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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Trinta e três - parte 2

Sento-me na cama, apavorada penso que estou atrasada para o serviço, mas lembro de dois detalhes importantes: hoje é sábado, e eu não estou em casa. Logo me remete a lembrança da noite anterior, Bruno fez-me sentir no paraíso, aliás, de uma forma inexplicável ele sempre consegue fazer isso. Viro meu rosto para olhar para ele dormindo, nu, somente o fino lençol o tapando.

Penso no quão difícil será encara-lo hoje e fingir que nada aconteceu, pois é isso mesmo que eu preciso fazer. Não quero ficar me martirizando pensando no que perdi, e nem sobre o que fizemos ontem à noite. Somos adultos... Nicole, você é uma idiota. Atitude mais infantil que ignorar o que aconteceu, não tem. Droga, preciso pensar.

Minha barriga ronca alto, meu bebê dá sinal de vida.

Meu bebê. A Bernie!

Passo a mão sobre a barriga e rapidamente me lembro da Bernie. Eu sou uma péssima mãe, se é que dá para me chamar de mãe. Levanto rapidamente e pego minha roupa pelo chão. Lavo-me o que posso no banheiro e tomo cuidado para não sair cheirando. Quando retorno ao quarto, Bruno já está acordado, recostado na cama, com o lençol tapando somente sua parte íntima.

-Bom dia. - Ele diz sorridente.

-Bom dia, Bruno. - Falo apressada catando meus calçados.

-Já vai embora? Vamos aproveitar o café da manhã.

-Não, eu preciso ir. Minha filha está sozinha, quer dizer, com o Thales e com a Lisa, mas e se eles não acordarem para dar mama à ela? - Digo confundindo tudo, estabanada e com medo.

-Deixa de bobagem, eles estão cuidando bem dela, se algo tivesse acontecido ela já teria ligado.

-Ah meu Deus. - Pego meu celular rapidamente e consto que ele está com a bateria quase acabando. - É, ela não me ligou. - Digo observando ele, talvez um pouco mais calma.

-Viu, está tudo bem, agora vamos tomar café! - Ele levanta tapando suas partes íntimas com a toalha. Pega o interfone e liga para a recepção, enquanto eu disco o número da Lisa.

-Alô. - Diz ela.

-Oi Li, está tudo bem?

-Sim, ótimo na verdade.

-Ah, graças a Deus. - Alivio-me um pouco e ela ri.

-A Bê está ótima, tomou mama e agora está olhando desenho com a dinda! Não é amor da dinda? Quem é a coisa mais lindinha? - Ela fala com voz de criança para Bê que resmunga um pouquinho e ri dela.

-Ela deve pensar que você é retardada. Se bem que ela não está errada.

-Hey, eu cuido da sua filha para você transar em paz e é isso que recebo em troco?


-Lisa! - A repreendo sentindo minhas bochechas queimarem.

-Quando chegar em casa nós conversamos. Como está o nosso bebê?

-Está bem, com muita fome! - Digo baixinho para o Bruno perceber. - Vou tentar dizer pra ele hoje. - Falo mais baixo ainda.

-Boa sorte, vou desligar, beijos.

-Beijos, daqui a pouco estou em casa.

Não sei se ela chegou a ouvir o que eu falei por último, mas logo ela desligou. Olhei para o banheiro no qual Bruno fechou a porta segundos atrás. Ajeitei a roupa que ele havia deixado espalhada, sobre a cama, e me sentei na cadeira rente a mesa com o celular em mãos. Bruno saiu do banheiro e sentou-se na mesa comigo. Conversamos muito pouco até o café chegar. Atraquei as coisas com vontade, e ele também não foi muito longe disso. Comemos o que podíamos e o que nos deixava satisfeitos e depois rimos enquanto contávamos tudo o que comemos.

-Será que eles cobram por desperdício? - Ele aponta para um pequeno pedaço de pão que havia ficado em seu prato.

-É óbvio que não, palhaço. - Rio dele mais uma vez. Estava divertida essa manhã.

Batuquei meus dedos na mesa, queria começar falando pra ele, mas não sabia exatamente isso: como começar. O que eu iria falar? "Oi Bruno, sabe quando você desconfiou que eu estivesse grávida, pois é, eu já sabia e te menti porque ainda estava abalada e tinha medo que acabasse tendo uma recaída, mas já que essa noite nós transamos e eu me decidi que estou melhor sem você, aí vi que poderia falar". Pra começar, eu não vi que estou melhor, estou numa confusão. Quero ele por perto, mas ao mesmo tempo lembro que nós dois juntos dará uma bosta, e voltará ao mesmo ponto em qual paramos: brigas por nada. Eu não quero mais isso. Meu bebê irá nascer em um ambiente calmo, tranquilo, seus pais separados, mas mantendo uma amizade legal! É melhor assim do quê juntos, se matando.

-Bruno. - Chamei sua atenção para mim, quando ele olhava pela janela. - Podemos conversar?

-Ah, claro. - Ele respondeu parecendo ficar nervoso repentinamente.

-Só não sei como começar isso, então, não exija muito. - Eu rio descontraída e ele se ergue, rindo, mas não com tanta graça.

-Tudo bem.

-Sabe quando você foi ao meu apartamento, perguntando como eu estava me sentido, e enrolando para perguntar se eu estava grávida?

-Sim. - Ele assente com a cabeça também.

-Eu falei que não estava. Mas eu tinha descoberto, na verdade enquanto falava com você pelo telefone, olhei para o teste que tinha a recém feito...- ele pareceu que iria me interromper. - Deixe eu terminar. - Peço a ele. - Eu sabia que estava grávida, desconfiava, e minha barriga está crescendo, não sei como não percebeu isso. - Ele ri. - Eu estou esperando mais um filho seu, Bruno.

Bruno não pareceu absorver a ideia durante alguns segundos. Ele me olhou com desconfiança, fez um gesto com a boca e pareceu pensativo, mas logo sorrio e sua mão procurou a minha.

-Você é a portadora das melhores notícias que eu posso receber. - Ele ri e eu também. - Mãe de mais um filho meu. Quer dizer, você será a única mãe que meus filhos irão ter, e os futuros, se Deus permitir, também.

-Chegamos ao ponto mais delicado. - Torço os lábios. - Eu estar grávida não significa que irá mudar algo. Na verdade não mudará nada. Continuamos amigos.

-Mas Nicole, essa criança precisa de pais presentes.

-Mas ela terá pais presentes. Eu vou estar sempre aqui, e você também. - Seguro sua mão. - Me entenda! Será melhor para todos.

-Para você, somente melhor para você. É difícil estar longe, sabia? Não ouvir o choro da minha filha em casa, não ver você resmungando. Eu estou com mil coisas entaladas aqui, - ele aponta para a garganta com os olhos ficando vermelhos por repreender o choro - mas eu não posso dizer nada. Eu estou respeitando o seu pedido de não tentar, mas é mais complicado do que eu pensei.


-Bruno...

-Me escuta Nicole! - Sua voz saí autoritária. - Eu sempre fui e sempre serei seu amigo, mas eu quero ser seu amigo e amante. Essas crianças precisam de pais.

-Nós separados nos damos bem melhor do que juntos, uh? Prefere que a gente crie elas no meio de brigas diárias?

-Eu vou mu...

-Não continue. - Tiro minha mão da dele. - Aproveitando a brecha, isso não pode mais acontecer. O que aconteceu ontem, os selinhos que você me dá, isso não pode mais. Você está livre para viver, sozinho, ou acompanhado por outra pessoa!

-Deixa de besteira Nicole. Eu quero você! - Ele sacode meus braços com urgência. - Se eu quisesse outras, eu estaria com outras. Eu estaria na cama de outra pessoa quando você pediu minha ajuda ontem à noite.

-Bruno...

-Eu tenho que dar mais provas do meu amor pra você, não é?

Fico em silêncio, silêncio absoluto! Eu não sei o que responder. Eu queria uma prova de amor, mais uma no caso, queria que ele me mostrasse que se nós voltasse-mos não iria ser ruim, iria ser bom, iríamos realmente estar mais maduros. Íamos arcar com nossos compromissos e de nossos filhos, ele iria me respeitar como namorada e eu a ele. Mas penso que pode ser a melhor saída ficar como estamos, sem mais aproximações amorosas, apenas bons amigos.

-Eu entendi. Você quer que eu te prove, eu vou te provar.

-Não precisa me provar. - Digo baixinho.

-Preciso! Eu preciso. Você tem duas coisas das mais importantes da minha vida, você é uma das coisas mais importantes da minha vida, e você não acredita em mim. Eu falo sério quando digo que te amo.

-Eu sei! - Repreendo um grito e ele vira a cabeça pro lado.

-Eu não te entendo Nicole. Eu não entendo as mulheres. Se você sabe que eu te amo, porque faz isso comigo? - Ele chega mais perto de mim. - Porque faz isso com nós?


-Eu não estou fazendo nada. - Ele bufa de maneira irritante e segura meus braços. - Sabe porque eu fiz isso? Porque estou cansada! Cansada. Passamos tanto tempo juntos, e nos tratamos como estranhos. Você saí para beber e eu fico em casa preocupada com você, e quando chega em casa você grita comigo como se eu fosse uma pedra no seu sapato. No outro dia age como se tudo estivesse bem. Eu cansei desses teatros, dessas peças que não se encaixam, desse amor que só consome e não repõe. Eu quero você Bruno, mas eu não quero sofrer mais. Você me deu as maiores alegrias da minha vida, mas eu nunca vou esquecer que me trouxe muita tristeza também. Eu lembro da minha adolescência como se fosse ontem. E o único pilar que me sustentava era minha família, porque? Porque eles me apoiavam e me encorajavam. Eles nunca brigavam, era raro, e continua sendo! - Respiro fundo repousando a mão na minha barriga quando sinto um pequeno incomodo.

-Você está bem?

-Estou ótima. - Dou um passo pra trás já não sentindo mais nenhum incomodo. - Ouviu o que eu disse antes? - Ele afirma com a cabeça. Meus olhos se preenchem de lágrimas.

-Eu ouvi Nick, eu peço desculpas por ter sido sempre um idiota. Eu sempre tentei fazer o melhor para você, mas vi que as coisas nem sempre saem como nós planejamos. Eu amo você, tanto quanto amo meus filhos e o resto da minha família, não importa que não estejamos juntos ou não, nada vai fazer mudar o fato de que eu te amo e sempre te amarei.

-Obrigada. - Minhas lágrimas caem.

Bruno Pov's 

Eu deixei ela sair pela porta daquele quarto de hotel, quando a porta foi fechada e eu vi a escuridão que aquele quarto ficou, eu vi minha vida. O jeito que minha vida ficará sem ela, sem sua companhia, sem seus beijos, seus carinhos, suas falas, suas juras de amor e seus dedos nos meus. Tudo isso eu sei que mereço, mas como eu vou continuar e me encorajar a viver uma vida solitária sem ela ao meu lado? Como vou ter noites tranquilas sabendo que ela está grávida de mais um filho meu, sabendo que ela pode a qualquer hora me apresentar um novo namorado...

I don't really need to look very much further
(Não preciso realmente olhar muito além)
I don't wanna have to go where you don't follow
(Não quero ter que ir aonde você não me siga)
I won't hold it back again, this passion inside
(Não vou reprimi-la, esta paixão aqui dentro)
Can't run from myself, there's no where to hide
(Não posso fugir de mim mesmo, não tem onde me esconder)

Whitney, você tem razão. Não posso fugir, não tenho como me esconder, eu não quero e nem posso ir ou ficar em algum lugar que ela não esteja junto comigo. Não posso e nem devo. E não vou!

Don't make me close one more door
(Não me faça fechar mais uma porta)
I don't wanna hurt anymore
(Não quero mais sofrer)
Stay in my arms if you dare
(Fique em meus braços se você se atrever)
Or must I imagine you there
(Ou devo imaginar você ali?)
Don't walk away from me
(Não vá para longe de mim)
I have nothing, nothing, nothing
(Não tenho nada, nada, nada)
If I don't have you
(Se eu não tiver você)

A frase que minha mãe dizia aparece em minha mente "um homem não é nada sem uma mulher ao seu lado". E não é. Estou me sentindo tão vazio, tão incompleto. Queria que a Nick entendesse meu lado, visse que eu realmente a amo, que eu estou disposto a fazer qualquer coisa para ter a nossa família unida novamente. Eu preciso, quero, necessito, da Nick em meus braços. A Nick, a Bê e esse bebê que está por vir.

Eu quero minha família, e eu não vou deixar nada nos destruir. Se for preciso de tempo, eu dou tempo à ela, e enquanto isso planejo uma forma dela acreditar em meu amor, dela me perdoar.

2 comentários:

  1. Finalmenteeee a pessoa tomou coragem ���� .
    Uma vez indecisa, sempre indecisa não adianta kkkkk.....Será que esse bebê vai ajudar pra eles voltarem??
    Estou curiosaaaa (normal k), já quero o próximo! Mil beijos, até��

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  2. Faz o Bruno sofrer mais, o que ele fez com a Nick não se esquece facilmente, deixa ele ficar lamentado depois de que perde, bjs

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