Assim que concluí a música, vi seus olhinhos se pesarem mais ainda. Ela então, caiu nos braços de Morfeu, e eu passei minha pálida mão a sua cabecinha, sua pele tão macia. Sorria, maravilhada, com esse maravilhoso presente que Deus me concedeu.
Levantei para coloca-la no berço e a tapo direitinho. Desligo o ar condicionado, verifico a baba eletrônica, e desligo a luz.
-Você cantando pra ela foi de longe uma das cenas mais lindas que eu poderia ver em toda minha vida. - Ouço Bruno dizer assim que fecho a porta. Levei um susto com isso.
-Estava ouvindo? - Pergunto.
-Não, estava olhando daqui. - Ele aponta pra porta.
-A bom. - Digo sem animação e indo para o quarto com ele caminhando ao meu lado. - O que o médico disse?
-Você não ficará viúva. - Ele ri da sua piada.
-Até porque eu não tenho marido. - Respondo, talvez tenha soado um pouco ríspido demais. Se corpo deu um tranco, parando no meio do caminho. Eu continuei com meus passos até o quarto, sentia seu olhar me observar, eu não quero olhar para ele, eu só quero trocar minha roupa e deitar, mas eu preciso saber o que o médico falou para ele.
-Quando nós brigamos? - Pergunta sua voz se aproximando de mim quando eu abro a porta do nosso quarto.
-Nós brigamos? - Pergunta semicerrando os olhos para ele.
-Odeio quando você se faz de desentendida. - Ele bufa girando seus olhos. - Quero dizer, porque está tão fria comigo? Nós estávamos bem...
-Você sabe meus motivos. - Sinto meus olhos se umedecerem levemente e sigo meu caminho de volta para o quarto.
Ele não falou mais nada, não sei se está pensando em alguma coisa para falar, se está ingerindo o que eu falei, se está bravo e não irá falar mais nada... Não sei.
Jantei juntamente dele, quer dizer, eu na cozinha e ele na sala de jantar. Não demos uma única palavra. Fui para o quarto e ele foi na mesma hora que eu.
Abro o closet, procuro minha roupa para dormir e vou para o banho.
Eu posso depositar tranquilamente qualquer lágrima embaixo do chuveiro, mas eu não consegui chorar. Meus olhos ficaram somente marejados, mas as lágrimas não caiam.
Vesti minha roupa e Bruno já encontrava-se na cama, deitado e tapado até o pescoço.
-Não tenha medo de me perder... isso não vai acontecer. Nós não casamos, nem somos noivos, mas se depender de mim vai ser até que a morte nos separe. Eu amo você, amo nossa filha, e amo a família que construímos juntos...
-Então pare de me provocar com essa mulher em minha vida. - Retruco. - Bruno, você tem noção o que é olhar pra ela e ver exatamente o tipo de mulher que você gosta, ali disposta pra você, basta um toque e ela corre... - Balanço a cabeça e pego meu celular na mesa da cabeceira. Deito ao seu lado, mas sem muita proximidade, e ouço ele retrucar algo que não entendo.
-Já disse que eu não trocaria você por nenhuma mulher do mundo, Nicole. - Ele mexe-se na cama, e enquanto encaro o teto, sinto o seu olhar em mim. - O que eu faço pra acreditar em mim?
-Bruno... você lembra como você era antes de nós namorarmos?
-Lembro, e você lembra o quanto eu mudei?
-Nós nunca mudamos o que realmente somos. - Implico e ele suspira fundo.
-Acha então que eu ainda sou aquele moleque que tirava sarro de você no colegial? Que transava com qualquer uma?
Fiquei em silêncio e ele vira-se bruscamente agora olhando para o teto também. Ele sabia o motivo do meu silêncio, e eu precisava ser sincera.
-Estou com princípio de pneumonia.
-Como? - Pergunto e olho para o seu rosto, parecia mais pálido.
-Você ouviu. - Sua vez de ser ríspido comigo.
-Vamos comprar seus remédios amanhã, eu pego na farmácia quando estiver voltando do serviço, e peço para vir mais cedo.
-Repouso absoluto por três dias, se precisar, mais. - Ele parecia não estar ouvindo o que eu estava falando, ou me ignorava.
-Onde está as receitas? - Pergunto e ele somente respira fundo.
-Pode suspender a babá amanhã, e nós próximos dias, eu fico com a nossa filha.
-Bruno, dá para me responder? - Pergunto. - Está agindo como uma criança.
-Criança aqui está sendo você, que prefere acreditar no que não existe só para se machucar mais. Você é masoquista, Nicole. Olhe pra você, não tem motivos para estar assim, sabe que eu sou seu, sabe que nós temos uma família, mas ainda sim prefere acreditar no inexistente.
Suas palavras foram facas em meu peito que parecia de aço, mas era papel. Senti-me rasgando por dentro, numa fervura alta, uma raiva de mim mesmo, e aquele sentimento de ouvir a verdade e não poder nem questionar. Ele está certo, eu insisto enxergar coisas onde não tem.
-A dor de somente pensar em perder você, Bruno, dói mais do que qualquer ato físico impulsional. - Faço o mesmo que ele, agora volto a encarar o teto.
-Eu tenho que estampar em minha testa que eu amo você. É você Nick, não é mais ninguém, somente você. - Ele diz numa súplica que me fez ter o impulso de ir para o lado e beijar a sua bochecha, e quando ele me olha, confuso, beijar levemente seus lábios.
***
Mesmo enquanto trabalhava, eu não conseguia me concentrar em nada. Bruno ocupava a minha mente de preocupações. Tenho medo de que ele não se cuide direitinho enquanto eu esteja trabalhando e acabe acontecendo algo para ele. Foi um sacrifício ele entender que ele não poderia ir para o estúdio hoje, mas consegui convence-lo. Eu sei que Bruno está se sentindo desolado depois que sua turnê acabou, e que ele não vê a hora do tempo no estúdio acabar para que ele possa fazer uma outra, ele ama as fãs dele, e o pior é que eu acho que nem sempre ele expressa isso.
Bê está passando o dia com a Lisa, achei melhor não chamar a babá, e o Bruno não tem condições de cuida-lá sozinha, então Lisa se voluntariou.
Pego meu celular para verificar se há alguma chamada, mas não tem nada. Respiro fundo e volto a agarrar a caneta para anotar algumas outras coisas.
-Com licença. - Ouço após duas batidas. - Oi, meu nome é Lucy, sou nova aqui e fiquei sem tinta na impressora. Disseram que eu poderia falar com você para me fazer esse favor. - Disseram, eu sei quem disse, Thales.
Sorri abertamente. - Olá Lucy, meu nome é Nicole, seja bem vinda, e fique a vontade. Tem aquele computador ali. - Apontei para o computador que Thales ficava quando era estagiário.
Meu tempo de estagiária aqui era um saco. Não tinha ninguém para me auxiliar como hoje eu auxilio alguns, era apenas eu, as máquinas, meus estudos e comprometimento. Como a empresa cresceu de uns tempos pra cá. Batuco a caneta enquanto tento me concentrar novamente no que estava escrevendo, mas o barulho baixinho da impressora parecia mais interessante. Hoje, qualquer coisa está mais interessante do que trabalhar.
Quando saí daquele escritório encontrei Thales na frente do elevador, como a gente sempre faz, mas hoje ele estava menos "feliz" do que sempre está.
-Conta, qual é o problema? - Pergunto.
-Nada. - Ele se escora na parede do elevador. Thales sabe que eu não engoli esse "nada" como resposta, então dá um sorriso fraco e amarelado, e indaga. - Estou exausto.
-O que foi?
-Ah, o de sempre. Meus pais brigaram no final de semana, justo nesse que eu fui pra lá. Aí cheguei em casa, e lembrei que tinha que trabalhar, resumindo, dormi umas duas vezes debruçado na mesa.
-Nossa. - Eu dei uma pequena risada pelo fato dele dormir, mas lamentei seus pais brigarem.
-Meu irmão separou-se da mulher, e agora vai morar com meus pais novamente, acredita? Absurdo!
-O que tem de tão mal nisso? - Pergunto enquanto caminhamos pelo estacionamento.
-Tudo! Porque quando eu estudava e trabalhava em Los Angeles, mas morava com eles ali, eles praticamente me expulsaram dizendo que eu tinha como me sustentar aqui, e agora com meu irmão eles abrigam normalmente, sendo que ele é cinco anos mais velho que eu.
-Família é família. - Dei de ombros.
-Você não tem irmãos, dê graças à Deus, porque é um saco.
Thales e seu muro de lamentações, vulgo, eu. Escutei boa parte das coisas que ele me falou e foi bom até, pude me descontrair com os problemas dele, enquanto o meu estava de repouso sobre a cama. Depois que peguei meu carro, no trânsito de Los Angeles, escorei minha cabeça para trás e fiquei martelando o que Bruno me falou ontem à noite. Ele tem razão, eu gosto de ficar sofrendo sempre, isso é terrível, mas eu sempre vejo coisas onde não tem. Não sei se é pela horrível experiência que tive, ou se é porque estou sabendo que antes Bruno era mulherengo e do tipo "estou nem aí".


Puta que me pariu, hein! Primeiro ao invés de publicar coloquei sair, daí voltei, e depois de reescrever fui publicar e foi para a página de acessar contas do google, beleza, fui na minha conta e voltou aqui, e aí? Bom a Julia acha que tava ali o indo comentário e não tava. Então pela terceira vez tô escrevendo quase a mesma coisa:
ResponderExcluirBruno tem razão, ela gosta de sofrer. Nicole é do Bruno e o Bruno é da Nicole, não tá tudo certo? Não tá tudo bem? Então, pra que ver coisas inexistentes só pelo passado e pelas pessoas insuportáveis? Para de achar e vai cuidar do seu namorido que está doente Nick!
Okay, acho que agora vai certo! uuuuuh!