui por causa da sua filha e não por caprichos meus.

-Eu não estou do lado de ninguém, só estou tentando dizer o que eu penso sobre as duas.

-Pouco me importa o que você pensa, ok? - Minhas mãos tremiam, não sabia o que poderia significar, mas o amor passou tão rápido na hora que deu lugar a ódio a ponto de querer enfiar minhas mãos no seu pescoço.

-Eu sei que importa, Nick.

-Ela falou aquelas coisas pra mim não foi por diversão, deve ter um porque! - Suspiro fundo.

-O que seria esse porque?

-Nada Bruno...

Tocar feridas antigas dói tanto. Ele estava defendendo ela, e ela discutiu comigo por causa dele, está mais do que na cara que eles tiveram algo, e eu sou uma idiota por ter pensado que não. Não queria lembrar de nenhum detalhe das nossas brigas diárias, das nossas discussões e das vezes que ele estava bêbado.

-Se você não falar eu nunca irei saber! - Bruno estava tão sério. Meu peito já se contorcia, eu não poderia chorar, não queria chorar.

-Estou falando do fato de você me trair com ela.

-Trair? Nicole! - Ele tenta segurar as minhas mãos, eu tiro rapidamente me encolhendo mais para o lado. - Nicole, eu não seria capaz de trair você. Eu nunca beijei, nem transei com outra pessoa em todos esses anos que estamos juntos, além de você! E agora que estamos separados eu também não fiz isso. Sei que quer que eu siga em frente, mas eu não consigo porque eu te amo!

Ouvir aquelas palavras me deixaram tão confusa. Eu tinha duas opções, beija-lo e acreditar nele, ou pedir que ele fosse embora e chorasse sozinha, eu quero fazer os dois. Eu quero acreditar nele, mas parece que tudo é mais impossível depois de tudo que passamos juntos.

-Vá embora, por favor. - Peço baixinho, escondendo o rosto entre as mãos, quando sinto o seu toque.

-Eu não posso ir embora, você não vê que nós temos que ficar juntos?

-Não... não temos. Vá embora, por favor.

Choro, tentando colocar pra fora o que estou sentindo. Deus, como eu queria que as coisas fossem mais fáceis, ou que nós mulheres fossemos mais fortes. Me considero forte até certo ponto, eu era muito forte até conhecer o Bruno. Descobri nele minhas fraquezas, ele me deu a fraqueza maior, que é meus filhos. Se algo acontece à eles, eu posso até morrer. E odeio admitir, mas se algo acontecesse ao Bruno, também poderia morrer. Ao mesmo tempo que Bruno e meus filhos são minha fraqueza, eles também são minha rocha. Me sinto viva por ter eles.

-Não chora... eu te amo tanto, tanto! - Sua testa repousa no meu ombro e eu tenho vontade mais ainda de abraça-lo. Ele parece estar falando a verdade. - Desculpa por sempre ser um idiota. Eu confio em você e acredito no que me falou sobre ela, vou me cuidar.

-Eu preciso de tempo, vá embora, por favor.

-Não posso.

-Se você ama ela, você vai embora, Bruno, por favor! - Ouço a voz de Thales. Nem me viro para olha-lo. Apenas vejo o Bruno dando um beijo em nossa filha e me olhar por segundos, com os olhos inchados.

Ele foi embora e eu me sinto envolvida pelo abraço do Thales, que me conforta. Choro livremente em seu ombro, embora queira realmente parar de chorar e encarar a vida. Mas eu não consigo ser tão forte assim.

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